os livros o carpete a pilha de livros no chão a estante abarrotada de livros o espaço sem lugar para respiro o pó dos livros eu me fazia lúcida em meio à fumaça de cigarro que se misturava com a poeira a poluição do centro da cidade ao meio dia a longa espera e eu olhava para o teu rosto com uma pergunta insolúvel que mal sabia formular os teus olhos perdidos na neblina (não sei se eram teus olhos que eu buscava tampouco sei se era você) teus olhos estavam voltados para dentro em uma acrobacia nunca vista havia também os óculos e o suor havia os rasgos do teu rosto as rugas alguma ferida havia alguma ferida mal cicatrizada essas marcas o pó a brisa acinzentada que tingia os vidros o mofo nas páginas dos livros tanta coisa preenchia o espaço entre a minha pele e a tua (e eu nem sabia se eram teus olhos ou algo que estava por trás deles por trás da acrobacia que teus olhos faziam) tanta coisa prendia nossa respiração que eu devia me fazer lúcida e aguardar um banco a vontade de ir ao banheiro o café morno da garrafa o cenário de uma vida em que os livros envelhecem antes dos corpos eu não podia lamentar minha presença nem a dos papéis craft enrolados a coleção de papéis com as pontas amassadas os arquivos de metal era preciso ter algo por onde passear os olhos os meus olhos (não sei se eram os teus que eu buscava ou se buscava fugir) passear os olhos no cartaz de uma peça da década de setenta o pôster de uma tourada espanhola o cardápio de um restaurante italiano em um vilarejo medieval como fugir destes monumentos mínimos de uma vida qual seria esta espera teus olhos voltados para trás da cabeça e a minha pergunta reverberando entre as paredes entre o mofo das paredes a minha pergunta grudada na umidade quente e abafada de um meio dia no centro da cidade a minha pergunta que não chegava até você que não chegava em teus olhos voltados para dentro que não alcançava a acrobacia dos teus olhos e ficava pregada na fuligem dos ônibus nos ruídos que se misturavam com as palavras com as nossas palavras nossas vozes que eram só fumaça e confusão algum pequeno fio que nos mantivesse ali que nos prendesse mesmo que momentaneamente entre aquelas estantes abarrotadas de livros caixas papelões objetos de acrílico de madeira jogos que já nem se fabricam mais (e eu nem sei se era você que estava ali por trás da minha respiração)
(2)
a imagem no aparador é mera alucinação um meio nariz mal delineado a quarta parte de um olho o queixo um pedaço de gola a sombra de um tronco infantil seria uma lembrança não fosse o fato de não me reconhecer nestas unhas que saem de dedos compridos no modo de cruzar as pernas curvar o corpo inclinar o pescoço para a esquerda para a direita piscar nervosamente a quarta parte de um olho negro cravado numa pele transparente seria mera alucinação? uma das mãos se mantém fechada enquanto seguro o guarda-chuva e procuro dentre os pedaços dispersos o outro braço que alcançaria a maçaneta da porta a meu lado
(3)
dos fios desta separação, abre-se uma porta discreta, pequena quase imperceptível economizar uma ou outra palavra não faz diferença são fios longos um emaranhado de ondas e feixes de luz não faz grande diferença a geografia das frases falamos articulando tons e gestos apenas nada transcorre de fato nas frases nada nas palavras ou no entre-sílabas mas fios um emaranhado que às vezes transparece às vezes some um calar de expressões e olhares a boca entreaberta um fechar de pálpebras ao alcance das mãos a maçaneta a porta uma pequena porta que às vezes transparece às vezes some nesse longo emaranhado de fios em que se buscam e se perdem nossas vozes nossos vãos fios e uma longa separação a porta entreaberta já não posso me conter as curvas transparecem em meus dedos a curvatura da maçaneta e a porta tão pequena, ao fundo a porta que se abre a porta e a passagem para fora
(mini-currículo) Annita Costa Malufe (1975) é autora do livro de poemas Fundos para dias de chuva (7Letras, 2004) e do ensaio Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (Annablume, 2006). Atualmente conclui o doutorado na Unicamp sobre poesia contemporânea brasileira.
(poética) “Sem algo que force a pensar, sem algo que violente o pensamento, este nada significa. Mais importante do que o pensamento é o que ‘dá a pensar’; mais importante do que o filósofo é o poeta”. Minha poética é uma mistura da constatação de que “o essencial está fora do pensamento, naquilo que força a pensar” (roubando as palavras de Deleuze) e da idéia do Roberto Piva: Tudo o que chamo de literatura é meu esforço em fugir da civilização de vocês.
a essa altura teu cansaço parece bem maior e, com muita sorte - minha -,
você diz, educada, que tudo anda em ordem apesar dos machucados de o mundo... a pesar.
já fora do restaurante imagino teu silêncio dividido entre guarnições & talheres frios
o mundo mastigado ~ amargo sem criatividade no jogo de temperos
cruzo a rua; o ônibus bufa num duro arquejo de trégua :
tudo está em ordem, eu digo.
um próximo cigarro
urgente.
Vin
a montanha do tai shan domina a planície do rio amarelo
[ e, por isso, aqui estamos onde nenhuma montanha nos espera
pacíficos, caminhando enquanto - teu e meu - pensamentos esbarram num jogo de pouco amor, como bruxos movidos por tolas adivinhas
a linha do equador é invisível porque o equinócio a derreteu
[ tanta coisa você me explica numa paciente precisão de gestos plúvios - incansáveis - até o último minuto
e todas as mortes são bem-vindas
[por pouco capricho de meias palavras e parco brilho emaranhado do corpo - já gasto -, só há o que dizer esta imagem plantada e crescida, viciada em tintas que teus cabelos se nutrem numa renovação de sóis (oxigênio) por mera vergonha em deixar que se dispam alvos, a começar pelas raízes
mas tal tempo não desmantela o convicto-amor-cansado-nobre-amor
a montanha do tai shan domina a planície
[ caminhamos devagar, sossegados, longe de qualquer sono
Na Serra
/chove/
gotas
simulam estrelas
no vidro da
janela ,
borrão de paisagem.
lareira
cobertor
toda
a paciência do mundo
esgotada num
maço
de cigarros.
não há noite
mais fria
que
esta
bio/biblio
Eli Castro nasceu em Fortaleza, 1979. O autor é inédito em livro e, por enquanto, pretende perpetuar essa teimosa dignidade de escrever e não-publicar (se assim for possível entender). Além de lecionar, Eli Castro fotografa de vez em quando e, quase sempre, vai ao estádio torcer pelo time do coração, o Leão (é claro!). Desde 2004 vive com a Mel e o João, uma tarefa árdua, contudo, prazerosa.
poética
Procuro, quando escrevo, o melhor de minha humanidade. É como se me fosse dada a oportunidade de enxergar-me pelo avesso, pelo meu inédito, por aquilo que me faz página em branco; ou seja: um terreno onde se possa macular idéias e adulterar óbvios; no intuito, simples, de dignidade particular, sem vaidades ou falsas modéstias. Muitas vezes, desejo esse contato sempre, mas, como foi dito, tudo é uma questão de oportunidade, de relance, de átimo. E, por isso, inédito, disperso e, por que não, profano.
a mão alisa a folha a ponta e preme o dedo a fibra que não se refaz
o vinco é a memória da folha como um grito que poderia ser mas não sai
quadro 3 : busca
busca no fragmento da palavra na sílaba calada um
ruído, silvo ou cicio que sirva aos sentidos
suspensas no quadro-negro apagado, escritas a giz, palavras vício do ouvido cicatriz
quadro 4 : substância
líquido num copo escultura moldada pelo espaço de um corpo
como uma certeza, o nome escrito,
não como um livro
mas a frágil existência de um corpo suspenso no abismo
*
no baque do piso estala vítrea palavra de um idioma desconhecido
quadro 5 : separados
fio da lâmina cinde silenciosamente a pele
carícia de aço afago da despedida
separados tecidos
lancinante o nunca mais (uma cicatriz) como único asilo
quadro 6 : bilhetes
calça lavada contra a pele perfume de água
(nunca ter visto esta árvore renova a paisagem e os sentidos)
papéis macerados encontrados no bolso
bilhetes a ninguém recados ilegíveis
(alamedas passos ao acaso num bairro desconhecido)
quadro 7 : esquina
foi neste banco ou naquele este verde está mais frio escuro
perdeu-se na memória copa de uma árvore
o que foi aquele gesto
um pássaro pardo entre galhos
o que sobrou ficou de tudo
dos anos meses
do rosto um oco
um vulto que dobrou a esquina
(Estes poemas foram anteriormente publicados na revista Cacto, com exceção de quadro 7 : esquina. Recentemente foram reunidos em edição caseira)
BIO/BIBLIO
Nascido em Mauá (SP) em 1970, reside em Santo André. É autor do livro de poesia Sombras em Relevo (Alpharrabio, 1998). Atualmente trabalha no serviço público. Mas isso não o possibilita escrever como Drummond. Foi poeta exclusivo da revista Cacto. Pensa que é o Mano Brown.
POÉTICA
Para avisar a finta enfim Quando não é Sim No contrapé (O futebol - Chico Burque)
Sempre pensei a poesia como um drible em nossa expectativa.
Acorrentado ao tronco do sistema, revivo senzalas inteiras entre as paredes brancas desta casa grande. Com as costas já em carne viva, e moscas à minha volta, entre uma e outra chibatada todavia, me aprofundo alforriado, pensamento a dentro, à zona do baixo meretrício, na rua sotero dos reis. E como o cristo de joãozinho trinta, coberto por sacos de lixo: latino americano me apresento. Laroiê.
2. o claudicante
eu sou a parte de alguém que caminha as pernas tortas de pensarem tanto e tanto são pernas minhas sobre as quais eu me levanto que eu sou a via, toda via minha
eu sou o rastro de mim mesmo, triste o claudicante que caminha e nunca dorme os pés cansados como os pés de quem persiste o microcosmo de um pedestre enorme
eu sou o todo esfacelado em muita gente e todo o mundo em mim refigurado é claudicante e o meu olhar, meio doente
passei as horas desta tarde ensimesmado e meio triste e meio indiferente fiz de propósito um soneto todo errado
3. reflexões sobre aline filha de iemanjá no regresso do inferno-de-mim eu sou o cavalo-dos-dias virado em caboclos-de-agora regresso do inferno-de-mim
e ao toque do queto segundo as pancadas do hun entre atabaques varo inteira a madrugada a compreender a inexistência da manhã
se for terra de chuva: saluba, nanã[!] buruquê e antre mim mesmo e mim, onde a barra é pesada suposto filho d’obaluaiê sou alguém que as imagens perscruta e o corpo deseja de uma filha, tatuada e prostituta,
por quem iemanjá lacrimeja
In: MATOS, Mauricio. Aquém das retinas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.
breve nota bio/bibliográfica Mauricio Matos (Rio de Janeiro, 1973) é Doutor em Letras / Literatura Portuguesa (PUC-Rio). Foi Professor Substituto de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da UFRJ (2004-2005). Publicou o conto “Lençol em curva” na antologia Donos da bola (org. Eduardo Coelho). Rio de Janeiro: Língua Geral, 2006 e o livro de poemas Aquém das retinas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006. É pesquisador de Pós-Doutorado na UFRJ, pelo CNPq (2006-2007).
poética: Lamento informar, mas o leitor está morto.
Caixa preta furo preto parecia experiência de colégio algo como “a lâmpada acende se amarrar os fios” ou “o feijão nasce no algodão” parei ao escutar a vibração das experiências sonoras contidas em oito caixotes de dois metros de alto-falantes em círculo claustrofóbico convidando a mexer as partes do corpo que melhor estalam e continuam a estalar cada vez mais baixo no infinito pretume
ruído ruído a mandíbula a língua o dente a garganta a glote a direção do vento o lábio superior e inferior assobio você
do corredor o círculo preto de dois metros falantes ocupam seu espaço ao chão octogonal corrompem a visão o corpo estica-se ao encontro gigante postura em vale árido duas caixas se distanciam de acordo sugerindo passagem ao corpo
o alongamento de vértebras conversam.
Ao som do vinil
“Não acredito que te perdi” cochichou perdendo a faixa da música que deveria colocar para as pessoas não escutarem o que gritava tentando cochichar ao ouvido da garota que se despedia e que pensou escutar “não acredito que te perdi” mas não pediu para ele repetir pois já tinha ouvido o ruído da faixa terminando e ele afastando-se para posicionar a agulha em qualquer outro círculo e assim ninguém reparar na garota que ali permanecia na tentativa de ir embora.
NESTE DIA REPLETO DE GIRINOS e dez minutos de ócio penso no que sou e o que serei em cinco anos não há vácuo nos intervalos da história mas a continuidade é incompleta olho o muro de pedras o futuro é ali e perfura meus gestos conto as histórias no espelho e aguardo as manhãs lentas o vagar dos dedos na xícara de qualquer coisa quente ou nos cabelos dos meninos.
Valeska de Aguirre é carioca e nasceu em 1973. Publicou o mini-livro Ela disse, Ele disse, pela Moby Dick.