Ontem, depois de muito tempo, durante um abraço no sofá você encostou a cabecinha no meu peito e disse: “mamá!”, com aquele sorriso de sempre, mas diferente. Eu falei “lembra, filho, que você mamava! era muito gostoso mesmo”. Daí você disse que queria ver o peito. Abaixei com dificuldade a parte de cima do vestido, e você disse “quelo mamá esse peito”, apontando o direito. Veio com a boca e eu achei que fosse morder como das últimas vezes que antecederam seu desmame, mas você “mamou” mesmo por dois segundos. Quis ver o outro peito de novo. Quis mamar o peito direito de novo. Eu disse “a mamãe amava quando você mamava, mas agora você cresceu e não mama mais porque você já consegue comer macarrão, bala…! O Tito, quando nascer, vai mamar, mas não vai conseguir comer essas coisas ainda”. Daí você pensou alguma coisa, sorriu, desceu do colo e foi brincar. Entendi que o que eu tinha falado havia sido desnecessário, uma necessidade minha e não sua.
Hoje acabo de te deixar na escola e, pela primeira vez em quase dois meses, você não chorou na despedida. A gente estava comendo morangos no quintal, conversando com a Manô, brincando de fazer bambalalão com o Capitão América Grande que você ganhou do seu pai ontem. Aí a mamãe pegou a bolsa, levantou, te deu um beijo e disse “tô saindo, filho, volto já!”. Esperei você chorar, te pegar no colo de novo, te beijar e dizer que te amo e já volto, mas dessa vez você se manteve ali de pé, firme, sem chorar. Com uma expressão diferente de todas as outras, que eu não sei descrever como era. Um jeito novo de olhar, um jeito crescido de olhar, um jeito menino de olhar, um jeito sério de olhar. Fixou o olhar em mim até eu ir embora, e tudo parecia se movimentar em câmera lenta nessa hora. Você ali parado, o abraço cúmplice da Manô sabendo a importância daquele momento para nós dois. Fechei a porta, abracei seu pai e, como a Masha quando fica aliviada por ter conseguido salvar o Urso de ficar preso no trilho do trem, chorei. “Ele não chorou, ele não chorou!”.
Esses dois episódios encheram meu coração de uma alegria de primavera. Daquelas alegriazinhas que a gente planta, rega, protege da chuva, põe no sol, tira do sol, e parece que nunca vai crescer, e parece que o sol inclemente ou a chuva embravecida vão estragar tudo, mas de repente quando você menos espera ela brota, e cresce, e cresce, até virar uma daquelas flores que a gente para para apreciar no meio do caminho, um descanso pro olhar.
Filho, você é um menino que veio pra cá com uma missão especial. Sei disso desde o princípio. Desde o momento em que te carreguei na barriga e em que você saiu de dentro de mim, escorregando debaixo da mesa da cozinha na véspera do Ano Novo, com aquele choro forte e os olhinhos vivos. Desde quando no segundo dia de vida você já sorriu, no terceiro já ficava solto no trocador movimentando com força os braços e as pernas e nos primeiros meses de vida estava constantemente inquieto, de um jeito que eu não entendia mas hoje eu sei – você queria fazer e ainda não podia. Queria se movimentar, queria puxar, queria ir, queria saber.
Nunca conheci um ser humano mais interessado no ser humano do que você. Você quer saber o nome de todo mundo que cruza seu caminho e qual o seu papel no mundo. Se eu estou cansada e tento desviar o assunto, você insiste “como chama essa ‘mulhers’, o que é que ela faz?”. Isso inclui também todos os seres vivos e não vivos, cachorros, formigas, faixas no asfalto, uma pecinha de nada no blindex do banheiro. Com pouco mais de um ano e meio, você já quer nomear tudo. Quando você ganha um brinquedo, você não se fixa só nele, você quer entender como se chamam as outras partes da caixa. Você sabe o que é o papelão, o plástico, o elástico.
Quando você não sabe alguma coisa, me olha de um jeito lindo e diz “mamãe, me ensina?”. Quando eu faço algo do jeito que você julga ser errado, você diz “não é assim, mamãe, eu te ensino!”. Quando o papai está fazendo alguma coisa que despertou seu interesse, você pede “eu ajudo!”. Você sempre soube se expressar muito bem, “expressivo” foi um dos primeiros adjetivos que usei para caracterizar você desde que você nasceu e começamos a nos conhecer e construir nossa relação de filho e mãe. E até hoje é assim. Quando você quer chorar e eu falo “filho, não chora..”, você diz “eu quelo chorar!”. Quando você está assistindo televisão e sente medo de algum personagem, diz “com medo desse homem. Troca, mamãe?”. Você tem uma consciência das coisas que é incomum de se ver num ser que chegou aqui há tão pouco tempo. Seu pai sempre fala também da sua alegria, que nos parece rara. Outro dia, feliz da vida subindo uma rampa na Praça das Corujas, você me olhou extasiado, “Vem, mamãe, sobe! É muito gostoso!”.
Você é um menino com super-poderes que as circunstâncias da vida vão te dizer quais são e, entre dias de sol batendo na janela e neblina atrapalhando a visão, você vai achar dentro de você as respostas que te ajudarão a entender como usá-los. Deve ser por isso que você tão cedo se viu fascinado pelo universo dos super-heróis: para conhecer melhor a si mesmo. “Huck forte, Homem-Aranha sobe, Capitão-América voa”. E junto com eles você consegue carregar tratores, escalar prédios da altura do Cristo Redentor, voar como passarinho. Mágicos, Papai Noel, fadas, tudo isso te encanta.
Eu te gestei, eu te amamentei, eu te carreguei no colo, quando você está no meu colo e eu estou te embalando e cantando pra você dormir e você me abraça daquele jeito eu sinto que somos um só de novo. Bento, sinto por você um amor de uma extensão e de uma profundidade que nada no mundo daria conta de explicar, porque não é algo que eu tenha adquirido ou que esteja agregado a mim, esse amor é parte de mim, é como meus olhos, minha boca ou minha barriga.
Mas hoje sei que você é um indivíduo separado de mim, especialmente diante desse jeito novo de olhar no portão da escola. E essa é a maior alegria que uma mãe pode sentir, ver o filho pleno e enraizado em si mesmo, conquistando independência. Mas, ao mesmo tempo, são despedidas. A semente não é mais semente agora é broto, o broto não é mais broto agora é flor, e daqui a pouco essa flor linda vai ser árvore, e vai começar todo o ciclo de novo. Viva!
E enquanto te observo crescer, a vida, tão generosa comigo, me deu de presente um outro filho para gestar e amar incondicionalmente da mesma maneira e de uma maneira completamente nova, que vamos descobrir e será só nossa. Meu Tito, pequeTito meu, que remexe agora na minha barriga feito peixe grande. Minha calma, meu jardim, meu refresco de laranja, minha fruta madura, meu pastel de Belém. Meu bebê que daqui a pouco tempo sai do quentinho de dentro pro abraço quentinho de fora.
Você vem vindo, de um jeito tranquilo e relaxado você vem vindo. Saiba que sua mãe está completamente relaxada e aberta pra te amar e te receber no tempo e do jeito que for pra ser. Neste momento não sinto ansiedade, não sinto medo, não sinto dor, não sinto culpa. Que essas palavras fiquem registradas aqui e me ajudem a atravessar todos os desafios que eu já espero enfrentar e os outros que eu não espero e virão.
É engraçado porque, olhando as fotos de nós três, eu, seu pai e o Bento, de repente dou falta de alguma coisa, as fotos parecem incompletas. É você que já está meio dentro meio fora. De manhã quando seu irmão acorda e começa a bagunça do dia, um chororô pra ir logo “embaixo” brincar, Bento, tem que esperar o papai e a mamãe fazerem xixi e coisa e tal, você acorda junto, já começa a mexer forte, já faz parte da algazarra. Seu canto no nosso quarto já está quase pronto: o bercinho, o colchão, o armário com as roupas cheias de pelo da desgraçada da Abacaxi que consegue entrar na gaveta, o porta-sapatos com os gorros e paninhos, as luzinhas esperando ser penduradas.
Durante toda a gravidez, enquanto te acarinhava, te sentia e conversava com você, fiz tudo que meu coração mandou para amaciar a sua chegada para o seu irmão, que ainda era tão bebê. Quando soube da sua vinda, Bento só tinha 1 ano e três meses. Ainda era um bebê de peito, de colo de mãe. Hoje, aí está, um menininho independente, que come o que gosta com prazer, que passa horas muito bem longe dos pais, que expressa alegria, dor e qualquer outro sentimento com admirável clareza. Não foi mágica. Não foi sem dor. Não foi sem erros. Mas foi real e foi do caralho de emocionante.
E agora, filho, agora sinto que posso somente usufruir esse resto de tempo em que somos completamente um só. Se nessa mesma fase na gravidez do seu irmão eu sentia um frio na barriga como se a tão esperada festa estivesse chegando, agora eu sinto que já estou na pista dançando. Um jazz, uma música soft, talvez ‘Brindo’ do Devendra. Não por acaso penso nessa música, que escutei muitas vezes voltando da escola com o B. no carro dormindo serenamente no banco de trás, pensando em você. E qual a minha surpresa agora quando vou pesquisar sua letra e me deparo com isso:
” Brindo a este amor, un amor tán raro
Brindo a este amor, un amor tán claro
Brindo a este amor, un amor derepente
Brindo a este amor, un amor tán diferente
Como la orsita en el mar
Un elemento nuevo pa jugar
Brindo a este amor que me llena de esperanza
Y brindo a esa luz allá en la distancia
Venga Colibrí despierta a la diosa oh
Que canta-te a mi su canción preciosa
Brindo a todo lo que quiero dar
A todo que está punto a empezar
Brindo a este amor que nunca se demora
Sólo el hospital está abierto a esta hora
No pienso en ti
sólo te siento
pasando por mi
como un dulce viento”
A vida é perfeita, meus três meninos. Duvidem disso, que eu vou relembrá-los sempre.



