Foi curioso ver este filme na única sala de cinema que aceitou exibir o documentário sobre Jair Bolsonaro e que fica num bairro de maior tradição de direita e depois de extrema direita em Fortaleza, o bairro da Aldeota. Vi o filme também dias após a vitória de Lula nas eleições e depois de vencermos um monte de gigantes, entre eles a Meta, do bilionário Mark Zuckerberg, aqui vivido por Jeremy Strong, ator que havia brilhado na biografia de Donald Trump, O APRENDIZ, como o guru do atual presidente dos Estados Unidos. No papel de Zuckerberg, ele se apresenta bem mais vilanesco que Jesse Eisenberg, que interpretou sua persona mais jovem em A REDE SOCIAL (2010), de David Fincher.
O roteirista do filme de Fincher, Aaron Sorkin, inclusive, é quem assume a direção deste O OUTRO LADO DAS REDES (2026), que foca mais nas investigações de jornalistas e até de gente de dentro da Facebook nos anos de 2019 a 2021 sobre os danos mentais e sociais que a rede e suas afiliadas, a maior delas o Instagram, trazem aos usuários. Por mais que Sorkin esteja bem distante do talento na direção de Fincher, o forte dele é o roteiro, e é nele que o roteirista e eventual diretor se apoia, assim como nos ótimos atores. Sorkin já foi indicado quatro vezes ao Oscar de roteirista, tendo ganhado uma vez por A REDE SOCIAL e tendo um filme dirigido por ele indicado ao Oscar na categoria principal, OS 7 DE CHICAGO (2020).
Em O OUTRO LADO DAS REDES, Mikey Madison (ANORA) está ótima como uma engenheira do Facebook que fica impressionada ao ver um vídeo viralizado nas redes de uma amiga sua do passado, uma amiga de tendências progressistas e que se mostra assustadoramente no vídeo como uma pessoa histérica e agindo violentamente e de maneira racista com dois policiais rodoviários negros. Ela se pergunta o que fez essa mulher (Portia Doubleday, de MR. ROBOT) ter se tornado alguém com perfil claro de uma pessoa de extrema direita contaminada pelas redes.
Do outro lado da trama temos o jornalista vivido por Jeremy Allen White (O URSO) como alguém que não tem conta no Facebook e nem sabe usar um GPS, mas que se mostra muito preocupado com a queda de qualidade do jornalismo depois da queda da mídia impressa. O encontro às escondidas dos dois protagonistas dá ao filme um ar de TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE, de Alan J. Pakula, e nos faz sentir pertencentes a um outro momento histórico, que desta vez se apresenta com natureza de importância global.
Embora o ritmo do filme se torne um pouco engessado lá pelo meio, O OUTRO LADO DAS REDES mantém o interesse até o fim e talvez seja o melhor dos quatro títulos dirigidos por Sorkin. A narrativa de idas e voltas no tempo funciona quase sempre bem e todas as cenas que trazem Mikey Madison e Jeremy Allen White juntos são boas. Há um ar de thriller de conspiração setentista, mas com uma maior rapidez na condução narrativa.
+ TRÊS FILMES
O DIABO VESTE PRADA 2 (The Devil Wears Prada 2)
Tenho uma relação de certa antipatia com o mundo da moda. Não a moda no sentido mais amplo, mas essa moda ditada pelo capitalismo, por essas marcas milionárias que fazem questão de se destacarem como exclusividade da elite financeira global, dessa moda que forma mais seres humanos superficiais do que dotados de conhecimento sobre a beleza, que têm o intuito de separar os ricos dos pobres. Porém, sei o quanto sou leigo no assunto, e por isso tento entender o fenômeno de filmes como esse. Só os primeiros três dias da franquia já ultrapassaram a bilheteria do original de 2006, e acho que não é só uma questão de nostalgia ou apego aos personagens, embora exista, sim, esse elemento. Na sessão de O DIABO VESTE PRADA 2 (2026|) em que estivemos, a sala estava lotada e o público estava calado, respeitador, atento. Mas havia algo também no ar, que incomodava: esse silêncio também se devia a uma história anódina, a caminhos pouco inteligentes do enredo, para usar de eufemismo, a momentos de humor que não funcionaram. A própria reconstrução de Andy, a jornalista vivida por Anne Hathaway, parece trair o que a personagem acreditava, embora dinheiro seja algo que faça a pessoa pensar duas vezes antes de aceitar um emprego. Mas lembremos o quanto Andy era alguém pouco sintonizada com esse mundo da alta costura, e agora dá de presente para a amiga uma bolsa da Valentino. Talvez tenham escolhido um par romântico totalmente feio e desinteressante para ela para desligar um pouco do glamour, mas do jeito que fizeram foi algo quase inaceitável. Química zero. Quanto a sua relação com Miranda (Meryl Streep), parece um repeteco do primeiro filme, ainda que vejamos com mais frequência uma chefona mais fragilizada pela mudança de rumos do mercado corporativo. E talvez isso seja o melhor do filme, além da sempre simpática persona de Stanley Tucci. Já Emily Blunt acaba representando uma figura próxima a um Judas, um Brutus, mas que o filme tenta, mesmo assim, talvez para dar um viés mais suave, não julgá-la tanto quanto podia. Um acerto, talvez.
A DOCE COSTA LESTE (The Sweet East)
Uma espécie de Alice no País das Maravilhas ambientado nos tempos contemporâneos de novo avanço da extrema direita, este A DOCE COSTA LESTE (2023) deve muito de sua força ao carisma da jovem Talia Ryder, de NUNCA, RARAMENTE, ÀS VEZES, SEMPRE. Aliás, eu diria que este é o verdadeiro cartão de visitas da atriz, já que ela está o tempo todo em cena e se apresenta tão magnética quanto sedutora. O filme brinca com gêneros ao longo da trajetória da jovem heroína, que, desconfortável com uma viagem com os amigos do namorado, acaba saindo do lugar e conhecendo um grupo de antifas radicais, para depois ser recebida por um neonazista. O tom surrealista se intensifica com a fotografia “estourada”, originalmente filmada em 16 mm, e gerando uns grãos bonitos. A cena do ataque no set de filmagens me pegou de surpresa e intensifica o ritmo na mesma medida que torna a protagonista mais rica e ousada.
NOSSO SEGREDO
Vendo NOSSO SEGREDO (2026), estreia em longa-metragem de Grace Passô, lembrei-me com frequência de um dos filmes de horror mais interessantes e subestimados do ano passado, A MULHEER NO JARDIM, de Jaume Collet-Serra, que trata de uma família negra vivendo o luto, mas também trata de depressão, num registro psicologicamente bem pesado. É possível estabelecer paralelos entre os dois filmes, mas claramente Passô tem uma intenção menor e mais sutil (ou tardia dentro da trama) do uso do horror. No entanto, é possível sentir a inquietude e o mal-estar daquela família, que parece não estar sabendo lidar muito bem com a perda recente do pai. São vários personagens e nem todos recebem o mesmo peso, a mesma força. Quem acaba ganhando algo mais próximo de um protagonismo é a criança, que parece estar arrumando uma desculpa para não ir para a escola e ficar em casa. Baseado num peça de sua autoria, Passô revisita um texto antigo e transforma em cinema o que antes era pensado para os palcos. Não dá para dizer que falhou, embora não simpatize tanto com a conclusão. O filme tem uma atmosfera de peso no ar crescente no ar, acentuada pela trilha sonora de Amaro Freitas. Filme visto em sessão lotada com a presença da diretora no Cinema do Dragão para conversar com a plateia.





