miguelsolano.blog

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See, that’s what the app is perfect for.

Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna

deus não é um tirano à paisana

eu sempre me preocupei em fazer a coisa certa. desde pequeno olhava pra baixo, com receio de sair do trilho um pouco para a esquerda ou um pouco para a direita. perdi boa parte da paisagem que se descortinou à minha frente por receio de dar um passo em falso. com o passar dos anos me fiz as seguintes perguntas: o que é certo e o que é errado? será que esses dois conceitos existem mesmo, ou são apenas recortes atualizados e ressignificados a cada geração? daqui a um século, nossos acertos ainda serão vistos como acertos?

claro que precisamos fazer o que sempre parecer correto às nossas consciências, mas por que tanta condenação pelos erros? por que encaramos nossos deslizes como atitudes infernais, se aprendemos muito mais com nossas falhas do que com os acertos, e se é graças a essas mesmas falhas que passamos a acertar com maior frequência? exigir perfeição em si é uma prisão; esperar perfeição nos outros é uma cilada perigosa. por via das dúvidas, passei a prestar mais atenção ao caminho e me perdoar pelos possíveis erros de percurso; passei a não encarar deus como um tirano à paisana, prestes a me punir; passei a ser mais acolhedor comigo mesmo, dizendo apenas: você errou, acontece. aprenda a lição, conserte a besteira e siga em frente.

por mais que pareça fácil, seguir em frente é uma tarefa complicada. a maior parte das pessoas só sabe andar em círculos, alargando a circunferência do raio ao invés de realmente dar passos adiante. esse é o meu erro da vez. tudo bem, acontece. se tivesse percebido antes, não teria aprendido. vou consertar a besteira e seguir em frente.

meu cachorro só queria seu laxante natural

04:12 da madrugada. a hora que o sono deu as caras.

meus cachorros se empolgaram quando os chamei pra dormir. apaguei a luz, fechei os olhos.

poucos minutos depois, papelito (o mais dorminhoco) se levantou de sua caminha e dirigiu-se até a cabeceira da minha cama. “o que foi, barrigudo? acabamos de entrar”, perguntei. com olhos de angústia, ele foi até a porta comunicando que queria sair.

fui abrindo as portas e o deixando concluir a tarefa que até então eu não estava entendendo. ao abrir a grade que dá pro quintal, notei que chovia bastante mas mesmo assim ele encarou o pé d’água.

fiquei sentado alguns minutos, à espera de papelito retornar, e voltamos pro quarto sem eu ter conseguido desvendar o mistério. poucos minutos após ele se aconchegar novamente em seu dormitório, voltou a me chamar à beira da cabeceira. prontamente tornei a me levantar e refiz o mesmo caminho até ele se perder mais uma vez no quintal, debaixo de chuva. o procedimento se repetiu e em poucos minutos papelito retornou do jardim, todo encharcado, porém com a expressão diferente, mais serena. ao entrarmos no quarto pela terceira vez, presumi que agora dormiríamos sem interrupções. puro engano: poucos segundos depois, papelito cheirou meu rosto e pediu pra sair.

enquanto acariciava o rostinho dele, perguntei: “o que eu não estou entendendo? fale pro papai, fale”. abri a porta do quarto, mas dessa vez ele fez um caminho diferente, se direcionando pra um pote de água com gelo que sempre deixo disponível ao alcance deles. após se beneficiar de longos goles, ele solta um pum que estremece toda a casa. nessa hora tudo fez sentido! todos os pontos se conectaram!

papelito estava com dor de barriga e não quis fazer cocô dentro de casa. após a flatulência, voltamos todos pro quarto e estou finalizando este texto somente às 06:37, depois da confirmação de que ele está suficientemente aliviado.

não repreenda seus bichos quando não compreender imediatamente o que eles têm a dizer. o processo de descoberta, de leitura das expressões e sinais que os animais nos oferecerem, na tentativa de se comunicarem, é muito gostoso.

agora sim: grande dia!

durante os últimos quatro anos acompanhei as denúncias ao governo bolsonaro e a esperança da população brasileira de que ele fosse preso. vi muita gente comemorando quando as diversas notas de repúdio foram divulgadas, mas que nunca resultaram em nenhuma consequência punitiva. após me frustrar por tantas vezes ter esperança em vão, resolvi adotar a postura de só me manifestar quando o canalha fosse condenado.

esse dia, até que enfim, chegou!

hoje é uma data importante pra mostrar como as lutas em prol do bem são árduas e dolorosas, mesmo com motivos de sobra pra validá-las. havia necessidade de tanta procrastinação pra colocar o traste atrás das grades?! definitivamente, não. no entanto, quem trabalha constantemente por um país mais digno, e sofre desde 2016 com a perversidade dessa corja fascista, pode comemorar à vontade porque a história está acontecendo bem debaixo dos nossos olhos. expurgar esse demônio e toda sua família do cenário político é uma grande vitória - só precisamos ter muito cuidado com as futuras tentativas de novos psicopatas assumirem o poder. o mal nunca desiste.

e a festa não acaba com a condenação, hein? ainda veremos o verme ser detido em casa, com lágrimas nos olhos e cara de coitado; veremos idiotas montando novamente as barracas em frente aos quartéis; veremos novos memes de surtos patrióticos. mas me resta uma dúvida: se os estados unidos estão deportando todo tipo de imigrante, pra onde os bolsonaristas que desistirão do brasil vão agora? vai faltar pipoca pra tanta novela…

hoje é o dia dos verdadeiros cidadãos de bem!

um brinde à democracia e à justiça!

pedi uma namorada e a vida me deu um pedacinho do céu

sempre fui um cara que não sossegava em nenhum relacionamento amoroso. a depender da sintonia que estabelecia com a pessoa da vez, o namoro durava dois meses ou, no máximo, quatro. mas o período sempre era curtíssimo. em toda a minha vida, só tive dois relacionamentos que duraram mais de um ano.

nunca entendi e até hoje não faço a menor ideia do porquê disso. uma pessoa que me conhece mais do que qualquer outra nesta vida me disse que eu tenho fobia de intimidade. jamais havia pensado por essa ótica, mas faz sentido. atrelada a essa característica, eu também sou viciado em privacidade. ou seja, o combo perfeito pra malograr qualquer intimidade.

todo santo dia, durante no mínimo quinze minutos, eu me dedico à prática da meditação. em meio a uma dessas meditações, conversei com deus que adoraria encontrar alguém legal, que me fizesse sentir além do óbvio: além da vontade louca de beijar, transar e depois partir para a próxima.

eu curtia bastante minha vida de solteiro. não tenho nada contra quem prefere estar sempre disponível, mas confesso que já estava muito cansado da falta de profundidade das minhas relações amorosas. pensava, durante a meditação à qual fiz referência no parágrafo anterior, que aceitaria sem resmungar se não conseguisse me manter em um relacionamento por muito tempo, mas eu adoraria tentar novamente. já estava solteiro havia dez anos, até a oportunidade aparecer no finalzinho do ano de 2023.

começou como todo namoro começa: paixão, fogo e alvoroço. mais adiante, quando a coisa naturalmente acalmou, temi que meu comportamento recorrente viesse à tona. então, corri pra falar com ela a respeito do meu histórico, mesmo ainda sem sequer sentir a menor vontade de terminar. ela também ficou com receios, é lógico, mas decidiu ficar até o dia em que eu não quisesse mais.

aliviado por ter desabafado com ela, fui descobrindo coisas que nunca tinha sido capaz de experimentar justamente por sempre pular fora quando o fogo da paixão acabava (hoje chamo esse momento de a hora que você percebe se gosta ou ama). ela me ajudou e continua me ajudando a fazer as pazes com diversas inseguranças que possuo, enquanto vou sentindo o gostinho dessa vida a dois que nunca tive coragem de desbravar. a palavra realmente é coragem, porque é fácil viver apaixonado o tempo inteiro. difícil é superar as dificuldades sem desistir da empreitada (obviamente, essas dificuldades não dizem respeito nem a valores, ideologia ou posicionamento político).

hoje completamos um ano e meio de namoro, sem contar alguns meses antes de oficializarmos. eu pedi uma pessoa legal e a vida me deu um pedacinho do céu. é impossível descrever em palavras o quanto essa mulher é especial. dou gargalhadas diariamente com ela, sou fascinado por sua companhia e adoro olhar para o lado e saber que ela está ao alcance de minhas mãos.

feliz bodas de pãozinho de queijo, big môzi.

eu te amo.

quem vai estar lá quando você precisar?

anteontem, mais precisamente às 21:33, enviei uma mensagem de texto pra uma grande amiga pedindo urgência sobre uma informação. a resposta só veio no dia seguinte, às 15:57, com a seguinte justificativa: desculpa a demora em responder, foi a correria. agradeci e comentei que por sorte eu não estava precisando de ajuda, caso contrário a última pessoa que teria me amparado seria ela. por incrível que pareça, ela levou essa minha resposta na brincadeira e ainda disse que, diariamente, quando acorda pela manhã, dá prioridade às mensagens dos clientes pra depois conferir as enviadas pelas pessoas íntimas. ainda no papel de amigo sincero, coisa que todo mundo deveria ser, alertei que as prioridades dela estavam invertidas, pois duvido que os clientes estarão disponíveis pra dar suporte nos momentos em que ela precisar de apoio. outra risada.

no texto anterior relatei a triste constatação de um amigo ao se dar conta de que não é prioridade pra ninguém na cidade onde está morando há pouco tempo (ele transferiu residência para os estados unidos). o texto de hoje é justamente o contrário: é sobre não dar valor a quem te trata como prioridade.

eu classifico minhas relações interpessoais em dois grupos de relevância: o das amizades íntimas e o grupo das não-íntimas. nesses dois estão inclusos familiares, clientes, galera da época da escola, da faculdade, das empresas por onde passei, do mundo da música etc. tem muito familiar que não faz parte nem do meu contato social, enquanto há pessoas que conheci nas redes sociais ou em algum trabalho pontual que se tornaram grandes amizades. a diretriz pra compor cada grupo é simples: quem merece atenção plena e quem eu não tenho a menor responsabilidade de dar suporte emergencial. e garanto uma coisa: nenhuma das pessoas que me têm como íntimo pode reclamar da minha ausência. eu sempre estou disponível quando elas precisam. 

eu sei que ninguém tem o dever de estar disponível 24 horas por dia, mas a alcunha de amizade íntima requer algumas responsabilidades. a menor delas é se colocar à disposição quando for preciso (por isso que não faz sentido alguém dizer que tem diversas amizades íntimas, pois será humanamente impossível dar suporte a todas). eu fico extremamente irritado quando uma amizade íntima demora quase um dia inteiro pra retornar o contato, exceto quando acontece algum imprevisto ou incidente. caso contrário, não há nenhum motivo razoável pra essa ausência. por esta razão achei tão deprimente quando minha amiga, que sempre fez questão de se dizer íntima, demorou pra responder uma solicitação que alertei ser urgente. e, pior, ainda encheu a boca pra dizer que a prioridade são os clientes, e que só depois de dar atenção a todos eles é que vai atender aos íntimos. como as pessoas são apaixonadas por dinheiro…

claro que a pessoa à qual me refiro neste texto deixou de fazer parte do meu grupo de amizades íntimas. no exato momento em que li a justificativa tacanha dela, meu cérebro já a remanejou para o grupo das que não tenho responsabilidades emergenciais. ou seja, agora tenho mais tempo pra dedicar a quem merece.

esse meu método de diferenciar o nível de atenção concedida a cada pessoa pode parecer cruel, mas é apenas racional e meritocrático. essa conversinha fiada de que não se deve esperar reciprocidade do outro só funciona quando não temos relação de intimidade. do contrário, eu exijo reciprocidade à altura! ou vai dizer que você não espera que seu namorado lhe dê a atenção devida? que você acha normal um grande amigo lhe tratar com desprezo? duvido!

quando estivermos à beira da morte, jovens ou idosos, quais serão as pessoas que sentiremos falta por não estarem ali conosco, do nosso lado? porém, como as estamos tratando agora, enquanto temos saúde plena? elas estão recebendo o devido valor e a devida atenção? pois é, uma semente plantada só germina quando regada constantemente, e cabe ao jardineiro perceber isso antes de exigir que a árvore cresça e dê frutos.