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Silent Hill 2 é um ótimo jogo, com um enredo profundo, puzzles inteligentes, mas que falha em preservar a identidade visual do Silent Hill 2 original. Não é que ele não recrie o jogo original com maestria; pelo contrário. Na verdade, tive a sensação de que a adoção de uma direção de câmera mais moderna, somada às mudanças na direção de arte, acabou diluindo parte da identidade do original, que criava uma atmosfera muito singular. Ainda assim, Silent Hill 2 melhora significativamente no voice acting da sua versão original e acrescenta conteúdos relevantes, que são pontos muito importantes quando falamos de um jogo em que a narrativa é o prato principal.
Vale mencionar que eu não costumo jogar jogos de terror. Meu interesse em Silent Hill se deu principalmente por seu enredo, então minha análise parte mais desse aspecto do que de comparações com outros jogos desse gênero. Por isso, acho válido começar falando do maior ponto forte do jogo: sua história. O jogo conta a história de James Sunderland, que recebe uma carta de sua falecida esposa, Mary. Na carta, Mary diz estar esperando James em Silent Hill, uma cidade onde criaram muitas memórias juntos. James, apesar de receoso, decide voltar à cidade em busca de respostas. A partir daí, James encontra Angela e Eddie, mas a trama se desenvolve com o protagonista explorando a cidade sozinho, na maior parte do tempo.
Durante a gameplay, James relembra memórias, encontra cartas, notas e itens que ajudam o jogador a descobrir o que de fato está acontecendo. O jogo tem uma narrativa bem lenta, escondida dentro do próprio loop de gameplay. Você vai a algum lugar e encontra pistas sobre o que está acontecendo na história. Lá você mata monstros, resolve puzzles, e o jogo continua assim até o final. Eu acho que o que me deixou um pouco insatisfeito foi que o jogo dificilmente dá pistas suficientes para que o jogador chegue perto de formular uma hipótese correta em relação à história, então, mesmo relendo todas as notas, vendo as fotos e analisando os objetos, eu não acredito que esses elementos sejam suficientes para que o jogador formule hipóteses consistentes. Muitos podem pensar que um final imprevisível pode soar interessante, mas não quando o jogo não alimenta a sua vontade de entender o que está acontecendo com fatos concretos. Um bom final não soa bem só porque você não esperava, mas porque você não esperava, mesmo tendo fatos concretos que te permitiriam tentar “prever” a história. Por outro lado, essa escolha acaba funcionando muito bem quando pensamos na estrutura do jogo como uma coisa só. Como alguns finais são exclusivos do New Game Plus, a segunda jogatina funciona bem, já que você revisita a história sob uma nova perspectiva.
Outro aspecto que merece destaque é o elenco, que é muito bom, os atores são muito convincentes nos papéis, com destaque para o Luke Roberts como James, que é absurdamente crível, ele consegue transmitir muito bem os sentimentos do personagem. James muitas vezes reage de forma muito lógica e orgânica, ele faz as perguntas que o jogador faria e em muitos momentos senti que estava descobrindo o que estava acontecendo junto com ele, fazendo perguntas naturais e reagindo às situações da forma que eu imagino que uma pessoa comum reagiria e num jogo que envolve o sobrenatural/monstros como Silent Hill isso é essencial porque torna o personagem muito mais verossímil, aumenta o envolvimento com a história e deixa a experiência mais imersiva.
Acho que parte dessa perda de identidade que mencionei na introdução também está nas mudanças feitas nos personagens, algumas positivas e outras negativas. Em alguns casos, essas mudanças aproximam mais o jogador dos personagens e em outros, acabam diminuindo parte do simbolismo presente no jogo original. Angela, por exemplo, tem um design que reflete menos seu estado psicológico, talvez um pouco mais “humano”, o que considero uma perda. Aqui o design dela parece refletir muito bem a vítima que ela é, mas não as consequências de ser uma vítima, a loucura. Esse padrão se repete em boa parte do remake: os personagens se tornam mais fáceis de compreender e de se identificar, mas perdem parte do simbolismo que caracterizava o original. James é uma das mudanças mais impactantes. No original, James é frio enquanto no remake ele parece ter mais interesse nos objetivos e tem interações bem mais orgânicas. Considero uma mudança positiva. É muito mais fácil se identificar com a história dele quando ele não age daquela forma aérea como no original e acredito que quem conheceu pelo remake tenda a ter mais empatia com o lado dele da história. Mas existe um preço nessa mudança. A personalidade mais humana do remake facilita a identificação com James durante toda a campanha, mas também faz com que alguns aspectos de sua caracterização pareçam um pouco menos críveis quando observados sob a luz do final. Sinceramente, acredito que isso seja um trade-off narrativo justo, pq a história fica muito mais convincente no início. Além disso, em relação à estética, seu rosto fica mais fino, a mudança é pequena, não entendo o porquê da alteração, meio desnecessária. Maria, por sua vez, sofre várias mudanças no visual, fica menos pálida, seu rosto muda de formato, fica com outras roupas e transmite menos mistério que o original. Sempre associei sua palidez à própria névoa branca de Silent Hill, então nunca entendi por que isso foi alterado. A nova interpretação também contribui para essa mudança. Enquanto a atriz original dava às falas da personagem um tom mais ambíguo e indecifrável, a nova simplesmente age de forma natural e só parece misteriosa por conta do enredo. Em relação a Eddie também considero um acerto. Aqui ele está mais nojento, feio e passa uma sensação maior de impulsividade, reforçada pela nova dublagem de Scott Haining.
A gameplay adota a estrutura comum dos jogos de terror e existe para servir à narrativa. Os inimigos ficam posicionados em lugares escondidos para te pegar desprevenido, você tem que esquivar na hora certa para evitar tomar dano, o jogo faz um bom trabalho em geral em te deixar assustado usando os efeitos do rádio e a trilha sonora, que é espetacular, quase te punindo por explorar demais as áreas. A dificuldade do jogo é um pouco mal calibrada, no padrão você junta recursos demais, principalmente do meio do jogo para frente, no difícil eu senti que era um pouco mais difícil do que eu esperava, mas não é impossível. Isso faz com que boa parte da tensão desapareça no modo normal. Os puzzles são muito criativos, principalmente os que incluem as charadas, realmente dão aquela sensação de “nossa era isso!” apesar de que muitas vezes eles não tomam muito tempo mesmo na maior dificuldade. Além disso, algumas vezes acabei acertando só testando hipóteses, acho que as respostas não poderiam ser fáceis de supor. Mesmo com todos esses detalhes, a gameplay funciona bem pra te conduzir pela história.
Apesar das críticas, terminei Silent Hill 2 satisfeito. Mesmo com as mudanças nos personagens, diria que num geral elas foram bem mais positivas do que negativas. Agora, não acho que ele substitua o original, consideraria o remake uma das formas de jogar Silent Hill 2, não diria que ele é melhor nem pior porque nesse caso fica numa linha muito tênue, o clássico preserva melhor o simbolismo, o mistério e sua identidade única e o remake preserva a força da narrativa e a torna mais acessível por meio de atuações mais naturais e convincentes. Acho que parte disso vem porque modernizar um clássico exige mudanças, e essas mudanças exigem pequenos sacrifícios que diluem elementos do original. A gameplay tem seus erros e acertos, mas mesmo com essas perdas, os acertos superam os problemas. Modernizar um clássico significa abrir mão de alguma coisa. Silent Hill 2 abre mão de parte do simbolismo e da estranheza do original para ganhar naturalidade e acessibilidade. No fim acredito que ele oferece uma interpretação diferente da mesma história. 8.5/10
Comments
Apr 30, 2023 @ 3:11pm 
signed :steamthis:
Apr 20, 2023 @ 12:28pm 
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