O toque que cura
Capítulo 4 — O Veneno Lento

Voltaram à Guilda quando o dia já começava a ceder.
As pedras da rua ainda guardavam o calor do meio-dia.
As vozes das barracas tinham baixado um pouco.
Os passos das pessoas, mais lentos do que de manhã.
Rina repetia mentalmente o conteúdo do papel que Gal lhe havia dado.
Nome do material. Local de coleta. Nível de perigo. Reação mágica. Método de conservação.
Um por um, tudo voltava ao seu lugar na prateleira.
Sol caminhava ao lado dela.
Começou a dizer algo, mas parou.
Rina percebeu. Não perguntou.
Quando abriu a porta da Guilda, o ar estava diferente.
O mesmo cheiro de tabaco e bebida da manhã. Vozes. O arrastar de cadeiras.
Mas havia outro cheiro misturado.
Sangue.
Rina parou.
Perto de uma mesa no fundo, algumas pessoas estavam reunidas.
Alguém estalou a língua. Alguém disse: "Não é nada."
No meio deles, estava sentado o homem que havia rido de Rina pela manhã.
Segurava o braço esquerdo.
A manga estava rasgada. Uma mordida no antebraço. Não era funda. O sangue, pouco.
Os outros achavam que era coisa menor.
Rina se aproximou.
O homem ergueu o rosto. Quando percebeu que era ela, franziu o cenho.
"Que foi?"
Rina não respondeu.
Olhou para a ferida.
Pouco vermelho. Pouco inchaço. Mas havia um cinza fino correndo sob a pele. Ao longo das veias. Fino. Devagar.
Rina se inclinou levemente.
O homem puxou o braço.
"Não encosta. O que você entende disso?"
Rina olhou para o braço que havia sido puxado.
"Do jeito que está, até a noite você não vai conseguir mover os dedos."
Ao redor, tudo ficou em silêncio.
O homem riu.
"Tá me ameaçando?"
"Não."
Rina apontou para o braço dele.
"Está avançando devagar."
"O veneno."
Sol olhou para Rina.
"Avançando… devagar?"
A recepcionista repetiu, sem entender.
"Sim."
Rina não tirou os olhos do braço do homem.
"Se fosse um veneno forte, já estaria inchado. Febre também. Mas esse é diferente. Avança só sob a pele, devagar. É o tipo que paralisa antes de doer."
O sorriso do homem desapareceu.
Rina continuou.
"O que mordeu foi uma criatura pequena. Presas finas. Provavelmente o tipo que ataca pelo chão, dentro da floresta. O veneno não é para matar — é para impedir a presa de fugir."
Alguém disse baixinho.
"…Ouriço-da-névoa?"
Rina não conhecia o nome.
Mas entendia a estrutura.
"Existe antídoto?"
A recepcionista balançou a cabeça.
"Antídoto comum tem, mas não funciona bem contra o veneno do Ouriço-da-névoa. Mesmo com cura mágica, a ferida fecha, mas o movimento pode não voltar."
"Então é melhor não fechar a ferida."
"O quê?"
"Se fechar a saída, só o veneno fica."
Rina virou-se para Sol.
"Posso usar um forno? Ou qualquer fonte de calor. Água, um recipiente vazio. E um pouco de erva-névoa."
Sol ficou em silêncio por um instante.
Então disse à recepcionista:
"Providencie."
Rina rasgou a erva-névoa com os dedos.
Verificou o aroma.
Azul. Frio.
Era da mesma família da que havia colhido ontem.
Sozinha, era fraca.
Rina se lembrou de uma linha do papel de Gal.
Fluidos com carga mágica podiam mudar de propriedade com o calor.
O veneno talvez não reagisse da mesma forma.
Mas valia tentar.
Um pouco de água. Erva-névoa. Raiz seca triturada. Uma pitada de sal.
Misturar.
Aquecer.
Não deixar ferver.
Esperar o aroma mudar.
Sol observava ao lado.
"Você sabe?"
"Um pouco."
"O quê?"
"O peso muda."
O aroma do vapor mudou.
O azul desceu um pouco.
Por trás dele, veio um cheiro mais perto da terra.
Rina tirou do fogo.
Embebeu um pano.
Levou-o até o braço do homem.
O ombro dele enrijeceu levemente.
Rina disse:
"Vai doer."
"Não ia me curar?"
"Para curar, vai doer."
Encostou o pano na ferida.
O homem cerrou os dentes.
O cinza sob a pele ficou um pouco mais escuro.
Aproximava-se da superfície.
Uma gota de sangue escuro brotou.
Rina trocou o pano.
Encostou de novo.
Esperou.
Na terceira vez, os dedos do homem tremeram.
Rina viu.
"Mexa os dedos."
O homem, em silêncio, dobrou os dedos.
Moveram-se. Um pouco.
Ao redor, todos prenderam a respiração.
Rina limpou ao redor da ferida uma última vez.
"Hoje, não beba."
O homem tentou dizer algo.
Abriu a boca.
Fechou.
Rina também não disse nada.
O necessário havia terminado.
Quando saíram da Guilda, o dia já estava escurecendo.
Sol caminhou em silêncio por um tempo.
Rina também.
No meio do cheiro da cidade, ainda havia um rastro de ervas.
Foi então que Sol disse:
"Você não ficou com raiva?"
"De quê?"
"De manhã, riram de você."
Rina pensou por um momento.
Riram. Era verdade.
Mas aquilo não fazia parte das condições para tratar.
"Não tem relação com a ferida."
Sol não respondeu.
Rina, caminhando, olhou para as próprias pontas dos dedos.
Ainda havia um leve rastro do cheiro do veneno.
Pensou que lavaria as mãos até aquele cheiro desaparecer.
Fim do Capítulo 4
Esta é uma obra de ficção. Personagens e eventos são fictícios.
