quando chegava em casa cedo…

…tinha a sensação de que só estava esperando o próximo dia chegar.

abril 23, 2013 at 2:40 am Deixe um comentário

ela está no auge.

tardiamente, descobria quem era. com mais erros do que acertos. se expondo mais do que deveria. se frustrando mais do que gostaria. se machucando mais do que podia achar aguentar. mas suportando. as dores, a solidão, os desencontros, mas, acima de tudo, acertando nas pequeníssimas vitórias do dia a dia.

no meio do caminho descobriu que: gostava de fazer as coisas sem pressa. jantares longos. praias douradouras. nada de visitas breves. cervejas intermináveis. conversas que só se acabam quando a voz falta. descobriu que o nó no meio do sossego é um alerta que deve ser ouvido sempre, ainda que não faça sentido na hora. e que estar sozinha pode ser a delícia mais plena e o desespero mais profundo. descobriu que velhos clichês têm razão de ser: solidão nada tem a ver com número de pessoas. descobriu que acha que pode gostar de cachoeira. e que estar dentro do mar com vento no fim da tarde é a experiência mais inspiradora que pode existir. descobriu que viveria com o pé na areia. areia fina, daquela que só deixa os grãos pretinhos presos na perna. descobriu que os tons do oceano e do céu influenciam no seu humor. e quando está de tpm o mundo todo fica mais pesado junto com as pernas. e que contrair o abdomen durante as braçadas na piscina deixa o nado e o dia mais leves. descobriu que sensibilidade não é sinônimo de maturidade. e que as pessoas estão preocupadas com elas mesmas. tudo muito banal, muito óbvio. descobriu, então, que podia se alimentar das obviedades e duvidar de tudo que parceia muito complexo. e muito fácil. estava aprendendo a lidar com sua desconfiança e a ler aqueles que encarnavam papéis.

e, de repente, ela mesma não queria mais estar em nenhum papel, mas criar esses personagens. era como se com os personagens ela pudesse dar vazão às suas infinitas fantasias e, assim, pudesse estar mais inteira no seu próprio: o de mulher. sensível. independente. participativa. agregadora. e profundamente apaixonada.

março 15, 2013 at 2:05 am Deixe um comentário

o dia em que levantou e se fez um favor.

dormiu mal naquela noite. pensou em tudo, nos últimos meses, na convivência diária, nos sorrisos e nas poucas gentilezas. sentiu o peso de um gostar sem sentido, irracional e desproporcional. levantou-se pela manhã e resolveu se fazer um favor: ia esquecer. à sua maneira, já o havia tirado do dia a dia: já não mais almoçavam, já não davam mais risada juntos, já não ouviam mais a mesma música. (algum dia fizemos tudo isso em parceria?, se perguntava).

ainda que de uma maneira infantil, precisava agredi-lo e dizer coisas que não foi capaz nos meses de gostar latente.

disse: “c., você não me perguntou — você jamais faria isso, é muito desinteressado para querer saber. mas você não cabe mais em mim. nunca coube. você é incapaz de compreender minha complexidade. nunca conseguiria me acompanhar nos meus labirintos. e eu não posso com a sua rotina trabalho-casa-maconha-surfe. não posso esperar nada de você. e não posso querer esperar. não posso confiar em alguém que demonstre tanto desinteresse pelos outros. não é possível! não sei mais jogar esse jogo. não me alimento de provocações, de mistérios.

não posso fazer parte do seu terrível mecanismo de massagem de ego, enquanto espera sua namorada voltar. case-se, tenha vários filhos e viva uma vida de classe média regular, estável, fácil, sem atropelos, instabilidades e questionamentos.

seu charme acabou. nem o mau humor e as respostas  irônicas me fazem querer estar perto.

eu estou no mundo transbordando intensidade e preciso estar com quem não me aponte — ainda que invisivelmente — o dedo. ou que me olhe do alto de sua superficialidade e me ache louca, desequilibrada. você não é capaz de entender quem eu sou e ainda por cima desperta o que há de pior em mim: insegurança e dúvida sobre meu jeito de existir.

por isso, não cabemos no mesmo universo. estou saindo do seu. não se aproxime mais do meu. e assim retomamos um coleguismo diplomático, da onde nunca deveríamos ter saído — e aqui não há afeto, carinho e expectativas”.

abril 18, 2012 at 6:07 pm Deixe um comentário

que pesadica eres!

acordava, às vezes, com uma necessidade doentia de desabafar. de falar, falar sobre seus defeitos, suas fragilidades, falar, falar.

e ouvia muitas coisas, de pessoas importantes em sua vida: “procure terapia”, “saia disso”, “relaxa”, “pára”, “resolva”, faça isso, faça aquilo”. e tentava. fazer isso, fazer aquilo, mas a bigorna que habitava seu lombo insistia em pesar 200 quilos. certa vez, nessa busca por explicações, se deu conta: só queria ser compreendida. estava cansada de sentir-se sozinha em suas angústias, questionamentos.

ouvia que suas reações eram desproporcionais; sua intensidade, desmedida; sua auto-estima, uma merda. de tudo isso, já sabia.

o que precisava era que caísse em seu colo alguém que compreendesse sua complexidade. não aguentava mais o peso de escutar ter que resolver todos os problemas sozinha. precisava de gente que lhe compreendesse para deixar de sentir que vivia tudo sozinha.

fazia parte de um (pequeno) punhado de gente que sentia o mundo na carne.

fevereiro 8, 2012 at 6:21 pm Deixe um comentário

a maioria dos dias

de repente, quando se deu conta, os dias eram menos calmos. a angústia se sobrepunha à serenidade; a dúvida sobre a convicção; a insegurança sobre a capacidade de se amar; a saudade de uma vida que não existia mais sobre tudo.

percebeu que não sabia onde procurar tranquilidade e passou a duvidar se estava mesmo buscando momentos amenos. tinha a sensação de que nenhum lugar seria confortável, nenhum trabalho seria suficiente e nenhum amor seria a salvação. estava exausta, incompreendida e deslocada.

sentiu no corpo-carne falta das compreensões imediatas, dos alcances profundos. sentiu o mundo resistente e intransigente com sua sensibilidade. sentiu o peso dos erros, mas não conseguiu, nem de longe, sentir o peso dos acertos. duvidava estar acertando.

estava, pouco a pouco, se afastando de si e já nem lembrava mais qual tinha sido seu último instante de felicidade real, visceral.

todas as outras vezes que sentira tudo isso, tinha certeza ser passageiro.

dessa vez, tinha certeza estar ficando cega para as belezas do existir.

fevereiro 1, 2012 at 2:14 am Deixe um comentário

2011, o ano que podia não ter existido

hoje faz oito meses que o ano de 2011 foi marcado nos meus, até então 25 anos, como o pior ano da minha vida. hoje faz oito meses que meu pai morreu.

toda vez que penso que o ano podia não ter existido, logo em seguida caio em mim e lembro que ele, além de ter sido o pior de todos, ainda será lembrado, pra toda a eternidade, como o pior de todos.

é impressionante como acontecimentos ruins marcam tão profunda e definitivamente um período que você só quer esquecer.

e o mais curioso disso tudo é que, ainda depois de oito meses, eu tenho a mais real das sensações de que meu pai está absolutamente vivo. mas isso é assunto pra outra conversa. por hoje, eu só quero 2011 longe e meu pai perto.

dezembro 22, 2011 at 10:00 pm Deixe um comentário

o suficiente…

…pra ela era o olhar cruzado — quando permitia a troca — e o sorriso tímido, iluminado. tinha a sensação de que guardava esse sorriso só pra ela.

dezembro 8, 2011 at 9:02 pm Deixe um comentário

atenção, tudo é perigoso

tudo é divino, maravilhoso?

não sei.

ou melhor, não é.

de repente, de um 21 prum 22, sua vida passa a ser de um jeito que você não conhece. não, não é o fim de um namoro. nem é uma separação. nem você foi morar sozinho. você é surpreendido pela morte. ela, inexorável. sorrateira. inesperada. silenciosa. repentina. traiçoeira. a morte te diz: “resolva”, “administre”, “supere”, “tenha foco”, “fique firme”, “vá pra terapia”, “procure ajuda”. “só mesmo o tempo”, “a dor vira uma saudade boa”.

de repente, de um 21 prum 22 você não reconhece mais o que conhecia. do 22 de abril de 2011 em diante é tudo um grande, imenso, infinito buraco negro. você dorme e acorda outro. em outras circunstâncias, você decide ser outro. decide mudar, enxergar de outra forma. sente necessidade de ser diferente. com a morte você não escolhe. você é obrigado. e é obrigado a, no dia seguinte, resolver que vai voltar, que vai assumir a titularidade da conta corrente, que vai saber as senhas, abrir as correspondências, achar os documentos. você é forçado a ler o atestado de óbito de seu pai — septissemia, parada cárdio-respiratória, pneumonia, tetraplegia (diz que ele morreu por isso, mas viveu por 64 anos com isso) — como se ele fosse uma carta que chegou na sua casa. é forçado a enxergar papéis, objetos, detalhes, sutilezas que sua mãe não enxerga — ela está cega.

sente a estranheza. e, de repente, depois de um mês (completou um mês no dia em que você nasceu, há 26 anos), você sucumbe. sente pela primeira vez em 30 dias sente um torpor. 3091-1216 é o número que te vem à mente. não atende. ué, mas por que? sempre atende! preciso de ajuda. pai, é uma oferta de trabalho nova. é um novo desafio. me atende. pai, tô com medo, me ajuda. PAI! PAI! pai, cadê você? cadê seu cabelo grisalho, raspado? onde estão seus poros sujinhos do nariz? cadê sua mão, tão parecida com a minha? onde está sua cadeira quicker, quando vou entrar no seu banheiro pra pegar alguma coisa? eu sempre trombo nela! por que o porta-malas da fielder está vazio, pai? PAIÊ! conversa comigo, cheguei do rio! preciso de dinheiro. só um pouquinho. “quanto?”. “quanto der”. “vem me ver”. “quando estiver me sentindo melhor”.

{pausa para o sonho} não consigo me mexer. fui deitar, estranha, com a sensação de que não estava no meu corpo. abri os olhos na madrugada e não podia me mexer. virar. coçar os olhos. um delírio, penso. pouco antes, senti nos pulmões que estava ficando louca. senti no corpo a perda da razão, dos sentidos. onde foi parar minha vida mesmo? aquela, que eu conhecia. daquele jeito, naquela ordem? tento recuperá-la. PAAAAAAAAI! CONVERSA COMIGO! está de pé? como? nadando sem boia? como? delírios, delírios. muitos, como fosse louca mesmo. como se tivesse perdido de vez o juízo. “procure um médico”. “tome remédios”.

siga vivendo.

maio 27, 2011 at 7:19 am Deixe um comentário

no bar.

chegou, sentou-se. usava uma calça escura, boca de sino e uma blusa de linho amarrotada. usava os cabelos — que não viam uma tesoura há muitos meses — amarrados num elástico roxo. a sandália marrom estava mais escura que o usual, por conta de uma chuva no domingo anterior. de acessórios não era mto adepta. tinha uma beleza limpa, natural. as sobrancelhas estavam improvisadamente arrumadas por ela mesma. tinha uma marca leve de bíquini no colo e aquelas, que odiava, os pequenos flancos ao lado das sobrancelhas. sempre que tomava sol ficava com a mesma marca. era uma espécie de marca de tensão. nunca conseguia relaxar. até o sol marcava as rugas de preocupação. mas sentia-se bem.

pediu o de sempre, pra começar: um chopp. com colarinho, bem cremoso, gelado. era quase uma gozo dar o primeiro gole. num ato quase involuntário, soltou os longos cabelos para rearranjá-los no elástico miúdo. ele a olhava. na verdade, já tinham estado juntos e aquele encontro era trivial. mas na hora que ela soltou o cabelo, ele notou. ela estava tranquila. parecia segura, firme de sua beleza. estava distraída, pensando em tantas outras coisas. pra ele, o soltar dos cabelos demorou, os fios caíram em câmera lenta, deitaram sobre os ombros. umas mechas brilhavam mais que outras. nos ombros morenos, as sardas contrastavem com a penugem clara. o sorriso não era totalmente espontâneo, mas as covinhas habitavam o mesmo ligar nas bochechas. pensou: “caralho. o que é que ela tem?”.

ela não tem nada. só está suja e cansada, depois de um dia difícil de trabalho. ela só é real, natural, verdadeira. e por isso parece tão atraente. na verdade, ela só quer ser abraçada. ser aceita. na verdade, verdade mesmo, ela só quer ser lembrada. sem querer, sem planejar, ela só quer se sentir desejada. ele a deseja.

e é sempre assim: eles nunca sabem quando desejam e são desejados.

dezembro 12, 2010 at 6:38 am Deixe um comentário

das coisas…

…bonitas que tenho lido e ouvido.

“Quando eu olho pra mim mesmo, eu vejo apenas pedaços, partes desconectadas. A presença do outro é que conecta estas partes a um ‘eu'”.

dezembro 7, 2010 at 3:15 am 1 comentário

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