Já escrevi isto por diversas vezes e em diferentes sítios, embora sempre com pequenas variantes. Salvo sob ditaduras, ou em regimes autoritários que tendem a sê-lo, a grande política é e será sempre a arte do compromisso. O que não invalida a presença de programas distintos, de fortes convicções, de recorrentes confrontos, até entre quem tenha divergências em relação a posições ao mesmo tempo próximas. Esse compromisso jamais assenta em escolhas dogmáticas, requerendo sempre cedências, que não são impostas apenas aquelas por razões táticas. De facto, serão sempre elas a mobilizar uma boa base social de apoio para determinados projetos políticos, o que em democracia é sempre decisivo.
ler mais deste artigoUma leitura recomendada

O título deste livro começa por uma palavra que parece atribuir a um determinado modo e tom de prática social um sentido claramente pejorativo, ou mesmo insultuoso. Moderaditos. Em defesa da coragem em política, escrito por Diego S. Garrocho, professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Autónoma de Madrid (Livros Zigurate, 2026, trad. de Carlos Vaz Marques, 88 págs.) é, no entanto, apesar do seu pequeno tamanho, um grande livro, que se lê com proveito e com entusiasmo. Na verdade, não aponta ao que parece, procurando antes mostrar como ser-se verdadeiramente moderado, em política, não exprime uma atitude de cobardia, tibieza ou ausência de princípios.
ler mais deste artigo68, 26 e a abertura de possíveis
A minha descoberta da política como imperativo racional, como território de emoções e como espaço incontornável da vivência do quotidiano, aconteceu no ano raro de 1968. Em especial sob o efeito de dois acontecimentos que me marcaram de ali para a frente: o primeiro foi o «Maio francês» como momento de valorização da rebeldia juvenil, da pluralidade dos modos de viver, e do pensamento anti-hierárquico e libertário; o segundo foi a invasão da antiga Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, consumada em agosto para pôr fim, de forma brutal, à possibilidade esperançosa do «socialismo de rosto humano». Não voltei a ser o mesmo e todas as experiências posteriores, na militância cívica, nas convicções filosóficas e na vida pessoal, mantiveram como pauta essas influências.
ler mais deste artigoO poder sombrio do «homem comum»

Um panorama negativo emergiu no final do século XX, tornando-se dominante nas últimas duas décadas. Ele integra escolhas e práticas de natureza política e cultural que se distinguem bastante, configurando uma rutura com o passado, daquelas que foram dando corpo, após a Segunda Guerra Mundial, aos modos de conhecer, interpretar e transformar a realidade. Por pouco mais de meio século, afirmou-se então um conjunto de traços civilizacionais diferenciados, historicamente ancorados na influência, ao mesmo tempo longínqua e presente, dos princípios fundadores do humanismo e do iluminismo. Do primeiro, ele herdara a convicção de que todo o individuo tem o direito de escolher o sentido da sua vida. Do segundo, trouxera o papel crucial do conhecimento e da razão.
ler mais deste artigo«Venham mais cinco»
É inaceitável que o primeiro-ministro de um governo que se diz «social-democrata» degrade o valor de manifestações populares tão justas e urgentes como as que estão a pedir melhores condições para a habitação, tratando-as como meros «gritos da rua». Pior ainda é qualificar quem o faz, em muitos casos por desespero, e nos restantes por solidariedade, como um grupo de criminosos. A razão é óbvia: o governo não é sensível à fragilidade social, mas é-o à vontade da especulação imobiliária, considerada, na lógica neoliberal que perfilha, como algo positivo, que só por si resolve os problemas.
ler mais deste artigoRiscos e problemas da inteligência artificial

O tema desta crónica impõe um reparo. De modo algum sou especialista ou estudioso das possibilidades, vertentes e consequências da inteligência artificial (IA), mas apenas um cidadão atento à sua crescente presença, olhando-a estimulado pelas possibilidades que oferece, mas também preocupado com os problemas que levanta. De todos, os mais perigosos serão, sem dúvida, a sua possível e arriscada autonomização em relação ao fator humano, bem como o seu uso pelas formas autocráticas e manipuladoras dos grandes poderes políticos e empresariais. Neste quadro, se não vejo como útil a contestação cega e passadista do seu uso, feita por quem apenas teme a novidade ou não sabe do que fala, também não aceito um entusiasmo acrítico perante algumas das hipóteses que abre.
ler mais deste artigoRedes sociais: os prós e os contras

De vez em quando, embora cada vez mais nos últimos tempos, amigos e amigas que usam com regularidade as redes sociais começam a mostrar um compreensível incómodo face ao que de mau diariamente presenciam. Vários deles acabam mesmo por abandoná-las, ou, pelo menos, por reduzir a sua presença ao mínimo, o que é praticamente a mesma coisa. Não é escolha que já não me tenha ocorrido em momentos mais negativos, mas como uso a Internet, de forma sempre muito ativa, desde 1994 – em boa parte da minha vida, pois – passei por tantas experiências, algumas bem conturbadas, que acabo sempre por relativizar o que acontece. O que não me impede de pesar periodicamente os prós e os contras que esta presença contém.
ler mais deste artigoSobre a série Fauda

Este não será um texto lido de forma pacífica. Vem na sequência de outros que tenho escrito, associados a um esforço, cada vez mais difícil de levar a cabo, e cada vez mais inglório, devido sobretudo às ações criminosas do governo de Tel Aviv, para não generalizar a todos os/as israelitas a culpa pelo comportamento crescentemente genocida de quem desde há décadas – com o apoio da direita política, da extrema-direita sionista e de algumas organizações judaicas ultraortodoxas – maioritariamente tem governado Israel. Partindo sempre do princípio, a meu ver fundamental e justo, segundo o qual a única solução possível para o terrível conflito israelo-palestiniano passa pela afirmação de dois estados independentes, pacíficos, viáveis, cooperantes, democráticos e, tanto quanto o possível, laicos, deixando «a Deus o que é de Deus».
ler mais deste artigoNada pode ser dado por adquirido

A maior das novidades trazidas, no correr do século XVIII, pela cultura do iluminismo, foi a afirmação triunfante da ideia de progresso. Procurava-se então, com recurso a um saber científico renovado e a uma atividade intelectual arrojada, afirmar que o tempo, como se acreditara até então, não era circular e repetitivo, num eterno processo de retorno a um passado perfeito. Considerava-se agora que ele era, afinal, historicamente progressivo, num percurso linear, apoiado no conhecimento e na razão humana, que se acreditava ser dinâmico e infinito. Pensando-se também que teria pela frente um horizonte otimista de liberdade, solidariedade e bem-estar que era necessário conquistar.
ler mais deste artigo«Bichanar», nein danke

Faço parte de uma das gerações para as quais grande parte do trabalho profissional ou do horário lúdico de leitura e escrita, de estudo e de reflexão, se faz no espaço público dos cafés. É, todavia, cada vez mais difícil manter este hábito, pois num número crescente destes sítios, além de se promover o desconforto por troca com o design, como se estes fossem incompatíveis, existe um ambiente demasiado ruidoso, sobretudo pela introdução de música ambiente ou de televisores. Mas ainda continuo a passar muitas manhãs a exercê-lo. Neste esforço, auscultadores e auriculares têm sido auxiliares preciosos, sobretudo com os novos modelos sem fios que, além de vedarem, cortam eletronicamente boa parte do som ambiente. Sem eles, por certo já teria passado por algumas crises de nervos e deixado o hábito.
ler mais deste artigoPara que serve a história das ideias

Tornou-se um lugar-comum afirmar que a história, como forma de conhecimento, possui um valor que vai muito para além da evocação ou da celebração repetitiva do passado. Em Para que serve a história?, de 2013, Diogo Ramada Curto mostrou – retomando no título a pergunta que abria o belo Apologie pour l’histoire ou Métier d´historien, obra póstuma do historiador Marc Bloch, fuzilado pela Gestapo – que ela agrega fatores tão diversos como a curiosidade por todo o tipo de atividade humana, a vontade de conhecer a sociedade no seu todo e no curso do tempo, e acima de tudo o desejo de compreender a vida real no quotidiano e nas práticas recorrentes, devendo por isso distanciar-se da conceção morta de um passado enterrado em museus, monumentos e manuais.
ler mais deste artigoProblemas de compreensão
Li hoje no Público, assinado por Elsa de Barros, professora do 1º ciclo, um artigo tão útil quanto preocupante («A falta de vocabulário representa uma forma de desigualdade social: como contribuir para a colmatar?»). A partir da sua experiência pessoal, a autora refere a dificuldade em fazer-se compreender nas aulas, pois «não só os alunos não conheciam vocábulos aparentemente simples, como era difícil explicitá-los, porque lhes faltavam muitas outras noções que lhes permitissem compreender a explicação». Essa dificuldade passa em boa parte por dinâmicas de exclusão social, como bem refere com exemplos. Mas também por outros fatores, onde se integram, acrescento agora eu, o défice de leitura, aquilo que ouvem em casa e o que lhes passa pela frente, ou não passa, na televisão e nos jogos de computador. O problema é ainda maior se constatarmos como, falo de experiência própria, esta dificuldade de compreensão quase generalizada já chegou há pelo menos uma década mesmo aos alunos do ensino superior. A verdade é que, com cada vez menos palavras, a ignorância tende a aumentar, a variedade do mundo a encolher e a incompreensão do outro a espalhar-se.
Porque não escrevo sobre Coimbra

O título desta crónica contém um equívoco intencional. A verdade é que até tenho escrito bastante, no formato da crónica ou em artigos e livros de história, sobre a cidade onde assentei no outono de 1969, chegado para concluir o secundário. Foram muitas páginas sobre a história de Coimbra na relação com o ativismo político estudantil, com os movimentos sociais anteriores ao 25 de Abril ou que o acompanharam, com pessoas e grupos que nela resistiram ao Estado Novo e à Guerra Colonial, com organismos e práticas culturais da academia. Também sobre formas de olhar e de viver a cidade, episódios da sua memória coletiva, a nostalgia que tantas vezes a envolve ou limita, ocasionalmente escolhas da política autárquica ou vivências pessoais.
ler mais deste artigoA bandeira a adejar entre os destroços
Ontem, 24 de agosto, completaram-se 35 anos sobre a independência da Ucrânia. Uma data de particular simbolismo – de festa, mas também de resistência e de combate – nesta fase dramática da vida do país, quando a invasão militar da Rússia continua a fazer vítimas diárias e a forçar um esforço de guerra que, para além da morte, da destruição e do sofrimento provocados de ambos os lados, prejudica em muito o desenvolvimento do país, o bem-estar do seu povo e a própria democracia ucraniana, limitada devido ao estado de guerra. Como prejudica a afirmação de uma Europa forte e democrática. Uma realidade que só não reconhecem a extrema-direita, em regra incondicional apoiante de Putin, e aquela parte da esquerda mais ortodoxa que continua a observar o mundo como se o Muro de Berlim jamais tivesse sido derrubado, conservando um sentimento de nostalgia por um passado mais imaginado que real.
ler mais deste artigoTrotsky, 86 anos depois

Completam-se neste 21 de agosto de 2026, 86 anos sobre o assassinato no seu exílio do México, por Ramón Mercader, um agente do NKVD, a temível polícia política de Estaline, de Leon Trotsky. Falo do escritor, eminente intelectual marxista e revolucionário bolchevique, presidente do Soviete de Petrogrado, organizador do Exército Vermelho e figura central da vitória dos comunistas na Guerra Civil Russa de 1918–1922, que após a morte de Lenine se tornou o principal rival de Estaline na disputa pela hegemonia do Partido Comunista da União Soviética. Trotsky foi também o criador da teoria da revolução permanente, defensor do internacionalismo revolucionário, crítico incansável da burocratização estalinista e fundador da Quarta Internacional, destinada a levar a cabo uma revolução socialista de dimensão mundial.
ler mais deste artigoA praga e o seu necessário antídoto
Nem a relativa calma e o descanso de agosto nos livram da praga quase bíblica de vendedores da banha da cobra que a extrema-direita mobiliza sem parar um só dia para iludir o povo ou mobilizá-lo para os seus objetivos, sejam estes os confessos ou os ocultos. Dúzias de empertigados comentadores da televisão, a chusma disforme de influenciadores digitais, mais uns quantos políticos profissionais com défice de vergonha e untuosos propagandistas com abrigo em jornais que se presumiriam responsáveis, desdobram-se no afã de normalizar o ódio, a violência, a divisão, o medo, a ignomínia, a mentira.
ler mais deste artigoSalazarismo do quotidiano (1)
Chamo «salazarismo do quotidiano» às práticas, instaladas no dia a dia, que, a par da atividade política e cultural imposta, durante o Estado Novo moldaram a sociedade portuguesa no desprezo pelo outro (por vezes travestido de complacente caridade cristã) e na desconfiança diante de tudo o que escapava à «normalidade» instalada. Algumas dessas práticas sobreviveram, aliás, ao 25 de Abril, e talvez só já neste século se tenham tornado raras. O que não significa que tenham desaparecido de todo, sobretudo entre pessoas que vivem imersas na cultura da violência e do ódio. É sobre este fenómeno que começo uma série espaçada, apoiada sobretudo em vivências pessoais do ante-1974. Evocando um tempo que alguns dos que o não viveram apontam como exemplar.
ler mais deste artigoLadrões de livros
Este apontamento de não-ficção pode causar-me problemas. Desde logo, como se diz agora, «de índole reputacional», mostrando que já fui pessoa em quem talvez não se devesse confiar. Mas também outros, mais prosaicos, a ocorrer com a polícia e os tribunais. Confio, todavia, na prescrição dos crimes descritos, na omissão dos nomes envolvidos e na indolência causada pelo calor de agosto. Contém o breve relato de dois episódios, ocorridos no ano distante de 1972, ambos ligados a uma prática então comum entre estudantes universitários, sobretudo entre aqueles que se dedicavam a compor uma pequena biblioteca pessoal, algo que hoje será por muitos considerada uma excentricidade. Refiro-me ao roubo de livros em livrarias, prática que, entre alguns de nós, comportava ainda a ideia de que era essa uma forma suplementar de combater o capitalismo.
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