image

fim do por do sol no começo do verão madrilenho

Dos ensaios no isolamento social: o sentir a tal saudade

Direto ao tema, pesquisei o significado da palavra saudade e um dos resultados era sobre “certa cantiga entoada em alto-mar por marinheiros”. Seremos nós tais marujos perdidos no mar de uma nostalgia ainda desconhecida ou sentir falta já nos cansou a ponto de não ter mais graça? Apareceu-me também sobre a planta, na botânica. Preferi não fazer nenhuma relação àquela.

Já ouvi por aí que dizer saudade é uma exclusividade brasileira. Derivada do latim, vem como emoção que se manifesta na mesma figura em qual dialeto seja. Às vezes louca, às vezes calma. Sobe e desce. Direita e esquerda. Atinge o coração em seus diferentes polos sem acentos, te fazendo até perder o controle do assento. Uma brincadeira ao jeito Haroldo de Campos de ser-escrever.

Sentir saudade é apenas sentir. Neste momento, às 03h15 da madrugada, sinto falta de pessoas queridas e do cheiro distintivo de certos lugares. Ontem sentia outra saudade. E você, agora, do que sente saudade?

brasil poesia poetry love letter escritos escrito escrita escritoras mulheresqueescrevem textosautorais textospoeticos

Dos ensaios no isolamento social: uma carta de amor

Meu amor, hoje enquanto conversávamos no telefone, me veio uma vontade grande de escrever sobre uma palavra muito única: nós. E você sabe que escrever é meu esporte favorito. Eu começo com um certo tom de confissão já que, desde o final da minha adolescência, eu sonhava com possíveis relacionamentos afetivos com aqueles que eu sentia uma conexão que fosse forte o suficiente. Eu romantizava que surgiria um belo sujeito feito uma produção cinematográfica cheia de paixão, lealdade e um amor proibido e a inexorável vontade de vivê-lo, bem à la O Grande Gatsby, na versão interpretada por Leonardo DiCaprio, e junto a alguma música pop à Belle Époque como trilha sonora. Esse filme não aconteceu comigo. Ainda bem.

Depois de alguns anos, eu bem desencanada dessa busca, em 2017, uns bons amigos me convidaram pra ir a um caraoquê mequetrefe depois do trabalho. Veja só! Situação essa totalmente ímpar ao meu filme anteriormente romantizado. Eu estava cansada, era aniversário de uma grande amiga, mas eu estava em dúvida se ia por pura procrastinação - Carol, aproveito o momento pra pedir perdão e dizer que sempre te amarei, amiga. O motivo d'eu ter decidido ir assim, meio que de repente, só ter passado um batom vermelho e corrido pra Roosevelt, fica entre nós e aqueles que estavam envolvidos na insistência pra que eu fosse. Quando cheguei naquela locanda, fui direto para o caixa perguntar não lembro o quê. Como quem não quer nada, me virei para trás rapidamente e meus olhos foram direto para os seus. Minha reação foi uma só: um suspiro que vinha de alguma profundeza do meu corpo que eu ainda não conhecia. O que veio em seguida fica na memória.

Depois que fui te conhecendo melhor, tudo foi se organizando de forma tão espontânea e carinhosa, que eu mal pude perceber o tempo passar. E você! Ah, você! Você não tem ideia do quanto que somou nesses nem sei quantos milhares de dias juntos, seja fisicamente, mentalmente ou por telefone como a gente faz todo-santo-dia. Atenção aos hifens pra enfatizar que a gente realmente se telefona todos os dias. Ligar constantemente para uma mesma pessoa? Isso nunca foi tão natural pra mim como é desde então. É meu momento favorito do dia.

Aí vem a parte em que eu alimento seu ego, algo que você como um bom leonino aprecia e que eu adoro rir quando você mesmo o faz. Mas me parece que você ainda não tem tanta ideia do seu tamanho. Você é muito maior do que O Grande Gatsby - e mais bonito, diga-se de passagem -, em qualquer interpretação no cinema. Todavia, tenho certeza que você não viu o filme ou leu o livro, eles tampouco fazem o seu tipo, então as citações em nome de Gatsby acabam por aqui. Mesmo assim, eu preciso dizer o quão gigante você é, tem um coração enorme e atitudes genuinamente sinceras e conscientes. Os momentos em que você pára, presta muita atenção no que estou dizendo e reflete sobre quem eu sou, o que eu preciso e quem eu almejo ser como um bom ser humano, são extremamente importantes. Como uma boa feminista que sou e conhecedora do fato de que pouquíssimos homens raramente dão o valor necessário à luta diária de uma mulher apenas por ser uma mulher, então seu elogio é, digamos, saudável, mas sem muita empolgação porque você sabe que eu odeio elogiar essas coisas ou o famoso dar biscoito pra macho, mas nesse caso é cabível.

Eu admito aqui também minhas certas condições mentais que devem te dar um trabalho do cão, como é dito por aí. Mas você olha pra essa frase e tem a capacidade de enxergar de outra forma, sem discriminação, e, se aproximando com simplicidade, está sempre disposto a aprender a como me ajudar nestes momentos delicados. É bem complexo e só a gente sabe. Você faz isso por mim. E eu agradeço sempre por ter você comigo. Mesmo com minha famosa rede de apoio - alô, Roberta e Daniela! - você vem ganhando destaque nessa parada louca que é amar alguém que tem depressão. Quando lembro desse detalhe fico de certa forma triste, pois você me conheceu e eu já tinha essa condição comigo. Queria ter te conhecido bem antes de ficar assim, como quando eu dava aulas de redação e propunha debates sobre temas polêmicos com os alunos do Ensino Médio, essa época era maravilhosa e eu tinha uma integralidade emocional tão boa que tendo você junto no pacote seria algo até utópico. E está tudo bem. Nos conhecemos em outros tempos, foi dessa forma que nossos caminhos se uniram e eu sou muito feliz por tudo o que aconteceu.

Eu não costumo terminar meus textos boquiaberta com o tanto que já escrevi - mas que nem assim disse tudo o que eu quero dizer, dar significado para os sentimentos, entende? Só um poeta em nível drummondiano para colocar todos os sentimentos possíveis em palavras. Ou nem o próprio Drummond. Não há limites para o sentimento mas existe para a poesia? Eu termino desta vez com um questionamento e com o meu maior sentimento por você: ich liebe dich.



Texto escrito em 4 de junho de 2020

Dos ensaios no isolamento social: sobre desenhar interiores

Quando percebo que já faz quase 10 anos que reformei meu quarto sozinha (antes, cheio de móveis planejados), hoje vejo que esse era de fato um sinal pra me tornar designer de interiores. Lembro que desenhei tudo de forma minimalista e simples pra sobrar bastante espaço pra quando eu quisesse sair correndo atrás do meu gato. Reciclei as gavetas pra servirem como prateleiras para os livros e montei uma cama de pallets usados que consegui como doação.

Venho tendo certos ensaios como este assim, em meio ao isolamento social, como quão importante foi pra mim não ter seguido uma trilha que tivesse uma linha reta. As curvas foram de grande necessidade. Eu passei por internacionalista, voluntária, professora de gramática, bancária, freelancer, entre outros ressifignificados que a vida foi me trazendo ao longo dessa jornada. E sabe qual a melhor parte? É não ter arrependimentos.

Eu, nós, vós estais mais sensíveis sim, cheios de altos e baixos e suscetíveis à atitudes que antes poderiam parecer loucura mas que agora servem de calmaria ou certo riso. Admitir isso é libertador - já que nossa liberdade física está de certa forma podada. Além disso, há tanta vulnerabilidade social na realidade de tanta gente que, se existe alguém que não se sente muitas das vezes emputecido [o corretor trocou por enfurecido, mas preferi a ideia original] com a situação atual, é por que há pessoas que se recusam a enxergar e/ou são privilegiadas demais pra sequer se permitir a enxergar. Uma lástima!

Isso tudo pra dizer que o momento é triste sim, imensamente triste, mas com suas minúsculas doses de alegria que vão nos ajudando a chegar ao fim de cada dia árduo e cheio de luta. Seguiremos com respeito.




Texto escrito em 31 de maio de 2020

Eu teria um título ruim demais nesse momento ruim demais. Então, sem título mas já com título.

Dos ensaios no isolamento social: escolhendo leituras particulares

Março, ano 2020. O mundo está em isolamento social por uma pandemia designada como COVID-19. Pode ser que já tenhamos encontrado a solução disso tudo quando eu ler novamente esse texto. Mas, por enquanto, o caos ainda está instalado em nossas moradias.

Existe ainda mais fome e despreparo para aqueles mais pobres. Ver as favelas no Brasil e na África do Sul me fizeram refletir e enroscar meus pensamentos em nós que Deus sabe quando serão desatados. E eu aqui, me preocupando com a minha humilde depressão, que vem assolando meu choro e falta de ar nestes dias em casa.

É, meu querido, acabei depois de uma crise de pânico, escrevendo um texto simples, mas que servirá - mesmo que em um curto sopro - para me aliviar num desabafo calmo para alguém que eu amo e sinto que me compreende, ou que pelo menos se esforça pra isso. E eu admiro muito, tá?

Eu vou pular aqui as desculpas que pedi por um telefonema chato que fiz e deixar, ainda assim, minha admiração particular por esse homem que está ao meu lado. Talvez seja até particular demais. Passemos para outras linhas.

Neste momento, meus maiores gatilhos (que mais a fundo, os tais gatilhos emocionais são estímulos recebidos pelo nosso cérebro e que influenciam diretamente a nossa tomada de decisão - ruins ou boas), tem sido ver pessoas nas benditas redes sociais publicando o quão lindo, produtivo, proveitoso, útil etc tem sido seus dias de quarentena. Como é que pode, meu sinhô?! Colocar uma roupa descolada e sentar na frente de um notebook pra fazer o dia render as mil maravilhas de seus trabalhos perfeitos. Não me identifico.

Hoje vi uma anotação qualquer da atriz Maria Ribeiro na Revista TPM, em que ela, explicitamente, se identificou como uma “idiota inútil”. Foi uma conexão imediata. Foi como olhar para o espelho e ter outra pessoa lá dentro me dizendo o que eu sinto. Louco ver que não sou só eu ficando mais louca. Ou normal ver que não sou só eu ficando mais normal, pois os loucos são os outros, que me desculpem as blogueiras ricas de Instagram.

Enquanto isso, me sinto diretamente afetada de um jeito mórbido e melancólico por não conseguir nem mover um músculo da cama. E não é nada básico na situação que me encontro. Me sinto uma fracassada, daquelas que quando estuda parece não saber ou entender nada e quando procura emprego parece não se encaixar em nada pois tampouco assimila nada versus nada também. São muitos nadas que tem borbulhado na minha cabeça.

Dentre os apesares, tive a sensibilidade de perceber aos poucos que existe muita falta de responsabilidade emotiva e social e empatia nestas mesmas pessoas, privilegiadas em seus super apartamentos ou super sítios, por sentirem simplesmente uma palavra: vontade. Seja de trabalhar no home office, colocar um sapatinho para estar em casa nesse meio tempo ou cozinhar para a família tradicional. O estímulo em passar um rímel ou um batom já seriam suficientes. Eu? Continuo de camisola o dia inteiro e não arrego. Fazer exercícios então nem se fala! Mas, espere um pouco! E para uma pessoa com depressão, síndrome do pânico, bipolaridade e afins, já pensou? Isso se torna uma dor que desacelera e a faz perder o rumo ou que a descontrola os humores por completo.

Consequentemente, é um desafio diário e enfrentá-lo a faz sentir mal, no fundo do poço (esperamos que não como no filme de Galder Gaztelu Urrutia, claro) pois ela sabe que não vai colocar qualquer atividade seja fisíca ou mental em prática. E isso a deixará pior. Cada dia pior. Ela vai chorar, vai se entristecer e vai a cada dia mais perceber que não sabe o valor da própria vida. Tudo isso por conta dos malditos gatilhos.

Eu, por mim, encontrei uma medida provisória para esse momento fatigante: vou me desconectar pela milésima vez dessas redes sociais que tanto frustram milhares de pessoas com falsas felicidades e veremos se dará certo. Meu negócio é poema e foto. Não faço mais nada de interessante nessas redes. Talvez um filtro de gatinho de vez em quando e olha lá!

Enquanto isso, peço um pouco mais de sua paciência tão carinhosa comigo, meu amor. Você me escuta e me faz de fato sentir ouvida. Você parece se preocupar com meus feedbacks e os coloca em prática. Por isso, sou muito grata por ter sempre você ao meu lado. Dos meus amigos eu não sei, minha família sempre em prantos e conflitos, mas você continua aqui.

Meu imenso obrigada.



Texto escrito em 20 de março de 2020

Felicidade em olhos castanhos

Todos os dias parecem saudade. Esses mesmos dias são os que distorcem a pequenez desse apartamento onde moro. A inquietação da minha paisagem interior se monta no rosto dos vizinhos: a italiana que tem cheiro de erva, o casal de rapazes a direita da minha porta, o dono da loja de bicicleta no final do corredor. 

Não me bastam mais as árvores cheias de gelo nem os pássaros que mal escuto cantar, a névoa de julho ainda acentua a falta. Seu acinzentado ganhava cores a cada novo movimento e eu me apaixonava enquanto prestava atenção em todos eles. Tocava com cuidado pra não desmanchar e evitava apertar demais o que já parecia um tanto delicado: escrava da sua beleza eu fui.

Agora, mesmo ventando longe, está perto quando lembro da alma forte que carrega. A turva curva encorpada nessa imagem me embasbacava a fala. Tantas vezes que perdi o fôlego quando a névoa passava por mim e flutuava na minha frente, às vezes tão calma soava baixo com voz grave como se pudesse dedilhar no fundo dos olhos castanhos meus e teus. “… Uma névoa fria aos olhos era quente ao tato, como se tato e vista fossem dois modos sensíveis do mesmo sentido”, nas palavras de Fernando Pessoa, em seu seu Livro do Desassossego - item este parte de tantos outros capítulos meus -, na leve confusão de como partículas de água transitam entre temperaturas independentemente de um toque de ternura feito massagem no pescoço. 

Ela parecia ter tanto de bom a dizer, tanta poesia, que talvez eu tenha esperado demais para ouvir a névoa cantar. Ela canta para outra mulher. Espero que ambas se sintam felizes num completo real que encha o copo até a boca. Que esse canto de nevoeiro ainda seja calmo, com a mesma voz grave a qual me apaixonei no último mês de julho.

Texto escrito em 19 de junho de 2017.

A dança de João, Joana, Fabio e Maria

Todo ano tem uma conclusão diversa do passado e do seguinte que ainda não acordou. Tem sua própria forma de explodir e tornar-se estrela no horizonte da vida. Com Joana, diferente não pareceu acontecer. Há três dias do término de 1996, ela rebobina todas as VHS esquecidas no sofá da memória e acaba por organizar todos os seus suspiros, desde os melhores, passando pelos piores e encaixando também aqueles sem muito gosto de entusiasmo. Mesmo assim, todos traçaram as curvas e linhas retas dessa fita tamanho 365. Tem espaço para choro e sorriso. Joana tenta ao máximo colocar tudo em seu devido lugar e manter o equilíbrio, mas alguns delírios são ainda inevitáveis. Ainda bem!

Desenhada aqui como uma mulher que pode personificar tantas outras, Joana viajou para fora do país que nasceu, cortou e doou os cabelos, desencontrou e encontrou o amor, escreveu alguns poucos textos e bebeu boas cevadas aqui e acolá - tudinho feito neste ano que já está perto de cair no seu fim. Ela teve uma percepção bastante lúcida de quão privilegiada foi ao lado da avó - com quem morou em uma cidadezinha caipira no norte da Itália, mesmo lugar verde de nascença dessa avó quase um século atrás -, o quão rica foi sob o mesmo teto de sua família, feliz junto dos amigos e encantada girando por esse mundão imenso feito o nosso. Joana esteve numa conferência com o Mia Couto no Rio de Janeiro, perdeu a conta de quantas passagens teve pela estação de trem de Mauá, viu ainda as ruas estreitas de Veneza e as montanhas da Suíça. Joana amou Fabio, depois amou João, que amava Maria, que não tinha nada a ver com história nenhuma, e no final, Joana preferiu amar a si própria e ela mesma. Quebrou o pé direito, brincou com crianças das mais criativas perguntas e pedalou sua bicicleta roubada no frio de temperaturas negativas.

Ela segue procurando a mesma pureza que haviam prometido assim que quando bebê abriu pela primeira vez os grandes olhos castanhos. Joana grita e se desespera por um socorro que só ela pode dar para si. Quem repete a mesma música dos subúrbios de um povo sem existência se vê em uma guerra que parece errônea e pacífica em proporções bem próximas, em que movimentos socio-políticos têm o mesmo peso de uma granada nas mãos de um homem-bomba, mas, ainda assim, vista como um conflito loucamente natural aos olhos de Joana. Tudo soa incrivelmente louco, pensou ela.

E a cada passo, Joana se segura em suas incertezas por não saber qual caminho seguir. Estaciona a bicicleta ao lado do poste da esquina e larga tudo na calçada sem olhar para trás, se distrai das fitas de VHS e teme que os vinis também baguncem mais um fim de ano ou começo de outro, tanto faz. Foi, então, que ela preferiu finalmente partir. Fugiu do caos de Milão e pegou o primeiro voou de volta para sua cidade preferida que é ainda mais doida: São Paulo dos prédios envidraçados. Escolheu um pequeno apartamento no Edifício Copan, deixou as malas, colocou um vestido curto florido e correu de novo para os beijos do João. Esses eram os desejos dela, mesmo que quase sempre cheia de dúvidas. Ela quer a tranquilidade de uma mesa de boteco barato, dizer adeus ao clichê do sonho europeu e acolher com um amor maior o calor brasileiro em ser a Joana que um dia eu também quero ser.


Texto escrito em 31 de dezembro de 2016.

love poem poesia poets on tumblr poema brazil brasil

Por onde andava o amor?

Foi acontecer o retorno às terras tupinikins - apelido clichê brasileiro - que a vontade de passar a caneta sob o papel tornou-se quase incontrolável. Entre ouvir as confissões afeicionadas de um amigo e ler o último texto do Xico Sá no site do jornal El País, eu percebí, cá de canto do quarto, eu comigo mesma, que me fazia falta o amor. Fazia.

Esse amigo conta que está de papo solto com uma estudante de medicina da UniRio. O falatório não decora uma trombada na rua pela primeira vez. É mais excitante! Ele me conta de um reencontro. Mesmo sem saber se era amor que escorria nesse discurso - e talvez nem ele ainda saiba - eu sorri mesmo sem ser parte dessa história. Mas, agora que me pego refletindo um pouco mais sobre o quão maravilhoso é o verbo “sentir” aqui na pele da gente, eu até posso ser parte disso indiretamente. Não por ter me enrolado nesse lance. Nem me encaixo nisso! Mas por estar diretamente enrolada a um mancebo de 1,96m nascido no interior do norte da Itália. Um suspiro profundo me vem a garganta só de pensar nele.

A lonjura não parece ser importante, ou talvez até seja eu que ainda não tremi de saudade, mas os 9.691km de terra, mar e fronteiras que nos separam agora não têm força alguma quando evoco para mim o descer do ônibus 162 na estação de Bassano del Grappa, enquanto ele abria o guarda-chuva (que parecia um toldo de piscina de tão grande) para ir ao meu encontro. Acho que nunca fui tão feliz com uma singela lembrança.

Enquanto escrevo esse primeiro futuro arquivo de nós dois, vou parando de frase em frase para sorrir mais um pouco e desejar voltar logo para a minha morada dos últimos três meses. Beijo quase açucarado, olhos muito azuis em um mar de púpilas meigas, um conjunto harmonioso de beleza interior e exterior que me faziam fitá-lo com um olhar viciado. Palavreado tão brega quanto um livro de Paulo Cesar de Araújo. Ah! Mio bello amoroso, anche io ho ritrovato l'amore.

Algumas coincidências servem para amenizar o destino que soa conflituoso. Reescrever, reamar, rejuvenescer, reavivar. Eu estava tão apática há alguns meses que nem escolhia direito o jeans para sair de casa, já vestia o primeiro que via na gaveta. Entretanto, com tantos amores crus que foram passando, esse não quero deixar vazar por entre os dedos. Assim, identifico a franqueza em minhas feições que me tem feito viver e não somente existir de forma monótona. O drama, a loucura e a sinceridade do gostar de estar com alguém vai nos acompanhar onde quer que a gente esteja.

predizer

sou profetiza
já sabia da saudade
do metrô
das pessoas
da são paulo
mas não sabia a imensidão
já sabia do tormento
da cultura
do preconceito
da xenofobia
mas não queria acreditar que existia
já sabia do amor
do sotaque
dos homens
dos olhos azuis
mas não sabia como tocá-los
já sabia do idioma
da gramática
do latin
do italiano
mas não sabia conjugar
eu sabia disso tudo
e mesmo assim quis continuar
cá estou
em outro lar
sentindo falta daquilo
que era felicidade pra de lá
e pra de cá, cara amiga
vou descobrindo como andar

Carta aberta à Maria José

Mulher maravilha da filosofia brasileira,

Venho por meio desta ferramenta globalizada dizer que lembrei de você um dia desses, em um acaso da vida. Eu ouvi sobre questões que nos envolvem frente a frente como seres humanos, assim, olho no olho, sabe? Parei um pouco e imaginei até que ponto respeitamos nossos vizinhos de ideologia. O assunto e seu desdobramento ficam pra outro momento de cerveja gelada na mesa do bar. Li, pesquisei e refleti bastante.Vieram à minha mente algumas pessoas que são modelos para uma construção social legítima - minha mãe, que continua brilhando com delicadeza apesar de todo o sofrimento, estava no topo da lista - e dentre elas estava você. E sabe o que me deu vontade de fazer? Agradecer. “A gratidão perfuma as grandes almas”, bem dizia Balzac. Dessa forma, já adianto que estou grata.

Você foi uma amiga desde o dia que te conheci, porque já estava me colocando pra ler os textos dos alunos, só amigo faz isso. Uma piada! Me arrumando mais trabalho pra caralh*, veja bem… Lembro de você rouca na sala dos professores dizendo: “eu fui com a sua cara!“ 

Não fui sua aluna de sala de aula, mas fui aluna de vida, entende o dilema? Pessoas doidas têm desses delírios. E minhas aulas de gramática gerativa na faculdade? Nossa senhora da linguística! Eu não entendia quase nada do que Chomsky tentava relatar naqueles parâmetros específicos, mas você mais uma vez ajudou e sem ficar brava por eu devolver seus livros uns dois meses depois. Haja bandejão para suprir minhas idas a Guarulhos. E as antigas confissões do meu namoro com aquele gaiato que você conheceu? Os cinemas e os antigos melhores lazeres servem agora só para concluí-lo. Aqui se encaixa mais uma palavra de gratidão por ter ouvido tudo o que eu tinha para falar, que de tampouco não era tão pouco.

Basicamente, não vim estender minhas elocuções, só mesmo dizer “obrigada”. Sexta-feira a gente põe o papo em dia. Se sobrar tempo, compramos umas baboseiras engordativas na padóca da esquina do Baeta e gargalhamos, tudo de novo, mais uma vez e quantas outras precisar(mos).

Beijo grande, bicho!

friends amiga amigas friend teacher school chomsky balzac friday poetry letter carta poesia literature português beer cerveja mother sister boyfriend mae irma tumblr text texto love friendship amizade

A estupidez é patriarcal

A festa da irracionalidade parece estar perto do fim. Alguns de nós não levam mais pra dentro do peito o preconceito junto de um tom de brincadeira de criança ou do sarcasmo mais estúpido. Esse lance não cola mais, graças à luta ainda não tão glorificada quanto o merecido daqueles que ocupam toda a beira, margem e esquina dessa nossa sociedade globalizada e conectada 25 horas por dia. Como um mar cheio de diversidade e de pouco binarismo prestes a inundar o grande cálice dos privilégios patriarcais - mesmo que de pouco em pouco no paço de tartaruga - é que esse movimento sobrevive em busca de respeito pelo que se é. Nesse mar há sereias dos mais dissemelhantes estilos de cabelo. Suas doutrinas são de tão sortidas cores que surgem mescladas feito as nuvens e o céu de uma tarde de verão. Há aquelas que seguem o liberalismo, o extremismo, aquelas que preferem as pautas mais radicais, as socialistas, marxistas etc, todas em um mesmo oceano.

Metáforas servem para dar ainda mais beleza à histórias de lutas feministas já imensamente lindas. Sem a objetificação e a chatice da beleza midiática. Cada mulher pertence a sua própria e peculiar beleza. Tem mulher pacifista e anarquista. Tem pra todo o gosto de visão política atrelada à língua do desconforme. Tem as bolivarianas, russas, brasileiras e jamaicanas, toda e qualquer nacionalidade e militância é bem acolhida, basta-nos ser mulher ou sentir-se feito uma. Mujeres Creando, Rote Zora, as mulheres do Panteras Negras, e tampouco retiro daqui meu particular apoio às misândricas, entre outros grupos ativistas, esse movimento social foi feito especialmente para todas elas. Todas sofreram e estão em busca de um mundo melhor.

Mas, em momento algum, não deixeis demorar aqui os homens. Eles já são a maioria que tem acesso ao poder. Deixe-os, sim, de fora dessa! Que o Clube da Luluzinha chame mais atenção que uma roupa justa e colada ao corpo. Feche as portas. O machismo não deve tocar as almas das mulheres. Homens cisgêneros não são parte direta da nossa Marcha das Margaridas. É necessário não só um mero pensamento cheio de simplicidade, mas uma contribuição que se limita ao caráter pró-movimentista, sem que, repetidamente, mais uma vez, de novo, tomem nossa frente. Elas devem saber de seus poderes para alcançar a liberdade e a verdadeira independência, já dizia quase que nestas mesmas palavras Emma Goldman, mulher lituana que teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX. Nenhuma diferença e nenhum crente no conservadorismo e na tradição vai separá-las.

Neste século que pertencemos, um novo estado de terror é encontrado, pois ainda existe o medo, mas, apesar disso, também existe a sororidade, isso é o novo. Vamos juntas, vamos mais seguras! Mesmo que uma de nós ainda não tenha se rebelado, outras tantas estão nas ruas, nos grupos de discussão, nas escolas, nos bares etc, elas falam por aquelas que ainda padecem do silenciamento, caminhando em direção à igualdade. O sofrimento adicional e o sistema de crença determinista e opressor sobre quem as mulheres devem ser (impondo a elas novos valores e recursos não pertinentes) ainda podem ser extinguidos junto do patriarcado. As premissas de um essencialismo machista não tomarão nossas vozes, nem da mais aguda àquela mais grave, fazer barulho é suficiente.

Minhas palavras não compõe um manual básico do feminismo ou tampouco um resumo pra boi macho alfa dormir. É um desabafo parecido com alguns dos meus outros suspiros, mas um pouco diferente por agora segurar nas mãos das adolescentes ainda imaturas para uma vingança intelectual, nas mãos das mães que estão sob alguma influência dos maridos que tanto gritam para calá-las, nas mãos das avós, das faxineiras, das empresárias, das professoras, de todo o ser humano que vê uma mulher quando se olha no espelho. Estaremos em união onde houver repressão. Estaremos por perto quando uma de nós for vencedora. “Mas há um grande número de feministas lá fora, […] que não querem se ver automaticamente incluídas em uma postura, simplesmente por nossos órgãos genitais ou por nosso feminismo” frase que li uma vez citada em um livro escrito por um homem. O peso que o machismo deixa no ar será, então, levado para longe de todos.

machismo mulheres feminismo poet poetry contos brasil saopaulo social tumblr sp girl me escrito tags estupidez patriarcado sexism sexismo feminism woman women liberal freedom 2015 summer winter college letter letters

Vínculo: onde duas ou mais partes humanas se juntam

A demarcação de território psicológico e a limitação fronteiriça entregues à uma personalidade individual podem ser parte que compõe o ser humano. O falso rebelde do século XXI parece não explorar o fundo do hipocampo quando é questionado sobre as necessidades reais da civilização: compreensão e respeito. A direita se incomoda e fica fora de sua zona de conforto enquanto a esquerda continua em busca de mais ajuda. Que direção toma o amor que Jesus Cristo Superstar pregava até mesmo àquele vizinho rabugento? Tudo farinha de um mesmo saco.

A crença maior está na informação. Santa liberdade de expressão! A agilidade da internet e das proporções que as redes sociais tomam por toda uma vida são de uso um tanto irresponsável. A então melhor ferramenta que homens, mulheres, transsexuais, gays, demissexuais, assexuados etc tanto sonhavam para si está tão estagnada quanto seus próprios pensamentos. Não existe amor em São Paulo, nem em qualquer cidade ou sociedade capitalista. O consumo material sobressai o verdadeiro entretenimento intelectual e devora a natureza humana que um dia foi perfeita. Mas essas palavras não buscam uma perfeição gramatical. Poupe-as, tradicionalismo! A busca segue o pensamento humanizado e tenta encontrá-lo em todas as pessoas que habitam o planeta Terra. Uma por uma.

Conexão sem coerência. Onde já se viu? Uma linha de raciocínio cheia de desvios e preconceitos linguísticos, étnicos e sociais. É fronteira para todos os lados! O indivíduo que merece, consegue sua cura, já aquele avaliado como inconsequente pela mesa evangélica da Câmara dos Deputados de um país laico X, morre no âmbito meritocrático. O povo aceita! O povo concorda e bate panela! O povo quer matar a presidenta! Matem todas as feministas e as pessoas de pele escura! E que fique mais poderoso o sensacionalismo. Conclusão absoluta essa é que não há ponto máximo a ser alcançado quando as opiniões são divergentes e a teimosia é o maior sentimento. Só a foice mais afiada que aquela que pertence ao símbolo do comunismo livra-nos desse mal cortando-nos a garganta.

As questões políticas são esquisitas aos olhos azuis apolíticos fofoqueiros online, tampouco sabem estes os bons recursos da argumentação pautável. Que a pedra do anarquismo quebre o teto de vidro de cada um que não se importa com a vivência de mendigos e craqueiros, prostitutas e domésticas. A margem da sociedade vai permanecer, ali, sempre na beirada, enquanto ondas nervosas empurram pseudo-minorias para fora daqui. Deve-se considerar todo aquele que é diferente, todo aquele que tem defeito, todo aquele que é normal, todo aquele que é ser humano, assim mesmo, de forma até generalizada. É dessa gentileza que os deuses gregos e egípcios, os orixás, o Papa Francisco, o Buda, o chá do Santo Daime, Jesus Cristo, todos os religiosos e todos os ateus têm carência, é do amor de ser humano para ser humano que o ser humano sente falta.

freedom liberdade sp brasil brazil girl me woman women tumblr tags college jesuscristo superstar human humano carencia anarquismo comunismo politica politics social people society

O tudo e o nada de São Paulo

Entrego todo o meu amor à terra da garoa, e em breve toda a minha saudade. Passo agora por essas calçadas descalça para sentir com o caminhar delicado esses mais de 1 milhão e meio de quilômetros de concreto. Debaixo do clima subtropical úmido indeciso e confuso, vejo semelhança com meu humor como quando estou perdidamente apaixonada pelo gaiato são-bernardense. Chega a parecer uma cena de teatro de sátiras o quanto me identifico com essa capital e tudo o que colheste de mim vai permanecer marcado nos copos de bares e restaurantes que estão situados nas incontáveis travessas da Avenida tão bela Paulista. 

Todas as vezes que busquei perder e enlouquecer minha mente nos coloridos artísticos, pude encontrar consolo no Museu da Imagem e Som, nas salas de Cinema Itaú e até nas pixações da Avenida Radial Leste. Gastar minha tão rala quantia monetária nas feiras do Bixiga e do Minhocão traziam prejuízos à minha conta bancária, mas mesmo assim eu sempre saía satisfeita e pedindo por mais tranqueiras nas idas seguintes. Ir embora será de estourar as artérias. Mas, de forma alguma, mesmo que eu ainda busque novas amplitudes arquitetônicas e curiosidades na Europa, as ondulações do Edifício Copan, a vidraçaria do Shopping JK Iguatemi e a vista encantadora do topo do antigo Banespão continuarão insubstituíveis, assim como as belas orquídeas brancas do jardim da Casa das Rosas, que servem para quebrar a grande quantidade do cinza espalhado por todos os cantos de Sampa. 

Dessa cidade, fundada por padres jesuítas na metade do século XVI, também ficarão em mim as pessoas, desde os amigos que abracei até os mendigos que emprestei um cigarro, todos estarão desenhados em mim. As voltas a pé com uma garrafa de vinho na mão, ou correndo de salto alto na Semana de Moda, ou de garupa nas bicicletas alugadas do Parque Ibirapuera trazem o gosto peculiar da nostalgia à boca. Os caminhos exaustivos que me levavam do metrô da Estação Luz até a Universidade Federal, onde estudei por quatro largados anos, em contrapartida, traziam desgosto e foram quase mais xingados que as prostitutas da Rua Sete de Abril, eu odiava passar várias vezes de um mesmo dia pela linha vermelha abarrotada de pseudo-humanóides-paulistanos, mas, na volta do Sesc Pompeia em um desses últimos dias, o horário fora do pico trouxe um pequeno vazio ao peito. 

Essa região metropolitana não pertence apenas aos arranha-céus bloqueadores de sol e nuvem, e sim aos seus mais variados 30 milhões de homens engravatados, mulheres sem tempo, idosos esquecidos em casas de repouso, crianças com asma, transexuais espancados etc, pois todos são parte dessa expansão cultural, política e econômica que tem nome de santo. E essa bagunça, pandemônio, algazarra, ou qualquer outro sinônimo que existir, é uma das razões que vai estremecer meus sentidos na hora da despedida. O tudo e o nada passarão a ter um mesmo significado distante e feito de lembranças da gigante e hospitaleira cidade de São Paulo.

sp saopaulo brazil brasil city italy italia europe europa trip viagem 2015 2016 love unifesp man woman


Indy Theme by Safe As Milk