Imigração palestina no Brasil
A imigração palestina no Brasil refere-se ao estabelecimento de palestinos e seus descendentes no território brasileiro. Os principais fluxos migratórios ocorreram a partir da segunda metade do século XX, impulsionados pelos deslocamentos populacionais decorrentes da Guerra Árabe-Israelense de 1948, da Guerra dos Seis Dias de 1967 e de conflitos posteriores no Oriente Médio. Além da imigração espontânea, o Brasil recebeu grupos de refugiados palestinos por meio de programas de reassentamento humanitário coordenados em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
Não existem estatísticas oficiais sobre a população palestina no Brasil, uma vez que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não identifica especificamente essa origem étnica nos censos nacionais e muitos imigrantes ingressaram utilizando documentos emitidos por outros países, especialmente Jordânia e Israel.[1] Estimativas de pesquisadores e entidades representativas apontam para uma comunidade de 100 mil a 400 mil pessoas de ascendência palestina, concentrada principalmente nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo.[2][3]
Contexto histórico
[editar | editar código]A imigração palestina para o Brasil está inserida no contexto mais amplo da imigração árabe para a América Latina, iniciada no final do século XIX. Contudo, ao contrário de sírios e libaneses, a imigração palestina ocorreu em maior escala apenas a partir da segunda metade do século XX, sendo fortemente influenciada pelos sucessivos conflitos no Oriente Médio e pelos deslocamentos forçados da população palestina.

O marco inicial desse processo foi a Nakba (palavra em árabe para "catástrofe"), ocorrida em 1948 durante a Guerra Árabe-Israelense, quando cerca de 700 mil palestinos foram deslocados ou expulsos de suas cidades e aldeias após a criação do Estado de Israel.[4] Esse episódio deu origem à primeira grande diáspora palestina contemporânea, levando milhares de refugiados a buscarem abrigo em países árabes e, posteriormente, em diversas regiões da América Latina, incluindo o Brasil.[5]
Nas décadas seguintes, novas ondas migratórias ocorreram em consequência de outros conflitos, como a Guerra dos Seis Dias (1967), que resultou na ocupação israelense da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental; o Setembro Negro na Jordânia (1970–1971); a Guerra Civil Libanesa (1975–1990), incluindo o Massacre de Sabra e Chatila em 1982; a Primeira Intifada (1987–1993) e a Segunda Intifada (2000–2005). Esses acontecimentos ampliaram o número de refugiados palestinos e estimularam novas migrações para países da América do Sul.
Imigração palestina no Brasil
[editar | editar código]Os números exatos da imigração palestina são difíceis de determinar, pois muitos imigrantes chegaram ao Brasil utilizando documentos emitidos pela Jordânia, Israel ou outros países árabes, enquanto outros ingressaram como refugiados reconhecidos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). A inexistência de um Estado palestino plenamente reconhecido durante grande parte desse período dificultou a identificação estatística desses migrantes.
A partir dos anos 2000, a imigração palestina passou a ocorrer principalmente por razões humanitárias. Um marco importante da política migratória brasileira ocorreu em 2007, quando o Brasil tornou-se o primeiro país da América Latina a receber, por meio do Programa de Reassentamento Solidário, um grupo de 108 refugiados palestinos provenientes do campo de Ruweished, na Jordânia, onde viviam após deixarem o Iraque. O reassentamento foi realizado pelo governo brasileiro em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), sendo as famílias distribuídas principalmente entre os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul.[6] O grupo recebeu moradia temporária, aulas de português, assistência médica e apoio para inserção no mercado de trabalho. Esse reassentamento representou um marco por ser o primeiro grupo de refugiados de fora da América Latina acolhido pelo Programa de Reassentamento Solidário brasileiro, criado no âmbito do Plano de Ação do México de 2004.[7]
Desde 2023
[editar | editar código]Após o início da guerra entre Israel e o Hamas, em outubro de 2023, e da crise humanitária na Faixa de Gaza, o governo brasileiro realizou diversas operações de repatriação e concessão de vistos humanitários para brasileiros, seus familiares e palestinos com vínculos familiares no Brasil. O conflito também motivou novos pedidos de refúgio e residência humanitária, contribuindo para um novo fluxo migratório palestino ao país entre 2023 e 2026, embora em escala significativamente menor do que a observada em países vizinhos do Oriente Médio.
A partir de 2023, a guerra entre Israel e o Hamas provocou um novo fluxo de palestinos com vínculos familiares no Brasil. O governo brasileiro realizou a Operação Voltando em Paz, responsável pela retirada de brasileiros, palestinos residentes e seus familiares da Faixa de Gaza através do Egito, além da emissão de vistos e autorizações de residência por razões humanitárias para parte dessas famílias.[8]
Embora a imigração palestina permaneça numericamente inferior à de outras comunidades árabes, os palestino-brasileiros estão presentes em diversos setores da sociedade e mantêm instituições comunitárias, culturais e religiosas em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Foz do Iguaçu, Florianópolis e Brasília, preservando a identidade palestina ao mesmo tempo em que participam da vida econômica, política e cultural do país.
Um estudo publicado em 2024 estimou que a comunidade brasileiro-palestina seja composta por entre 190,5 mil e 411 mil pessoas.[9] A estimativa foi obtida por meio de projeção estatística, considerando que os descendentes de palestinos representariam entre 2% e 3% da população brasileira de origem árabe. Com base nessa metodologia, aplicada às estimativas de 9.527.125 e 13.699.149 pessoas de ascendência árabe no Brasil, o estudo chegou aos limites inferior e superior para a população de origem palestina. A média entre os dois cenários corresponde a uma população árabe estimada em 11.613.137 pessoas.
Entidades representativas e a FEPAL
[editar | editar código]A comunidade palestina no Brasil é composta por imigrantes palestinos e seus descendentes, organizados em diferentes entidades culturais, beneficentes, religiosas e de representação política, que atuam na preservação da identidade nacional palestina e na integração social no país. A atuação dessas instituições também se relaciona ao fortalecimento das relações entre o Brasil e a Palestina, bem como à defesa de direitos, à mobilização política e à realização de campanhas humanitárias voltadas aos territórios palestinos
A principal entidade de representação política e comunitária da diáspora palestina no país é a Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), fundada em 1979 e sediada na cidade de São Paulo.[10] A federação reúne dezenas de associações palestinas distribuídas por diferentes estados brasileiros e se dedica à defesa dos direitos da comunidade palestino‑brasileira, à promoção da cultura palestina e ao acompanhamento das relações diplomáticas entre Brasil e Palestina. Entre suas atividades, destacam‑se a organização de campanhas humanitárias, a promoção de eventos culturais, seminários, manifestações públicas e ações de solidariedade voltadas à população palestina e à diáspora.
Além da FEPAL, existem associações regionais e municipais em estados como Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, entre outros. Essas entidades desenvolvem atividades comunitárias, preservam tradições palestinas e oferecem apoio social e institucional a imigrantes recém‑chegados e às suas famílias, contribuindo para sua inserção econômica e social no Brasil.
Atividades culturais e preservação de identidade
[editar | editar código]As instituições comunitárias palestino‑brasileiras desempenham papel central na preservação da memória e do patrimônio cultural palestino no país. Entre as iniciativas mais frequentes, destacam‑se festivais gastronômicos, apresentações de música e de dança tradicional (como o dabke), exposições, cursos de língua árabe, palestras e ciclos de debates sobre a história da Palestina e da diáspora.[11] Essas atividades costumam incorporar a celebração de datas consideradas significativas para a comunidade, como o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, em 29 de novembro.[12]
A produção de pesquisas, publicações, exposições e eventos acadêmicos ou de divulgação histórica também integra a atuação dessas instituições, que buscam registrar a trajetória da imigração palestina no Brasil e evidenciar a participação da comunidade na vida econômica, social e cultural do país. Muitas organizações desenvolvem programas voltados às novas gerações, com ênfase na preservação da língua árabe, das tradições familiares e da identidade cultural entre descendentes de palestinos nascidos em território brasileiro.
Dimensão religiosa
[editar | editar código]No campo religioso, a comunidade palestino‑brasileira é composta tanto por cristãos quanto por muçulmanos. Os cristãos vinculam‑se principalmente a Igrejas Ortodoxas, à Igreja Católica Melquita e à Igreja Católica Romana, enquanto os muçulmanos frequentam mesquitas e centros islâmicos presentes em diversas cidades brasileiras. Em muitos casos, templos, paróquias e centros religiosos acumulam funções sociais, educacionais e assistenciais, oferecendo apoio à população migrante, promovendo atividades formativas e atuando na organização comunitária.
Esses espaços religiosos constituem, simultaneamente, locais de prática de fé, de sociabilidade étnica e de reprodução cultural, funcionando como pontos de encontro para a comunidade palestina e para outros segmentos da diáspora árabe no Brasil.
Ação humanitária e mobilização política
[editar | editar código]Desde a década de 2000, organizações palestino‑brasileiras intensificaram sua atuação em campanhas humanitárias voltadas aos territórios palestinos, com a arrecadação de recursos financeiros, medicamentos, alimentos e equipamentos médicos. Essas iniciativas são frequentemente realizadas em parceria com organizações da sociedade civil brasileira, entidades religiosas, coletivos de direitos humanos e organismos internacionais.
A partir de 2023, com o início da guerra entre Israel e o Hamas e a consequente deterioração da situação humanitária, especialmente na Faixa de Gaza, a mobilização de entidades palestino‑brasileiras foi significativamente ampliada. Diversas associações organizaram campanhas de arrecadação de ajuda humanitária, promoveram mobilizações públicas, debates acadêmicos e atividades informativas sobre o conflito, além de participar de iniciativas voltadas ao acolhimento de brasileiros repatriados e de palestinos com vínculos familiares no Brasil. Nesse contexto, intensificou‑se também a interlocução com órgãos do Estado brasileiro e com organismos internacionais em temas como assistência humanitária, políticas migratórias e proteção de refugiados.
Referências
- ↑ «Quase 3.000 israelenses e palestinos vivem de forma temporária, provisória ou permanente no Brasil». Noticias R7. 10 de outubro de 2023. Consultado em 13 de julho de 2026
- ↑ «Governo do Estado de São Paulo - Memorial do Imigrante». Cópia arquivada em 23 de março de 2009
- ↑ «Escobar on Palestinian Refugees in Brazil». Informed Comment (em inglês). 24 de setembro de 2007. Consultado em 7 de junho de 2023
- ↑ Jardim 2006, p. 172.
- ↑ Jardim 2006, p. 171.
- ↑ «Saiba mais sobre o Reassentamento de Palestinos no Brasil». ACNUR Brasil. Consultado em 13 de julho de 2026
- ↑ Geneva, UNHCR spokesperson Ron Redmond-to whom quoted text may be attributed – at today's press briefing at the Palais des Nations in. «Chile and Brazil to receive Palestinian refugees». UNHCR (em inglês). Consultado em 13 de julho de 2026
- ↑ «Operação "Voltando em Paz" – Relato do adido - Repatriação de brasileiros da Faixa de Gaza através do Egito, após o início da Guerra Israel X Hamas, em 2023». Blog do Exército Brasileiro. Consultado em 13 de julho de 2026
- ↑ «DADOS ESTATÍSTICOS PARA O TAMANHO DA POPULAÇÃO PALESTINA NO BRASIL» (PDF). Novembro, 2024
- ↑ www.ondaweb.com.br, Ondaweb-. «Sobre». FEPAL. Consultado em 13 de julho de 2026
- ↑ Alzoubi, Ahmad. «Representação e Preservação da Identidade Cultural da Diáspora Palestina no Brasil» (PDF)
- ↑ «Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino | As Nações Unidas no Brasil». brasil.un.org. Consultado em 13 de julho de 2026
Bibliografia
[editar | editar código]- Jardim, Denise Fagundes (2006). «Os imigrantes palestinos na América Latina». Estudos Avançados. 20 (57): 171-181