Mauro de Glanfeuil
| São Mauro | |
|---|---|
| Morte | século VI |
| Veneração por | Igreja Católica |
| Festa litúrgica | 15 de janeiro; 5 de outubro (com São Plácido) |
| Atribuições | muleta; balança; jovem rapaz levado por um monge, segurando a cruz de um abade uma pá de corte. |
| Padroeiro | aleijados; evocado contra o reumatismo, epilepsia, gota, rouquidão, resfriado; Açores; queimadores de carvão; sapateiros (que consertam sapatos); artesãos de cobre; fabricantes de sapatos |
São Mauro (em latim: Maurus; c. 512 – 584) foi um diácono e monge, tradicionalmente apresentado como o primeiro dos discípulos de São Bento de Núrsia a ser nomeado nos Diálogos de Gregório Magno[1]. A tradição medieval faz dele o fundador da abadia de Glanfeuil, em Maine-et-Loire, e o introdutor do monaquismo beneditino em França, mas essa tradição assenta numa única fonte, composta no século IX, cuja autenticidade foi contestada por vários historiadores[2]. A Congregação de São Mauro, reforma beneditina do século XVII, adotou o seu nome[3].
Vida
[editar | editar código]Origem e fontes
[editar | editar código]Os dados biográficos sobre Mauro são escassos e incertos: a Encyclopédie Larousse indica que, deste discípulo de Bento, não se sabe nada de certo, e atribui-lhe as datas aproximadas de c. 512 a 584[3]. Segundo a Catholic Encyclopedia, era filho de Equício, um nobre de Roma, embora outras localidades, como Fondi e Gallipoli, também reivindiquem a sua origem; terá sido o principal apoio de Bento em Subiaco[4].
A fonte mais antiga sobre Mauro é o livro II dos Diálogos de Gregório Magno, redigidos em 593–594, no qual o futuro santo surge como modelo de virtudes religiosas, em especial de obediência[4][5].
O resgate de Plácido
[editar | editar código]No capítulo 7 do livro II dos Diálogos, Gregório conta que Bento, tendo tido uma visão de Plácido a afogar-se, enviou Mauro em seu socorro; Mauro caminhou sobre as águas e trouxe Plácido de volta à margem[5]. O episódio foi reproduzido em muitas pinturas, entre as quais um fresco de Sodoma, executado entre 1505 e 1510 no claustro da abadia de Monte Oliveto Maggiore[5].
A Vida de São Mauro e a fundação de Glanfeuil
[editar | editar código]Segundo a Vida de São Mauro (Vita Mauri), Mauro partiu para a Gália em 543 e fundou a abadia de Glanfeuil, de que foi superior[4]. De acordo com este relato, o bispo de Le Mans enviou uma delegação solicitando a São Bento que um grupo de monges partisse de Monte Cassino para estabelecer vida monástica na França, de acordo com a Regra de São Bento. A Vida narra a longa viagem de Mauro e dos seus companheiros da Itália até à França, acompanhada de aventuras e milagres.
Esta tradição tem uma única origem. Numa comunicação apresentada à Société de l'École des chartes em 27 de fevereiro de 1896, A. Giry observou que a Vida teria sido descoberta, a meados do século IX, por um abade de Glanfeuil chamado Odão (Eudes), que admite tê-la reescrito; o autor primitivo diz chamar-se Fausto e apresenta-se como discípulo e companheiro de Mauro[2]. Odão ingressou em Glanfeuil o mais tardar em 856, tornou-se abade em 861 e publicou em 864 uma Vida de São Mauro que dizia ser a revisão de uma obra de Fausto de Monte Cassino; por ser muito anacrónica, considera-se geralmente que foi composta pelo próprio Odão, embora Jean Mabillon e alguns autores modernos a atribuam a Fausto[6]. Hippolyte Delehaye qualificou-a de falsificação de Odão, ao passo que Adlhoch fez dela uma defesa[4].
As relíquias
[editar | editar código]Nos Miracula S. Mauri, Odão narra que fugiu com as relíquias de Mauro perante os normandos em 862 e que estas foram transferidas, em 868, para o mosteiro de Saint-Maur-des-Fossés, perto de Paris, de que Odão se tornou também abade nesse ano[6]. A Vida e o livro dos milagres, produzidos em Glanfeuil, que reivindicava Mauro como fundador, difundiram a devoção ao santo por toda a França e além[1].
Abadia de Glanfeuil
[editar | editar código]A abadia de Glanfeuil, também chamada Saint-Maur-sur-Loire, situava-se no atual município de Le Thoureil, em Maine-et-Loire. O local está ocupado desde a época galo-romana; a abadia foi gravemente danificada pelos normandos, pela Guerra dos Cem Anos e pelos huguenotes de Saumur, e foi reconstruída entre 1680 e 1685 pelos mauristas[7]. Da antiga igreja abacial subsiste apenas um frontão encimado por uma cruz, classificado como monumento histórico por decreto de 21 de junho de 1958[7].
Culto e iconografia
[editar | editar código]A festa litúrgica de Mauro é celebrada em 15 de janeiro[4]. São Mauro e São Plácido são venerados juntos em 5 de outubro.[8]
É representado como abade com báculo, com livro e turíbulo, ou segurando os pesos e medidas de comida e bebida que lhe foram dados pelo seu mestre; é padroeiro dos carvoeiros e dos caldeireiros, na Bélgica dos sapateiros, e invocado contra a gota e a rouquidão[4]. Um rito de bênção dos doentes com invocação de São Mauro, o Signum S. Mauri, figura em apêndice do Rituale Romanum[4].
Em artes, muitas vezes retratado como um jovem levado por um monge, normalmente carregando uma cruz monástica ou uma pá de corte (em alusão ao mosteiro de Saint-Maur-des-Fossés, literalmente, "São Mauro das Valas").
Referências
[editar | editar código]Referências
- 1 2 «La Vie et les Miracles de saint Maur». Abbaye Saint-Pierre de Solesmes. Consultado em 2 de outubro de 2026
- 1 2 «La Vie de saint Maur du Pseudo-Faustus». Bibliothèque de l'École des chartes, tomo 57, 1896, pp. 149–152. Consultado em 2 de outubro de 2026
- 1 2 «saint Maur». Encyclopédie Larousse. Consultado em 2 de outubro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 Francis Mershman. «St. Maurus». The Catholic Encyclopedia, vol. 10, Nova Iorque, Robert Appleton Company, 1911. Consultado em 2 de outubro de 2026
- 1 2 3 «Saint Maur sauve saint Placide en marchant sur les eaux (Monte Oliveto, Vie de saint Benoît) – Le Sodoma». Utpictura18, Aix-Marseille Université. Consultado em 2 de outubro de 2026
- 1 2 Michael Ott. «Odo of Glanfeuil». The Catholic Encyclopedia, vol. 11, Nova Iorque, Robert Appleton Company, 1911. Consultado em 2 de outubro de 2026
- 1 2 «Ancienne abbaye bénédictine Saint-Maur de Glanfeuil». Plateforme Ouverte du Patrimoine (POP), Ministério da Cultura de França, base Mérimée, PA00109372. Consultado em 2 de outubro de 2026
- ↑ Martyrologium Romanum (Libreria Editrice Vaticana 2001 ISBN 88-209-7210-7)
Bibliografia
[editar | editar código]- Rosa Giorgi; Stefano Zuffi (ed.), Saints in Art (Los Angeles: Getty Publications, 2003), 272.
- John B. Wickstrom: "Text and Image in the Making of a Holy Man: An Illustrated Life of Saint Maurus of Glanfeuil (MS Vat. Lat. 1202), Studies in Iconography 14(1994), 53-85.
