Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cassiano Ricardo - Sala de espera

O poeta paulista contrasta dois espaços simbólicos, a saber, a sala de espera – lugar de passividade, burocracia e promessas adiadas –, frente à rua – um espaço vibrante de ação, encontro e transformação –; aquela a representar a esperança domesticada e sempre postergada; esta a encarnar a coletividade, o protesto e a verdadeira experiência republicana.

 

Nesse contexto, Ricardo, ao mesmo tempo que denuncia a mecanização da espera nos espaços de poder ou, em outros termos, a inércia institucional, faz um chamamento à ação cidadã, à expressão viva de uma esperança ativa, aberta e compartilhada, em quaisquer espaços públicos – a rua, em especial –, onde o indivíduo possa cerrar fileiras com os outros para participar de eventos que concorram a um propósito comum do corpo social.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cassiano Ricardo

(1895-1974)

 

Sala de espera

 

(Ah, os rostos sentados

numa sala de espera.

Um Diário Oficial sobre a mesa.

Uma jarra com flores.

A xicara de café, que o contínuo

vem, amável, servir aos que esperam

a audiência marcada.

 

Os retratos em cor, na parede,

dos homens ilustres

que exerceram, já em remotas épocas,

o manso ofício

de fazer esperar com esperança.

E uma resposta, que será sempre a mesma:

só amanhã.

E os quase eternos amanhãs daqueles rostos

sempre adiados

e sentados

numa sala de espera.)

 

Mas eu prefiro é a rua.

A rua em seu sentido usual de “lá fora”.

Em seu oceano que é ter bocas e pés

para exigir e para caminhar.

A rua onde todos se reúnem

num só ninguém coletivo.

Rua do homem como deve ser:

transeunte, republicano, universal.

 

Onde cada um de nós é um pouco

mais dos outros

do que de si mesmo.

Rua da procissão, do comício,

do desastre, do enterro.

Rua da reivindicação social, onde mora

o Acontecimento.

 

A rua! uma aula de esperança ao ar livre.

 

Em: “Um dia depois do outro” (1947)

 

Manifestação de bairro

(Renato Guttuso: pintor italiano)

 

Referência:

 

RICARDO, Cassiano. Sala de espera. In: __________. Antologia poética. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: Editora do Autor, 1964. p. 52-53.

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domingo, 1 de novembro de 2026

Giuseppe Belli - A embocadura

Belli nos oferece, em dialeto popular romano, um retrato surreal, algo animalesco, de um encontro amoroso marcado por intensa e caótica refrega física, digo melhor, pela energia bruta, meio violenta, da paixão, sob cujos efeitos os amantes buscam ampliar os limites do prazer alcançado, ansiando por uma fusão total.

 

A repetição de sons ásperos e guturais ao longo dos versos tenciona refletir o choque dos corpos como uma luta brincalhona entre dois gatos, num jogo instintivo e desenfreado, descrito pelo poeta numa sintaxe burlesca na qual o gozo se mescla com o cansaço e os atrapalhos para trazer ao leitor a sensação de um realismo exasperado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Giuseppe Belli

(1791-1863)

 

L’incisciature

 

Che sscenufreggi, ssciupi, strusci e ssciatti!

Che ssonajjera d’inzeppate a ssecco!

Iggni bbotta, peccrisse, annava ar lecco:

Soffiamio tutt’e ddua come ddu’ gatti.

 

L’occhi invetriti peggio de li matti:

Sempre pelo co ppelo, e bbecc’a bbecco.

Viè e nun vienì, fà e ppijja, ecco e nnun ecco;

E ddajje, e spiggne, e incarca, e striggni e sbatti.

 

Un po’ ppiù cche ddurava stamio grassi!

Ché ddoppo avé ffinito er giucarello

Restassimo intontiti com’e ssassi.

 

È un gran gusto er fregà! ma ppe ggodello

Più a cciccio, ce voría che ddiventassi

Giartruda tutta sorca, io tutt’uscello.

 

Erótico

(Ivan Vavpotič: pintor esloveno)

 

A embocadura (*)

 

Que esfregações, gemidos, desbaratos!

Que arremessos a seco, numa enfiada!

Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:

Ficam bufando os dois como dois gatos.

 

Olhos vidrados, pior que de insensatos:

Pelo com pelo, boca a boca atada,

E enfia e empurra e bate sem parada;

Vai e vem, põe e tira num só ato.

 

Descalabro se um pouco mais durasse!

Chegada a brincadeira ao seu final,

Ficamos feito pedras, inconscientes.

 

É muito bom foder! Mas o ideal

Seria nos tornarmos realmente

Gertrudes toda cona e eu todo pau.

 

Nota:

 

(*). Como o afirma o ensaísta e tradutor José Paulo Paes: “Na tradução, não se fez, por sabê-la antecipadamente fadada ao malogro, qualquer tentativa de preservar o mínimo que fosse do sabor dialetal da dicção belliana”. (PAES, 2006, p. 191)

 

Referência:

 

BELLI, Giuseppe. L’incisciature / A embocadura. Tradução de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo (Seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006. Em dialeto romano: p. 142; em português: p. 143. (Série “Companhia de Bolso”)

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sábado, 31 de outubro de 2026

Augusto Frederico Schmidt - Pássaro cego

Estes versos de Schmidt transmitem ao leitor um marcante senso de herança emocional e coletiva, mediante o qual o sujeito lírico se reconhece como portador de dores e de angústias não vivenciadas diretamente, mas legados por seus ancestrais, circunstância que o faz oscilar entre o pesar e o desejo de paz, revelando-lhe a tensão entre a memória de pregressas injustiças e a busca por horizontes mais serenos.

 

Sob tal perspectiva, pode-se supor que a imagem de um “pássaro cego” venha a simbolizar a sua incapacidade de ver a luz exterior devido a essas “sombras interiores”, como resultante do sobredito conflito entre, de um lado, as expectativas por uma condição de transparência ou de clareza, e de outro, o aprisionamento no domínio da própria subjetividade.

 

É essa consciência de uma fatalidade plasmada nos bastiões da história e nos escaninhos dos dramas familiares que permite a esse pássaro, ainda que sob a ausência de luz, perceber a sua existência e almejá-la, tornando o seu voo um belo e inquietante percurso lírico, a dar voz aos “mil tormentos sem voz”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)

 

Pássaro cego

 

Sinto clamar em mim vozes tristes, chorando.

Sinto gritar em mim longos martírios

Que não sofri.

 

Sinto que sou a forma, o lamento, a expressão

De mil tormentos mudos abafados.

De mil tormentos sem voz.

Mil tormentos sem voz!

 

Minha poesia é um pouco da queixa de homens errantes,

De homens sem lar e sem repouso.

De homens que foram meus avós.

Deles herdei a angústia infinita,

Deles herdei o tédio de todas as paisagens,

A inquietação de todos os momentos.

 

Sou a última folha de uma árvore infeliz

Que o vento rude desprendeu.

 

Trago comigo a desolação da pátria abandonada

E a revolta de mil incompreensões e injustiças sofridas,

Mas há em mim um infinito desejo de pacificação;

O ódio de meus avós não está comigo,

Ficou apenas a indecisão,

Ficou apenas a instabilidade.

 

Sou como um pássaro cego voando na eterna escuridão.

No entanto a escuridão está em mim somente.

Sei que fora de mim há um clima diferente,

Sei que há céu azul, supremas claridades,

E que as trevas estão nos meus olhos apenas.

 

Em: “Pássaro cego” (1930)

 

Pássaro cego

(Morris Graves: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

SCHMIDT, Augusto Frederico. Pássaro cego. In: __________. Poesia completa: 1928-1965. Introdução de Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro, RJ: TopBooks; Faculdade da Cidade, 1995. p. 93.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Charles Bukowski - a farsa

Bukowski define a guerra como uma transação de classe: os pobres e os marginais pagam com seus corpos um conflito desenhado e narrado pelos ricos e poderosos, os quais, claro está, permanecem a salvo, física e economicamente, no coração do império, com toda a comodidade e indiferença.

 

Antes de ser um evento geopolítico, a guerra é, para o autor, um negócio cruel que se alimenta da desigualdade para explorar, ao máximo, exatamente aqueles a quem o sistema deixou de contemplar, numa fraude em escala nacional, somente possível pela cumplicidade de uma máquina midiática de massa, a promover uma autêntica “lavagem cerebral” com o objetivo de ocultar a realidade dos fatos.

 

Afinal, a verdadeira batalha que os negros, os mexicanos e os brancos pobres perderam – e continuam a perder quotidianamente – é a da justiça social em seu próprio país, da qual resulta a situação de vulnerabilidade que os expõe a se tornarem “buchas de canhão” ou “moedas de troca” nos conflitos perpetrados pelas estruturas centralizadoras de poder, desvestidas de quaisquer valores éticos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Charles Bukowski

(1920-1994)

 

the con job

 

the ground war began today

at dawn

in a desert land

far from here.

the U.S. ground troops were

largely

made up of

Blacks, Mexicans and poor

whites

most of whom had joined

the military

because it was the only job

they could find.

 

the ground war began today

at dawn

in a desert land

far from here

and the Blacks, Mexicans

and poor whites

were sent there

to fight and win

as on tv

and on the radio

the fat white rich newscasters

first told us all about

it

and then the fat rich white

analysts

told us

why

again

and again

and again

on almost every

tv and radio station

almost every minute

day and night

because

the Blacks, Mexicans

and poor whites

were sent there

to fight and win

at dawn

in a desert land

far enough away from

here.

 

A trincheira

(Otto Dix: artista alemão)

 

a fraude

 

a guerra terrestre iniciou-se hoje

ao amanhecer

numa região desértica

longe daqui.

as tropas de solo estadunidenses

eram em grande parte

compostas por

negros, mexicanos e brancos

pobres

a maioria dos quais alistara-se

nas forças armadas

por ser a única ocupação

que lograram encontrar.

 

a guerra terrestre iniciou-se hoje

ao amanhecer

numa região desértica

longe daqui

e os negros, mexicanos

e brancos pobres

para lá foram despachados

para combater e triunfar

enquanto na tv

e no rádio

os ricos e obesos âncoras brancos

primeiro nos noticiavam

o ocorrido

e depois os ricos e obesos

analistas brancos

nos elucidavam

as razões

reiteradamente

reiteradas

e reiteradas vezes

em quase todas as

emissoras de tv e de rádio

quase a cada minuto

dia e noite

porque

os negros, mexicanos

e brancos pobres

para lá foram despachados

para combater e triunfar

ao amanhecer

numa região desértica

suficientemente longe

daqui.

 

Referência:

 

BUKOWSKI, Charles. the con job. In: __________. sifting through the madness for the word, the line, the way: new poems. Edited by John Martin. New York, NY: Ecco / HarperCollins, 2003. p. 167-168.

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