Million Dollar Kiss
The Ego's Last Stand.

12.6.10

Uncleless

Eu me lembro que, no dia em que meu tio morreu, eu consegui fazer uma risca perfeita com o pente no meu cabelo - e então, meu tio morreu. Se eu não tivesse repartido meu cabelo tão perfeitamente, meu tio ainda teria morrido? Ou a risca foi um aviso de que ele estava para morrer? Agora, sempre que, acidentalmente, faço uma risca perfeita no meu cabelo, fico com medo de que alguém morra logo em seguida.
Na verdade, ele não era meu tio. Ele era o tio da minha mãe, mas eu o chamava de "tio". Eu não tenho tios de verdade. Tive tios em potencial, antes de nascer. Mas quando nasci, eles já tinham morrido. Por causa disso, eu não tenho primos, primos de verdade, mas primos do meu pai. Uma vez, eu descobri que uma amiga minha era sobrinha da esposa de um primo de uma prima do meu pai e passei a chamar essa amiga de "prima". Meu primeiro beijo foi com o irmão dela. A irmã mais nova dos dois me adorava. Ela me deu o primeiro pedaço do bolo de aniversário dela - coisa que deixou a minha amiga um pouco chateada porque ela tinha passado a manhã fazendo o bolo. Agora, o irmão dela já tem uma filha.
Eu tive uma "irmã" também. Era uma outra amiga, muito querida, que tinha mãe, mas não tinha pai, e que eu queria muito que meus pais a adotassem de alguma forma. Ela morava com uma irmã, uma tia e uma avó, todas de verdade, mas a mãe tinha se casado novamente e não morava mais lá. Um dia, a gente discutiu e nunca mais se falou. Anos depois, ela morreu em um acidente de carro. Eu não sabia se isso também tinha acontecido por minha causa, porque eu briguei com ela e fui cruel com ela.
Eu só consegui chegar a tempo do enterro. Ao entrar no cemitério, uma amiga me reconheceu, me abraçou e começou a chorar tudo o que ela tentou segurar até aquele momento em que ela me viu. Eu já estava chorando antes de chegar, por todo o caminho da minha casa até lá. Eu chorava tanto que todo mundo que já tinha chorado tudo que tinha para chorar durante o funeral começou a chorar de novo. Com exceção de uma outra amiga do nosso grupo porque o pai dela tinha morrido quando ela era criança e, desde então, ela achava que apenas casos de morte na família mereciam choro. Eu nunca a vi chorar por coisa alguma.
No final do enterro, eu abracei a irmã de verdade da minha "irmã". A primeira coisa que ela disse para mim, ao colocar os braços ao redor das minhas costas, foi "nossa, que cabelão!". Poucos dias depois, eu cortei meu cabelo curto.

9.6.10

Quando a chatice deixa de ser legal

O indivíduo reclama que o melhor do cinema equivale à uma literatura mediana, só que nunca conseguiu escrever algo que sequer se aproximasse da qualidade e da beleza de imagens como estas:



Me mostra um livro ou post seu que tenha o mesmo valor que o rosto da Greta Garbo ou mesmo uma caretinha da Myrna Loy, asshole.

2.6.10

Utilidade própria

'Vou contar uma coisa que me aconteceu: Muitos anos atrás, eu decidi que queria saber certas coisas, mesmo que jamais pudesse contar para ninguém e mesmo que eu jamais pudesse publicar uma única linha a respeito. Eu pensei assim: “Olha, vamos fazer o seguinte: Eu serei eternamente um desconhecido, ninguém vai ouvir falar do que eu fiz, ninguém vai saber o que eu fiz. Sendo assim, o que eu quero fazer?” [...] Não digo que vocês precisem fazer um teste tão exigente assim, mas vocês precisam espremer a própria vaidade até distinguirem quem vocês querem ser de quem vocês querem parecer.'

30.5.10

"If you venture to think in America, you also feel obligation to provide a historical sketck to go with it, to authenticate or legitimize your thoughts. So it's one moment of flashing insight and then a quarter of an hour of pedantry and tiresome elaboration - academic gabble. Locke to Freud with stops at local stations like Bentham and Kierkegaard. One has to feel sorry for people in such an explanatory bind. Or else (a better alternative) one can develop an eye for the comical side of this."

Trecho bacana de "More Die of Heartbreak", Saul Bellow.

14.5.10

A Clockwork Orange

'Burgess said that it (A Clockwork Orange) was the least favorite of his books, and that the muddled meaning was due to the film being based not on the first, British edition but the truncated American version. According to his Introduction to the restored American edition (1986), he gave in to his first American editors because he needed their money, though he knew that they were turning the story into a sensationalistic fable by cutting his crucial last chapter. In Chapter 21 (the number of the last chapter for symbolic reasons), "my young thuggish protagonist grows up" because he recognizes "that human energy is better expended on creation than destruction."'

Daqui. Via. Grazie tanti.

12.5.10

Get Smart

Siegfried: How do I know you're not Control?
Maxwell Smart: If I were Control, you'd already be dead.
Siegfried: If you were Control, you'd already be dead.
Maxwell Smart: Neither of us is dead, so I am obviously not from Control.

Gosto de dividir as pessoas em agentes da CONTROLE e agentes da CAOS, como em Get Smart. Os mocinhos que lutam contra as forças do mal são agentes da CONTROLE e os vilões que querem badernar com o mundo são da CAOS. Feita essa divisão na minha cabeça, passo a compreender muitas pessoas. Compreendo, mas entendo que somos, vá lá, inimigos. Obviamente, sou da CONTROLE e eu preciso lutar contra os agentes da CAOS.

*

Muitos trechos de The Complete Enderby são recitáveis por inúmeras razões, mas, em Enderby's Dark Lady, depois de se passar por um reverendo batista, Enderby diz:

"'Never ask me to be insincere again. God won't attack, anyway. He could see through the confusion. A great one for sorting out chaos. In London on a hoarding I saw DEVLIN THE BIG NAME IN DEMOLITION. I misread that Devlin, naturally.'''

*

Posso não saber explicar direito ainda, mas o que entendo muito bem dentro de mim é o seguinte: Criar (falando de criatividade mundana mesmo, escrever, desenhar, fazer filmes, compor música, etc.) é uma forma de religião, de comunhão com Deus, já que o simples ato de criar algo e organizá-lo em torno de uma forma pré-concebida trata-se do exato oposto de toda e qualquer forma de destruição, coisa que, desde seu fundamento, é demoníaca.
Apesar de comum, não consigo conceber racionalmente como que pessoas ligadas à qualquer tipo de Arte possam se dizer niilistas, atéias ou sejam simplesmente cínicas e prefiram ignorar a posição de agentes do bem/mal na guerra que acontece entre nós, etc.. Quando isso realmente ocorre, entendo que a pessoa está enganada com relação a sua postura no mundo, que não pensou direito no que faz da vida e, basicamente, não sabe à que agência pertence (CONTROLE/CAOS) ou, pior, trata-se de um agente duplo, deliberadamente dissimulado e vil.
A maioria das pessoas estão apenas enganadas. Apesar de tudo que aprendemos e ouvimos do mundo, acredito que os agentes da CAOS ou mesmo os agentes duplos são essencialmente boas pessoas que estão confusas, temporaria ou permanentemente. Apesar de existir, com toda a certeza absoluta, acho muito difícil encontrar um agente do mal puro, assim, cara-a-cara. Em geral, todas as pessoas que fazem idiotices são apenas isso - idiotas - mas dificilmente malignas.
Conhecendo algumas pessoas e sabendo de alguns dos pontos altos delas (e que, constantemente, lidam com a criação) eu sei que elas são da mesma agência que eu, apesar de não saberem ainda, apesar de estarem confusas. Infelizmente, eu não tenho como contar isso pra elas - ou até tenho, mas como vão saber de verdade se eu não estou mentindo, se eu não sou da CAOS e estou me passando por agente da CONTROLE ou vice-e-versa? Bom, como nenhum de nós está morto até agora...

26.3.10

Sofia Skrum Agnem

Algumas pessoas tem ou tiveram cachorros, mas nunca dedicaram ou pensaram em dedicar tempo ou atenção que fossem suficientes para realmente conhecê-los. Cada cachorro possui uma personalidade - sim, uma "personalidade" - que é complexa e única. Muitas dessas personalidades são especialmente maravilhosas. Para perceber tal, é necessário um pouquinho de curiosidade, um pouquinho de amor. Não sei o que surge primeiro, se é a curiosidade ou o amor. Eu automaticamente amo todos os cachorros e, logo, sinto curiosidade em conhecê-los, brincar com eles, conversar com eles - mas talvez, somente a curiosidade em passar esse tempo com eles que pode tornar o amor possível. Não sei. Mas veja, estou usando a palavra "amor" porque dificilmente poderia usar outra. Não há absolutamente nada que possa justificar o carinho imenso que se sente por um cachorro, nenhum conceito Freudiano, nenhum tipo de interesse ou egoísmo. Trata-se de uma afeição em estado bruto, absoluta, pura, completamente desinteressada por alguém - sim, "alguém" - que não é nem mesmo da mesma espécie que você.
Acho tão bonito como, nos filmes do Ozu, parentes que não são consangüíneos estabelecem relações muito mais significantes, intensas e amorosas do que os filhos com os próprios pais. Para mim, isso significa a incrível capacidade de poder amar a qualquer um, por mais distante ou diferente; que eu sou capaz de estabelecer uma ligação forte e importante com qualquer pessoa, qualquer ser, qualquer coisa; que eu posso me tornar parente de qualquer um e escolher minha família em qualquer lugar.
Aos dez anos de idade, eu ganhei minha primeira cachorra, a Bia, e ela era extremamente complexa, muito mais complexa do que algumas pessoas que conheci. Ela era carinhosa, mas de forma muito séria, muito altiva. Ela não fazia gracinhas, ela não gostava de colo ou que a apertassem muito, mas ela gostava de atenção e de um tipo de afeto muito austero, quase frio e distante, mas ainda um afeto. A impressão que passava é que, apesar de gostar das pessoas ao seu redor, ela não queria se mostrar completamente vulnerável ou dependente - mesmo sendo um lhasa apso de lacinho.
A última vez que a vi, pouco antes dela morrer, foi durante uma madrugada. Eu já estava deitada quando ouvi ela chorando bem baixinho. Minha mãe tinha ido até a cozinha e fechado a porta da corredor. Eu levantei, abri a porta do meu quarto e perguntei "mamãe te deixou presa?" e ela me olhou toda envergonhada pela situação, talvez por não poder passar sem minha ajuda. Eu abri a porta para ela e ela me olhou de novo, me agradecendo silenciosamente. Ela era capaz de transmitir qualquer sentimento, por mais específico ou complicado que fosse. Era a cachorra mais envergonhada e pudica que eu já vi. Fazer xixi com alguém presente, olhando para ela, era uma tortura. Quando muito doentinha e fraca, ela preferia ficar sozinha - uma coisa muito Greta Garbo - mas sempre que a gente levava remédio ou comida para ela, por mais desagradável que fosse ou por mais cansada que estivesse, ela sempre nos agradecia com uma lambida fraca na mão.
Quando a Sofia chegou em casa, a Bia já estava velhinha. A Sofia tentava brincar com a Bia, pulando e batendo as patinhas no chão. A Bia virava a cabeça, visivelmente incomodada, como se estivesse sendo importunada em sua própria casa por uma pirralha. Mas sempre - sempre - que a Sofia chorava por qualquer motivo que fosse ou fazia qualquer barulho estranho, ela se levantava e se aproximava lentamente, com o pescoço muito esticado, cheirando a Sofia, tentando verificar se ela estava bem. Ela fazia o mesmo quando a gente ficava doente ou quando alguém começava a chorar. Ela era muito especial e eu sei que vou reencontrá-la algum dia.
A Sofia é completamente diferente, mas de uma forma muito boa. Ela nunca sente vergonha, nunca recusa qualquer tipo de atenção ou afeição - ao contrário, ela é sempre extremamente grata. Ela é curiosa, inteligente e sempre alegre, sempre disposta para seja o que for. Mesmo que a perturbem, ela não sabe bem o que fazer. Ela até pode rosnar um pouquinho mas, logo em seguida, ela dá umas lambidas como quem pede desculpas por ter perdido a calma. Ela não tem vergonha ou medo - não que ela seja muito corajosa, ao contrário, mas até o medo dela é uma coisa meio macarrônica, como uma brincadeira, como fingir que está com medo de uma garrafa plástica e, de repente, começar a rolar com ela pelo chão.
Sinto um orgulho verdadeiro pela Sofia ser da minha família e por ela ser tão maravilhosa. Algo que eu falo constantemente e sempre com o orgulho e a vaidade de um velhinho que conta sempre a mesma história é que a Sofia é a melhor pessoa que eu conheço. Não acho que ela seja tão legal quanto uma pessoa - eu acho realmente que ela é a melhor, o melhor ser, a melhor coisa, com a melhor personalidade. Eu queria ser mais como a Sofia, ser extremamente grata e disponível o tempo todo. Eu tenho tentado. É muito gostoso quando eu consigo.

21.3.10

A twitch upon the thread

Há quatro anos que estudo japonês. Obviamente que avancei nesses quatro anos, que eu sei mais do que sabia no começo do curso ou mesmo dois anos atrás, não há como duvidar disso, mas há quatro anos que permanece em mim a exata mesma sensação de que o que eu deveria saber sobre japonês é esmagadoramente maior do que a quantidade de coisas que eu já sei e que eu jamais - jamais - vou poder conter o conhecimento da coisa toda ou mesmo ficar satisfeita com um quase-todo. Por um lado, isso é ótimo, sempre haverá alguma coisa nova para aprender, mas, por outro, é uma constatação que me deixa extremamente envergonhada e humilhada perante a grandeza da coisa, praticamente sem vontade de viver. Exagero, claro, mas um pouco desse exagero é muito razoável dentro de mim.
Eu demorei muito para decidir que entraria no curso de japonês porque era algo que eu, mesmo sem fazer idéia alguma, considerava tão grande, tão difícil que eu simplesmente não era digna de nem ao menos tentar compreender, que era algo que estava fora do meu alcance. Eu precisei de um pouquinho de coragem para fazer a matrícula, comprar os livros, freqüentar as primeiras aulas. Na verdade, por meses, ou mesmo por anos, eu sentia uma espécie de terror ao me aproximar da escola, cumprimentar aos donos em japonês e subir para a minha sala. Kondo, um dos donos, sempre fez questão de puxar conversa comigo em japonês e eu sempre me sentia derrotada pela verdadeira expressão de confusão total no meu rosto quando ele me perguntava alguma coisa. Na verdade, na verdade, eu ainda sinto um pouco desse terror.
Não me lembro em que ano, mandei um email para minha sensei - minha professora, meu Sr. Miyagi - dizendo que iria largar tudo, que eu estava com problemas pessoais, ocupada, deprimida, etc.. Ela me respondeu com um email muito longo que não me lembro muito bem, mas me recordo especialmente da expressão "se para você o japonês foi apenas um rio que passou na sua vida..." e de como isso apertou algum botãozinho em mim que me fez desistir de desistir do japonês. Eu queria mostrar para ela que meu interesse, que minha paixão era coisa séria, que o japonês não era apenas como um rio na minha vida, que, na verdade, era como um oceano todo. E, realmente, depois de algum tempo resolvendo algumas questões e me sentindo mais tranqüila, eu retornei às aulas de japonês com meu compromisso renovado e eu fiquei tão orgulhosa e tão feliz.
Todo o problema - o problema todo - que há comigo, que está em mim, se resume ao fato de que eu não consigo controlar muito bem as intensidades ou quantidades de valor que eu distribuo às coisas. Não é nem o caso de atribuir valores às coisas erradas - todas as minhas coisas, as coisas que eu escolho, são muito certas - mas eu nunca sei quanto me dedicar e quanto ficar completamente tomada ou destruída por alguma coisa, qualquer coisa que eu decida ter algum valor, alguma importância. O que eu gosto, eu geralmente gosto muito. O que me irrita, geralmente me irrita demais.
O problema de não querer rios, riachos ou laguinhos na minha vida - eu não suportaria viver com um laguinho de interesse ou de paixão na minha vida - é que tudo que eu amo se transforma em oceanos e eu sempre fico desesperada tentando conter a coisa toda e eu sempre me afogo. Diariamente, constantemente, eu me afogo em tudo, todas as coisinhas. Eu olho para os meus livros, meus dvds, penso em quantos não li, quantos não vi - e quantos eu quero ler, e quantos eu quero ver - e me afogo infinitas vezes, sempre de forma muito dolorosa e muito dramática. Se vocês vissem meu ego em todos esses oceanos, como o Titanic se partindo ao meio e se afundando (tenho um amigo cujo ego é como o Coliseu - enorme, porém todo corroído pelo tempo) é realmente algo triste de se ver - se ao menos desse para ver...
Há um mês que tirei uma folga das aulas de japonês porque estava me sentindo muito sobrecarregada - isogashii nee - e sinto que vou ter de usar minha coragem novamente para poder retornar, novamente. O bom da coragem é que, apesar de ser tão difícil de juntá-la e tão custoso para colocá-la em ação, não há porque fazer economia pois ela é também inesgotável. Você não deixa de fazer as coisas porque a sua coragem acaba, você só decide não usá-la, mas ela continua ali, presente para todo o sempre, mesmo guardada e com cheiro de mofo. Você pode usá-la quantas vezes quiser, ela nunca acaba. Esse é um fato - com certeza absoluta, um fato - que eu preciso me lembrar constantemente e justamente por causa dessa minha topografia marinha amalucada que vive formando abismos sub-aquáticos, oceanos profundérrimos em todos os meus prazeres, em tudo que eu admiro.
Apesar de todo esse drama, de todas as vezes que eu morro e que eu mesma preciso fazer uma auto-respiração-boca-a-boca anímica, eu tenho a sorte de acreditar que ao mesmo tempo em que eu mesma escrevo a minha biografia (ou vá lá, a geografia da minha vida, ou a geografia da minha história) eu também acredito no "destino", eu acredito no "twitch upon the thread" de Padre Brown e também de Brideshead.
Em um dos contos de Chesterton, Padre Brown diz ter pegado um bandido, não com algemas, mas com um gancho e uma linha invisível, que tal linha era como a linha de um pescador que permitia ao peixe a ilusão de estar livre na água apesar de preso pelo gancho, mas que bastava apenas uma puxadinha na linha para trazê-lo à terra.
Eu acredito que todas as coisas, todas as pessoas, tudo o que me pertence - ou tudo o que pertence a mim, pois a relação de pertencer é sempre mútua - está sempre muito preso, mesmo que distante. Que não importa aonde eu vá ou o que aconteça comigo, basta uma puxadinha no fio para trazer de volta tudo que se relaciona verdadeiramente comigo, tudo o que me pertence, tudo que pertence a mim.
Tenho consciência de que, mesmo que eu aparentemente abandone as minhas coisas, as minhas paixões, elas estarão para sempre ligadas a mim, presas a mim, com ganchos e linhas invisíveis e que, na verdade, não há porque desistir de nada que realmente me concerne e se relaciona comigo porque não há como fingir uma liberdade (uma ausência total de linhas invisíveis) que é simplesmente impossível e inexistente. Kono sekai no koto suki nandatta.

13.3.10

Paracetamol

Esses dias, estava conversando com um amigo sobre House, sobre como não sei o que pensar com relação a série. A série em si é obviamente repetitiva e cansativa, mas é também assistível e acompanhável. Apesar do paralelo entre Dr. House e Sherlock Holmes, é muito mais complicado diagnosticar alguma doença ou deficiência do corpo misteriosa (a não ser que você seja um especialista ou que possua a doença em questão) do que solucionar um mistério que envolva algum crime. É relativamente fácil se colocar no lugar do criminoso, imaginar seus motivos e suas ações em determinadas circunstâncias, mas descobrir de que doença rara alguém está sofrendo com base em sintomas que muitas vezes se contradizem e muitas vezes não dizem nada às pessoas comuns é muito mais difícil - e, por conseqüência, muito mais chato. Mas não me entendam mal. Não acho que House seja ruim. Ao contrário. Acho bem escrito. Mas minha confusão vem do fato de que eu não sei se devo me irritar ou ficar grata com a existência e a popularidade da série. Me irrita porque é o único símbolo de rabugice que as pessoas imbecis conhecem e idolatram (como se aguentassem lidar com alguém assim na vida real) e, por outro lado, talvez eu devesse ficar grata justamente por difundir a noção de que alguém convencido e/ou arrogante não precisa necessariamente ser uma má pessoa - ao contrário. Parece que House apresenta uma complexidade que as pessoas não estão mais acostumadas a ver, apesar de ser muito mais real e fiel do que o comportamento bovino que a grande maioria adota com relação a vida por conta da necessidade generalizada de aprovação. Mas também, não é triste que apenas na ficção as pessoas fiquem dispostas a compreender e aceitar alguém "difícil" ou que uma pessoa só possa agir daquela maneira naquele universo? Tô com dor de cabeça.

1.3.10

Bigode loiro

Juro que me compadeço quando vejo gente feia ou estúpida ou ambos, mas acho importante ter alguma maldade no coração. Uma maldade consciente, que te faz rir porque é muito maldosa e não necessariamente verdadeira. Construí amizades importantíssimas assim, partilhando momentos de maldade, falando barbaridades sobre os outros e concordando telepaticamente - "estamos brincando juntos".
Eu mesma sou quase que anormalmente insegura e sei como é horrível ouvir algum comentário verdadeiramente maldoso. Na escola, tinha um garoto chamado Gabriel que era extremamente maldoso comigo. Foram anos e anos de abuso. Um dia, fomos em grupo ao cinema e em algum momento, ele gritou dizendo que eu era a menina mais feia do colégio. Pouco tempo depois, numa avaliação das meninas, ele olhou bem pra mim e deu nota 6 para o meu rosto, mas mesmo naquela época em que minha auto-estima era zero, eu percebi que ele queria dar uma nota maior, mas não podia porque seria estranho, porque eu era eu. Como fiquei agradecida quando uma garota consideravelmente mais gorda, mais nerd, mais desajeitada e com um nome mais estranho do que o meu - ela se chamava Ielita - entrou no colégio. Digo, coitada dela.
Mas enfim. Quero dizer que entendo e conheço muito bem a verdadeira maldade, que dificilmente seria adepta de uma verdadeira maldade. Mas poucas coisas me desanimam mais do que a completa falta de maldadezinha, de sarcasmo, ironia, essa gente que não ri de piada de pobre ou de doença. Ninguém realmente quer ser o Gabriel, nem o Gabriel pensava como o Gabriel - acho que talvez, no fundo, no fundo, no fundo, mas beeem no fundo, ele sentia alguma atraçãozinha bizarra por mim que ele reprimia fortemente sendo grosso comigo. Depois ele ficou gordão. Bem feito. Mas quero dizer, nós que somos maldosos por esporte, sabemos que a pessoa não merece, que pode ser a pessoa mais gentil do mundo, que estamos brincando apenas (e apenas na intimidade, nunca para humilhar alguém publicamente, fazer alguém chorar, cortar os pulsos, etc..). Seria impossível lidar com a vida sem alguma maldade, sem a habilidade de rir de alguma coisa muito séria ou mesmo sem a menor graça.
Fiz toda essa introdução para dizer que lá em Natal, eu estava na piscina do hotel, muito preocupada com o meu próprio corpo, minha brancura, minhas coxas, minha barriga, etc., quando vi uma menina bem magrinha, sem um pingo de celulite, muito bem arrumada, de chapelão de palha, óculos escuros e um bigode impressionante. Era incrível. Ela parecia um adolescente interiorano. E ela tinha a pele bem branquinha e os pêlos muito escuros e pretos e grossos e, meu Deus, como que o namorado dela conseguia beijar ela sem sentir coceira? Sem o que falar na hora do jantar, mencionei a garota para os meus pais. Meu pai disse que tinha percebido, apesar de não ter falado nada na hora. Minha mãe disse, "coitada, por que ela não descolore os pêlos?" e eu "pff, como se adiantasse alguma coisa! um bigode loiro não é um bigode invisível, você não olha pra um loiro e pensa que ele é careca" e todos seguimos a fazer piadas com mulheres de bigode e demos boas risadas por alguns minutos. Foi um grande momento em família.