Testamento

Por aqui, só se fala nisso. Casamento, apartamento, orçamento. O que, inevitavelmente, faz a gente ficar em confinamento. Alguns dizem que são gastos, enquanto eu insisto: é investimento. Investimos em uma vida a dois, só nós dois, como a gente diz: curtindo o momento.

A tarefa mais difícil é descrever o sentimento. Ficamos felizes e bobos, fazemos contas, discutimos se é isso ou aquilo. Tudo ao mesmo tempo. Por exemplo: da janela da área de serviço tem que se fazer o fechamento. “Tá entrando poeira por causa do vento”. Da parede do quarto, temos que saber o comprimento. Será que vai caber o armário, a cama e um criado-mudo sem sofrimento?

Aproveitamos a fase. É diversão e não divertimento. Cada metro quadrado que vai preenchendo nossos espaços aumenta o batimento. Escolhemos músicas para a igreja. Dividimos cada detalhe da decoração. Bem, essa parte até que eu tento.

É assunto pra dar e vender. É tanta coisa pra ver que nem comento. E depois disso tudo, já tá decidido: vamos precisar de um tratamento. Uma viagem. Lua de mel. Só nós dois. De volta ao confinamento.

Todo dia

Hoje em dia tem dia de tudo. Antigamente, não. Era uma data comemorativa aqui, outra lá. Talvez nessa época o calendário fosse menos democrático. Na escola, lembro que importante mesmo eram: Dia do Índio, Dia do Soldado, Dia da Bandeira. Pintávamos a cara com tinta guache, fazíamos chapéu de jornal, cantávamos o hino nacional. Tinha ainda o dia da aula de educação física. E era toda semana. Maravilha.

Cria-se dias comemorativos mais do que feriados. Isso é totalmente lamentável. Como o Dia da Gratidão: 06 de janeiro. Ironicamente, data do aniversário do meu pai, a quem agradeço a paixão por escrever. Só de pirraça, os adultos criaram o seu dia: 15 de janeiro. Os gatos também têm o seu: 15 de março. O Dia dos Cachorros eu ainda não encontrei. Mas fica valendo como o Dia do Amigo: 18 de abril. Há ainda Dia das Mães e Dia dos Pais. Os filhos, coitados, ficaram sem dia. Deve ser algum tipo de castigo.

Novos dias vêm e vão. O Dia do orgasmo é gozação com a nossa cara. O Dia do Solteiro foi criado só para servir de consolo. Fechem os ouvidos: 13 de julho é Dia do Cantor de Música Sertaneja. Vinte de janeiro, o Dia Nacional do Fusca, é uma comemoração mais do que justa.

Segundo o Presidente do Calendário Nacional, Armando Dias, há uma fila de espera por novas datas. Ano que vem podemos ter ainda: Dia do Anão Ruivo, Dia do Ex-ladrão, Dia do Sócio Minoritário e Dia da Vida Loka. Todos eles, claro, com sua devida importância.

Li e gostei

A rede social é um livro aberto. E se tratando de literatura, um livro de autoajuda muito do mal escrito. Se é que podemos dizer o contrário. Diferente das livrarias, nas redes sociais as capas sempre atraem. O conteúdo, não. A ficção predomina, se é que você me entende. Os finais são, em sua maioria, previsíveis. Ontem eu li que alguém odeia segunda e adora sexta. Semana que vem provavelmente vou ler de novo.

Já percebi que há personagens do bem: os que me curtem. E os do mal: os que me ignoram. Há também os autores dramáticos. Os assuntos variam entre falar sobre o greenpeace, cachorros abandonados e famintos na África. A intenção é boa. Quem quer só contar história terceiriza ajuda.

Mas como não podia ser diferente, dá sempre pra se tirar boas coisas de lá. Aprendi que quanto mais alguém fala, menos faz. Que ovo frito com arroz é lindo: basta colocar um filtro. E olha que, pra mim, basta colocar feijão que tá bom. As montagens fazem bem para imaginação. Eu imagino um gordinho com o photoshop aberto, comendo fandangos com uma mão e recortando a foto com a outra. Os álbuns me dizem que preciso viajar mais. E as frases motivacionais me fazem lembrar de propagandas para intestino preso:

– No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade. (Activia)
– A persistência é o menor caminho do êxito. (Activia Light)
– A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável. (Lactopurga)
– Quando Deus fecha uma porta, ele pode estar abrindo uma janela. (Lactopurga Plus)

É batata

Minha mãe tem muita história boa. Ela é quem deveria ter um blog, na verdade. Ou escrever um livro, quem sabe? Pra mim, bastaria o título de leitor, tomando nota de tudo o que ela conta uma, duas, três vezes, sem se dar conta. E eu nem ligo. Nessa hora sou uma uma criança abobalhada. Finjo que é a primeira vez que escuto e rio não porque sou filho, mas porque é bom mesmo. Como a história da batata.

Ela conta que na infância minha vó tentava de todo jeito que ela comesse batata doce. E ela detestava batata doce, não comia nem por reza. Pelo menos até minha vó ter uma ideia. Num almoço qualquer, foi com o prato cheio de batata doce. Minha mãe bateu o pé: batata doce não. Minha vó, conhecendo a filha (metida) que tem, falou que aquela, na verdade, era a batata inglesa-japonesa. Batata inglesa-japonesa? Minha mãe diz ter arregalado os olhos. Afinal, uma batata inglesa-japonesa é coisa chique. De bacana. Ela comeu e gostou. Foi só mudar o diabo do nome.

E até hoje, sempre que faz batata doce, minha mãe conta a mesma história. É a nostalgia que também me faz voltar no tempo e lembrar daquela velha mandona, encrenqueira, bem humorada e muito vaidosa que era minha vó. Uma mãezona, acima de tudo. Como a minha. Uma mulher única, vencedora, guerreira, companheira, compreensiva. Cheia de coisas para contar. Como toda heroína deve ser.

Sinopse

Curioso como as histórias nos fazem imaginar as pessoas. E outra, sem ao menos conhecê-las. Os casos, de acordo com que são contados, vão moldando os rostos, a cor dos cabelos e até as personalidades.

A primeira imaginação é a que fica. Uma vez criadas, as características permanecem ali, na nossa cabeça, para os fatos que ainda virão. E assim, sem saber, as pessoas se tornam íntimas, mesmo que por engano. Já imaginei pessoa gorda como magra. A história talvez tenha sido mal contada. Já imaginei pessoa boa como ruim, a história talvez tenha sido mal intencionada. Já imaginei pessoa bonita como feia, prepotente como gente fina, simpática como cara de pau.

É a personalidade que faz o personagem, ou o personagem que faz a personalidade? Mocinho que é mocinho se apaixona por mulheres bonitas, não fuma, está sempre de cabelos penteados. Vilão que é vilão está sempre de voz alta, olha nos olhos, nunca se arrepende. E depois de Quase-Nada, do Chapolin, vilão que é vilão tem que ter cicatrizes. Cara de macho, mesmo que seja um bundão. Para um personagem que é gênio, óculos é fundamental. Ladrões de diamantes são ladrões de diamantes por hobby: o cabelo com gel não nega. Professoras americanas seriam ótimas atrizes do pornô e policiais atiram melhor que bandidos.

Aprendi que as histórias nos fazem imaginar as pessoas. E se eu me enganar, fazer o quê? Falha do autor.

Ensinamentos

Churrasco com os amigos é uma escola com tempo de recreio integral. Cada copo é uma aula e as matérias são boas histórias. É errando que se aprende e se eu pudesse não me formava nunca.

– Cerveja gelada só se pega pela ponta, senão congela.
– Não se pode tirar o olho do pão de alho, senão queima.
– Água e sal para acalmar o fogo.
– Bater de vez em quando na carne, senão salga.
– Latinha é desperdício de cerveja.
– A Skol ficou aguada, assim, do nada.
– Leve trocado, certamente vai rolar vaquinha.
– E se você tiver nota de 20, sai no preju.
– Álcool e sal para preservar o gelo. (funciona)
– 300g de carne para cada pessoa, isso se não tiver vinagrete e arroz.
– Um saco de carvão sempre é pouco.
– Um copo vai ser quebrado.
– Piscina e celular no bolso não combina.

Deu pra ver que a matéria é simples. Mas faço questão de repitir o ano.

Haja luz

Ok. Eu já tenho a minha opinião formada sobre a construção da polêmica hidrelétrica no meio da Amazônia, mas prefiro tomar uma cerveja antes de esbravejá-la. Ao menos assim sinto-me mais como os outros, olhando para o próprio umbigo. Aliás, não é isso que tem acontecido desde que essa choramingada começou? O que é interesse de uns, os outros que se danem.

Lado A se vestiu de verde defendendo as riquezas naturais e Lado B, de uniforme vermelho, defendendo a riqueza do desenvolvimento capitalista. A esperança de que surja um rio de oportunidades que, provavelmente, serão para poucos.

Claro que é mais prático levantar a bandeira que está balançando na sua frente. Formar uma opinião válida lendo prós e contras é, sei lá, falta de costume da gente mesmo. Com o pouco que sei, fico arrependido quando me envolvo, mesmo que seja por impulso. Só queria ao menos manter a minha humilde opinião. Derrubem as árvores. Mas, por favor, se for levantar da mesa do bar, cuidado com a minha cerveja.

Caxias

Na academia

– Sabe o Mello, do administrativo?
– O que pega a Fátima, da recepção?
– Fátima? Não era a Dulce, do financeiro?
– Calma lá, Figueira. A Dulce quem pega é o Sandro, do almoxarifado.
– Brinca com isso não. O Sandro é casado.
– O Mello também, ora.

No bar

– Não sabia que o Sandro pegava a Dulce.
– Quem te contou isso?
– O Pimenta, da informática.
– Achei que a Dulce pegava o cara da terceirizada.
– O que é gay?
– Não. O que foi preso ano passado.

No trabalho

– Bom dia, Mello.
– Fala, Figueira. Qual a nova?
– Ih, rapaz, tudo na mesma.
– Tá por fora assim?
– Se tô…

Sem Senna

Religiosamente falando, Senna agradou a todos. Alguns vão dizer que a Prost não. Então, pergunte a ele. Certamente rasgará elogios ao maior gênio que o automobilismo já viu, mesmo sendo este o seu maior rival. Inquestionavelmente melhor, ele ainda há de dizer.

Senna é sobrenatural. É, no presente. Porque ele ainda existe. Foi-se o físico, ficou o espírito  de quem soube, paralelamente, acelerar nas pistas e freiar fora delas para consertar os problemas sociais dos miseráveis brasileiros. Brasileiros esses que muitas vezes não tinham um prato de comida, mas faziam questão de expor nas janelas uma bandeira verde e amarela, após as vitórias aos domingos. A isso, denomina-se devoção por um ídolo. Ou, quem sabe, um Santo. Daqueles que passam por aqui a cada 2 milênios.

20 de outubro de 2012. 20 anos do tricampeonato de Senna.

O vídeo é do circuito inglês de Donington, criticado por muitos por não ter pontos de ultrapassagem. Até Senna provar o contrário.

Nem fiado. Nem pagando.

O mundo anda carente de muitas coisas. E, por experiência recente, de ambulantes em eventos públicos. Em especial, os que vendem ICEs. A procura pelo suco de limão que virou moda por ganhar um nome gringo é bonita de se ver. Eu, particularmente, não gosto de Ice. Sempre dá a impressão de que estou no Paraguai, tomando um drink em um hotel em Assumpção.

De volta ao Brasil, ficou decidido que iríamos ao Festival de Chocolate. Às 22h tocaria Lulu Santos. Cantor que divide sua agenda entre irritar o Faustão e fazer shows em Vitória ou Vila Velha. Resolvemos levar a nossa própria cerveja, com um diferencial que os ambulantes não oferecem: gelada.

Apesar disso, fui contra. Até porque tento ser mais prático nessas horas. E, também por experiência, sei que carregar isopor para lá e para cá em um evento aberto não é nada católico. Mas perdi na votação. Admito, com razão. Não foi lá má ideia comprar as latas no supermercado e deixá-las no freezer durante a tarde. Tomamos cerveja na melhor temperatura possível e, mesmo virando latas, fomos confundidos com ambulantes. O que, para mim, foi a melhor parte. Não é todo dia que se tem as pessoas olhando pra você e pensando: “o filho da mãe trabalha e se diverte”.


No alvo do Autor

João Paulo Pitanga. Queria saber desenhar, mas só sabe escrever.

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