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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A BRUXA (2015)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: The VVitch: A New-Englad Folktale
Realização: Robert Eggers
Principais Actores: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Wahab Chaudhry, Julian Richings, Sarah Stephens  

Crítica:

When I sleep, my spirit slips away from my body...

UM CONTO SATÂNICO

... and dances naked with The Devil.

Algumas extraordinárias e insólitas composições musicais, quando perfeitamente aliadas às mais enigmáticas motion pictures, têm o dom e o poder de tocar o divino. É o caso, por exemplo, dos coros atonais de Ligeti, que imortalizaram o aparecimento do monólito aos primeiros Homens, na obra-prima de Kubrick 2001: Odisseia no Espaço. É o caso, também, da ensurdecedora confusão de cordas e percussões - proposta por Jonny Greenwood - para marcar a explosão do poço de petróleo na numa das mais emblemáticas cenas de Haverá Sangue, de P. T. Anderson. Num caso como no outro, a música impõe - ao filme e ao espectador - estranheza, incómodo e até algum mal-estar. Neste arrepiante A Bruxa, Mark Coven, o compositor, parece ter aprendido com os melhores. Neles bebeu, claramente, inspiração. Caleb's Seduction, por exemplo, imita o Requiem de Ligeti e todos os seus efeitos perturbantes e repulsivos, conduzindo o silêncio do suspense aos mais periclitantes picos da adrenalina e do terror. Na realização, o estreante Robert Eggers nunca atinge, é certo, a dimensão visionária de qualquer um dos realizadores atrás mencionados. Não obstante, concretiza um sólido e por demais virtuoso trabalho de contenção, potenciando o terror psicológico como poucos e causando, certamente, alguns suores frios. A Bruxa poderá nunca atingir o divino, mas jamais terá sido esse o objectivo. A Bruxa é obra do diabo!

Este será sempre um filme de autor: Eggers assina também o argumento. E se há palavra que o caracteriza, tanto na arte de escrever como na arte de filmar, é economia. Poucas vezes estaremos perante um filme tão económico - não há um diálogo a mais, uma palavra a menos, não há uma cena a mais ou um shot a menos. Tudo, nesta belíssima obra, se reduz ao essencial. Cada imagem ou cada som tem a sua carga significante. Mas A Bruxa é também um filme de significados ocultos, de símbolos atrás de símbolos cuja interpretação - e muitas vezes ambiguidade - enriquecerá o sentido da história, permitindo decifrá-la.

New England, na obscura década de 30 do século XVII. O âmago da história é uma família de sete elementos - imigrante, pobre e profundamente religiosa e supersticiosa - cuja devota e doentia existência se resume tão-somente à Bíblia, como se respirassem o evangelho de manhã à noite e o seu pão na mesa fosse a palavra sagrada e a sua literal interpretação. Expulsos pela própria Igreja da comunidade e plantação onde viviam - tal era a sua cega e fervorosa paixão pelos testamentos de Deus, considerada uma tremenda ameaça e tudo menos bem-vinda - encontram, nos terrenos bravios na orla de uma densa e misteriosa floresta, o local ideal para o recomeço. Totalmente isolados do mundo - a aldeia mais próxima fica a largas horas de viagem - têm-se a si próprios, aos seus medos e anseios e a um conhecimento por demais limitado para extrair da terra a abundância necessária a uma vivência cómoda e estável. Temos William, o pai (Ralph Ineson, dotado de um impressionante tom gutural), de todos o mais puritano e que a toda a hora lembra as parábolas e as figuras bíblicas, que deverão guiar as ações dos filhos e livrá-los do pecado. Temos Katherine, a mãe (Kate Dickie), que não tardará a ceder à dúvida e à histeria. E depois temos 5 filhos: o mais novo, Samuel, é um bebé inofensivo. Seguem-se dois gémeos, Mercy e Jonas (Ellie Grainger e Lucas Dawson), duas diabruras mal-comportadas e indomáveis. Mercy é plena de ironia no nome - se há coisa que não terá por ninguém será precisamente misericórdia, quando muito não seja pelos seus repetidos gritos estridentes. Temos Caleb (Harvey Scrimshaw), por demais curioso e fascinado com os relatos bíblicos do pai e por fim, mas não menos importante - pelo contrário -, temos Thomasin (Anya Taylor-Joy, promissora revelação), a filha mais velha, sobre a qual a câmera abre e encerra o filme. De olhar intenso e intrincado, a jovem servirá de bode expiatório para justificar tudo o que de inexplicável e hediondo vier a acontecer - e que será muito.

Sempre presente, a floresta como pano de fundo - a observar, a escutar... Virgem e intocada, é vítima das piores suspeitas e da mais supersticiosa ignorância, como se da fonte de todo o Mal se tratasse, onde retorcidas forças se dispõem para atacar sem motivo aparente, a qualquer instante. Por isso, está decidido que a devem evitar. A floresta desempenha n'A Bruxa, portanto, papel semelhante ao que desempenhara n'A Vila, de Shyamalan, em que atravessá-la significava transgredir as fronteiras do medo rumo ao temido desconhecido.

Tornemos a Thomasin, que desde logo assume o protagonismo. Certa vez, enquanto brinca com Samuel perante a floresta, o bebé desaparece-lhe como por magia. Vêem-se ervas secas a mexer-se, na direcção do arvoredo. Samuel é raptado e não se sabe por quem, desencadeando a acção. A mãe apressar-se-á a culpá-la - antes disso, porém, acompanharemos, na escuridão da noite, uma bruxa into the woods e de bebé ao colo, pronta para mutilá-lo e, num acto de canibalismo, prová-lo. Qual lobo mau no conto popular infantil do Capuchinho Vermelho, ávido de criancinhas inocentes. Mais tarde, quando Caleb e Thomasin, quais Hansel e Gretel, se aventuram pelo bosque, noite adentro, na tentativa de aliviar a escassez e de encontrar caça e recursos que impeçam os pais de a vender na aldeia - por já ter formas maduras - Caleb encontra uma lebre de olhar suspicaz e perde-se da irmã. Acaba por encontrar o grutesco lar da bruxa que logo avança para ele, voluptuosa e sedutora, o beija e experimenta, corrompendo-lhe o corpo e a alma, num acto de - aos olhos de hoje - pura pedofilia. Thomasin regressa então a casa, tendo, sem querer, entregue à morte mais um dos irmãos que tanto amava. E será a Thomasin que Caleb lhe aparecerá, no mais chuvoso e nocturno breu, nu e possesso, como que envenenado pela bruxa cuja existência, aos olhos de todos, nunca foi comprovada. Até da boca lhe tira o pai uma maçã - clara alusão ao conto da Branca de Neve. A cena que se segue é das mais impressionantes de todo o filme: o momento em que a família, desesperada com a maldição, dá entre si as mãos à volta do leito de Caleb, rezando e implorando pelo exorcismo e pela cura. É como se Deus e o Diabo medissem forças. É a cena nuclear, em que se confrontam uns aos outros na tentativa de entender a maldição e a experiência sobrenatural que se lhes impõe, implacavelmente. Nela acreditam mas, simultaneamente, não querem acreditar. É a altura em que se percebe, claramente, de que lado estão os gémeos, que se recusam a rezar perante as bizarrias e bruxedos que Caleb, no acesso de loucura, tão fortemente profere: A cat. A crow. A raven. A great black dog. A wolf. She desires of my blood. She sends em upon me! They feed upon her teats, her nether parts! She sends em upon me. Sufocam-nos as cordas de Coven e os gémeos repetem, incessantemente, contorcendo-se no chão: She desires of my blood! She desires of my blood! Quando as cordas se calam e se silencia a força derrotada, as culpas recaem novamente sobre Thomasin. Como se fosse ela a bruxa, a infiel, a pactuante com a Besta. Nós, espectadores, pela forma como Eggers joga o seu xadrez, sabemo-la injustiçada. E é precisamente por jogar, desde o início, de forma pouco clara e pouco explicativa que se instala a dúvida. Coloca-nos o realizador, ao fim e ao cabo, no lugar e sob o prisma de qualquer elemento daquela família, prostrado e incapacitado face à violência da inevitabilidade e da fatalidade. A problemática da origem do Mal relacionada com as crianças lembra-nos, a espaços, o ensaio de Haneke, o magistral O Laço Branco.

Quando, anteriormente, à beira do riacho e perante a floresta, Thomasin ouve Mercy falar de uma bruxa da floresta e a assusta dizendo I am that very witch. When I sleep my spirit slips away from my body and dances naked with The Devil. That's how I signed his book. (...) He bade me bring him an unbaptized babe, so I stole Sam, and I gave him to my master. And Ill make any man or thing else vanish I like. Aye. And Ill vanish thee too if thou displeaseth me... acreditamos que apenas brinca com a fedelha. How I crave to sink my teeth into thy pink flesh. If ever thou tellst thy mother of this, I will witch thee and thy mother! And Jonas too! No entanto, não tardará a perceber que tudo o que disser perante a floresta tenderá a ser entendido como uma proposta aceite pelo Diabo, invocado e cultuado pelas bruxas e corpóreo na forma do Black Phillip, o negro bode - símbolo pagão e satânico - que a família alimenta e ignora. O mesmo que os gémeos afirmaram segredar-lhes e que tão alto cantaram aos céus: Black Phillip, Black Phillip, King of sky and land! O mesmo que o pai se recusa a acreditar que seja o Diabo, quando mais tarde encerra os restantes filhos no estábulo, a tábuas e pregos, na companhia do malvado animal e das cabras, como que os castigando ou protegendo. Como se o lobo não destruísse casas de madeira (referência a'Os Três Porquinhos). If that old billy be The Devil - lança o pai, na presença da floresta - I would have danced with him myself. Proposta que o Baphomet se prontifica a aceitar. E não tardará muito a marrar mortalmente contra ele e contra as pilhas de lenha que William tão bem cortou ao longo do filme (Thomasin chega a dizer-lhe, a dado momento: Thou canst do nothing save cut wood!). Os gémeos desaparecem na hora da bruxa, pela ainda escura madrugada, quando esta visita o estábulo, sedenta não de leite mas de sangue de cabra. À mesma hora em que Katherin se levanta da cama e tem uma visão improvável: Caleb aparece-lhe de Samuel ao colo, como que regressados do Inferno, e o bebé dá lugar a um corvo, que lhe debica o seio, na profusão dos símbolos. A imagem é macabra e transtorna-nos. O Mal manifesta-se, pois, numa pluralidade de formas. Revela-se, portanto, um pacto secreto e por demais perverso entre os agentes do Mal, servas bruxas e reles Diabo, que se concretiza numa divertida - e para nós e para as personagens absolutamente aterradora - brincadeira de sangue e morte. O jogo da eliminação continua, caindo os peões uns atrás dos outros, sem qualquer clemência.

O conflito do feminino - foi notória desde o início a especial dificuldade de relacionamento entre a mãe e as filhas e as filhas entre si - conhece um duelo sem precedentes. Estamos no último acto e a mãe sai à rua, completamente desvairada e fora de si, cobrando à filha mais velha - que já lhe competia nas formas - a tragédia que se abatera sobre a família. You have made a covenant with death! You bewitched thy brother, proud slut! Did you not think I saw thy sluttish looks to him, bewitching his eye as any whore? And thy father next! You took them from me! (...) Witch! É caso para dizer: santa ignorância, pensamos. E desfere-se o golpe final, quebrando a inocência, provando o sangue. Estava principiado o ritual. O plano é de afastamento médio e a fotografia (Jarin Blaschke), sempre com luz natural, cores esmorecidas e abrilhantada pela incrível recriação histórica do guarda-roupa (Linda Muir), lembra Veermer ou outros mestres da idade de ouro da pintura holandesa; como nos lembrou noutros instantes, nomeadamente quando os pais olham para Caleb na sepultura, envoltos no frio da paisagem e na companhia da casa, fumegante. O plano, dizia, é incrível e abre lentamente à medida que Thomasin se levanta, enquadrando o pai, ali também caído ao lado, e o restante cenário de destruição. Quando entra em casa, a jovem cobre-se com um manto, senta-se e apoia a cabeça na mesa. O silêncio é imperioso. Fade out. E o filme poderia acabar ali, deixando em aberto o porquê de Thomasin ser a única sobrevivente de tudo aquilo.

Não obstante, há uma coda, a fechar o conto. E o bode ainda está vivo, claro está. Cumprir-se-á o ritual no abraço da floresta, a floresta que ouviu Thomasin, ainda que em vão, e que aceitou a sua proposta. O chifrudo rirá por último, vitorioso sobre qualquer reza ou súplica. Há coisas, dizem os supersticiosos, com as quais não devemos brincar e muito menos pronunciar. Ora bem, A Bruxa é um filme supersticioso, com personagens supersticiosas num tempo em que, longe do esclarecimento científico, a superstição dominava. Não tardaria a começar um dos períodos mais intensos da caça às bruxas nos Estados Unidos, que ficou marcado nomeadamente pelo icónico episódio das Bruxas de Salém, no final do século.

I will guide thy hand...

Por tudo isto, que exímio contador de histórias se revela Robert Eggers - que inclusivé consultou relatos históricos das autoridades de então para recriar as expressões e as falas das personagens, tão focado que estava no episteme e no escape a revisionismos. O subtítulo da obra aponta precisamente para esta natureza real e folclórica do conto. A viagem no tempo parece-nos, por isso, cabalmente plausível. É de filmes destes, superiores, que o género precisa para se vitalizar. Bem, parece-me que está de boa saúde. A Bruxa é um autêntico clássico instantâneo - e nem vou arriscar a dizer o contrário, não vá o Diabo tecê-las!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CRIMSON PEAK - A COLINA VERMELHA (2015)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Crimson Peak
Realização: Guillermo del Toro
Principais Actores: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Charlie Hunnam, Jim Beaver, Burn Gorman

Crítica:

A MANSÃO ASSOMBRADA 

A house as old as this one becomes,
in time, a living thing.
 

Crimson Peak - A Colina Vermelha é um romance gótico - não propriamente um filme de terror. A diferenciação ou precisão parecem-me não só urgentes e importantes como absolutamente imprescindíveis no que toca à gestão das expectativas que conduzirão o espectador ao filme e ao entendimento que depois o mesmo fará dos contornos dramáticos que a obra ganhará, em crescendo, ao longo da sua duração.

De um dos mais belos filmes de 2015 jamais se poderá esperar - tão-somente - o susto pelo susto, o macabro pelo macabro ou o brutal pelo brutal - ou seja, a gratuitidade que, não raras as vezes, estupidifica e diminui o género terror. Ao deambularmos - e na possibilidade de nos perdermos - pelos ruidosos e incontáveis corredores de Allerdale Hall, cruzar-nos-emos, na verdade, com todos eles: com o susto ao virar da esquina, com o macabro atrás de cada porta e com o brutal um pouco por todo o lado, mas sempre prioritária e poderosamente sustentados num background, numa história cujo alicerce é, imperioso, o amor. Os ecos do género terror estão omnipresentes no conteúdo, no contexto e até na forma, é certo, mas é a natureza da história e o que a motiva que a diferencia. Acompanharemos a viagem emocional das personagens e no final perceberemos: os monstros não são, como julgávamos, os fantasmas e os espíritos inquietos dos que morreram e que por ali pairam. Os verdadeiros monstros - e os que mais nos apavoram - são os que por cá ficaram, vivos, desferindo golpes e feridas e manchando de sangue a neve, tanto mais do que qualquer argila-vermelha que das profundezas da terra possa surgir. O que seria de esperar de Guillermo del Toro, aliás, ou não tivéssemos nós assistido ao maravilhoso O Labirinto do Fauno, onde as personagens da vida real eram tão mais cruéis e assustadoras do que as de qualquer fantasia.

But the horror... The horror was for love. The things we do for love like this are ugly, mad, full of sweat and regret. This love burns you and maims you and twists you inside out. It is a monstrous love and it makes monsters of us all.

Há toda uma dimensão feminina, típica do sub-género: Edith Cushing, a protagonista (Mia Wasikowska), desde pequena que tem canal aberto com o além e é assombrada pelo fantasma da mãe falecida. Lucille Sharpe, a antagonista (arrepiante desempenho de Jessica Chastain), tem um passado misterioso que tenderá a revelar-se, à medida que a investigação de Edith ganha força e os segredos, mergulhados, vêm ao de cima. No centro, Thomas Sharpe, irmão de Lucille (Tom Hiddleston, charmoso e carismático), disputado pelas duas mulheres. O amor, que justificará - como sempre - todos os actos psicóticos de Lucille, desencadeará toda a acção e precipitará, inevitavelmente, a tragédia. Com a morte do pai, Edith vê-se sozinha no mundo e embarca para a Europa, entregando-se, desesperançada, ao casamento - um casamento, da parte dela, claramente mais por escape à desilusão da realidade, fruto de uma paixão romântica que a cegou e a impediu, com lucidez e inteligência, de analisar o carácter novelesco de Thomas, o homem aparentemente perfeito. Rapidamente essa paixão se esfumará, dando lugar à desconfiança e ao desencanto de um relacionamento escaldado, mecânico, que se degradará por imperativo das circunstâncias. Ela, que sempre se achou à frente do seu tempo, ver-se-á agora encarcerada e sufocada no mais funesto pesadelo. Temos ainda o bondoso e apaixonado doutor Alan (Charlie Hunnam), único elo ao passado de Edith na América, que arrisca tudo pela amada na tentativa de, ciente da natureza vil dos Sharpe, alterar o desfecho da trama. Um elenco ao mais alto nível, pelo que podemos dizer que estamos perante um portentoso filme de actores.

Crimson Peak 
tem o cunho e a assinatura inconfundíveis de del Toro. Não admira, portanto, que seja um filme extraordinariamente estilizado. E embora recorra ao digital, del Toro resiste-lhe, como de costume, com uma tenacidade criativa e uma visão por demais inspirada. Note-se o detalhe e perfeccionismo dos cenários e decoração (Thomas E. Sanders, Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau) - o palacete é, todo ele, um organismo vivo, arquejante. É como se cheirasse a morte. Sangra de argila e tem, em cada recanto, a memória do tempo e do sofrimento das pessoas que por lá viveram. Tudo o que por lá se passou e tudo o que por lá se passa é mais do que suficiente para afastar qualquer hóspede ou curioso. No entanto, tem toda uma aura mística, um lúgubre magnetismo, que chama, enleia e aprisiona as suas vítimas, adoecendo-as, apodrecendo-as. O isolamento geográfico e o rigor do inverno são, na pior estação, os mais fiéis e terríveis aliados da casa. O primor e requinte artísticos estendem-se aos figurinos (Kate Hawley), também eles essenciais para a criação da atmosfera e daquele imaginário e a fotografia (Dan Laustsen) eleva e apura, definitivamente, o esplendor visual de toda a obra. A sonoplastia e a banda sonora magistral (Fernando Velásquez) são essenciais para orquestrar o suspense e as emoções, potenciando a carga dramática e criando um elo emocional com a história e com os espectadores. Os temas musicais são absolutamente belíssimos, capazes de  nos provocar a mais genuína e sentida comoção.

Por tudo isto, Crimson Peak é um filme do coração. Abrimo-lo, primeiramente, para entrar naquele misterioso e sinistro universo, que nos atrai - e que cedo nos adverte: Beware of Crimson Peak - e depois envolvemo-nos, angustiamo-nos e por fim sangramos, qual casa, quais personagens. Não sendo, propriamente, um ás da câmera - e é certo que, narrativamente, a história merecia um pouco mais de densidade - Guillermo del Toro apresenta-nos um belo e emotivo pedaço de cinema, forjado, como poucos, num faustoso e elegante ambiente gótico. Um deleitoso festim para os nossos sentidos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ANTICRISTO (2009)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Antichrist
Realização: Lars von Trier
Principais Actores: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg

Crítica:

A RAPOSA, O CORVO E O VEADO


Nature is Satan's church.


O momento em que a mestria ascende à mais pura genialidade: um prólogo imaculado, a preto e branco, apresenta-nos Ele, Ela e Nic, o filho de ambos, condenado pelos misteriosos desígnios do sobrenatural. Ouve-se Lascia ch'io pianga, de Händel. A perfeição da fotografia e da arte de filmar sublima a tragédia, enquanto o slow motion nos enebria e arrepia. Que abertura lírica e transcendente - e, ao mesmo tempo, estranhamente apaziguadora e reconfortante. Espera-nos, contudo, o choque, o nojo e a provocação... Capítulos de Luto, Dor e Desespero e um profundo e repugnante mergulho na essência e nas origens do Mal, muito para além das fronteiras do terror psicológico. Magnífico trabalho de Lars von Trier.

I. Luto.
A morte do filho assume-se como algo absolutamente traumatizante. A queda fatal, enquanto fornicavam, assombra e consome-Lhes o pensamento, os sonhos e a existência. O sentimento de culpa existe e provém das raízes da alma. Especialmente a Ela que, após desmaiar no funeral da criança e acordar um mês depois numa cama de hospital, encontra uma assustadora e abominável depressão, cujas possibilidades de catarse são mínimas.

Ele é psiquiatra e decide, contra a ética, tratar o luto da mulher e do casal. What the mind can conceive and believe it can achieve. Primeiro, há que tentar tranquilizar-Lhe a tão intensa ansiedade: A main part of anxiety is physical: dizzy spells, dry mouth, distorted hearing, trembling, heavy breathing, fast pulse, nausea... (...) Do the breathing. Hold... Exhale. A sensibilidade na captação das imagens torna-se extrema e a câmera, bruxuleante. Intensificam-se a subtileza da montagem (Anders Refn, Åsa Mossberg), a virtuosa arte entre o focar e o desfocar e o esplendor sombrio e enigmático da fotografia (Anthony Dod Mantle). Depois, o processo terapêutico avança para o desbravar dos medos:

Ela: Do you love me?
Ele: Yes, I do.
Ela: Then help me.
Ele: It's what I'm doing. Exposure - that's the only thing that really works. Everything else is... just talk. You have to have the courage to stay in the situation that frightens you. And then you'll learn that fear isn't dangerous. Let's make a list of things you're afraid of. At the top, you put the situation you fear the most. (...) Maybe it would be easier for you to tell me where you're afraid? Where would you feel most exposed? What would be the worst place? An apartment? The street? A store? The park? Visiting someone, maybe. The woods. The woods?
Ela: The woods, yes.
Ele: It's funny because you were the one that always wanted to go to the woods. What scares you about the woods? What frightens you... there?
Ela: Everything.
Ele: Tell me what you think is supposed to happen in the woods. Eh? Is it any woods in particular?
Ela: Eden.

Fecham-se os olhos, cai-se em hipnose. Insinua-se um slow-motion cândido e tremendo. I'm at the bridge. It's evening. Almost no birds can be heard. The water is running without a sound. Darkness comes out anytime here. I walk into it. A atmosfera adensa-se. Um calafrio atravessa-nos a espinha. Lie down on the green - sugere-lhe o marido. - Lie down on the grass. (...) Lie down on the plants. (...) I want you... to melt into the green. Don't fight it. Just - turn - green.

No sono, Ela confunde-se com o arredor da cabana, a cabana do Éden onde passara o Verão com o filho, supostamente a preparar a Sua tese. Ela estudara a bruxaria e a misoginia que ao longo dos séculos irradicara da face da Terra milhares e milhares de mulheres, nomeadamente após a publicação do Malleus maleficarum.

Por mais que se tenha afastado da mulher e do filho, em tempos idos, Ele não consegue compreender o porquê de tanto medo em relação à Natureza daquele bosque negro... E isso instiga-o a continuar a expiação. Deslocam-se, pois, ao Éden.

II. Dor.
Reina o caos. Não prolifera mais o cosmos, no Jardim do Éden. Crescem o suspense, a agonia daquela mulher e os seus descontrolados impulsos sexuais. As mais improváveis situações começam a acontecer na hostilidade daquele meio. As bolotas, por exemplo, começam a cair sobre o telhado, que nem uma forte e amaldiçoada chuvada:

Oak trees grow to be hundreds of years old - conta-lhe Ela. - They only have to produce one single tree every hundred years in order to propagate. May sound benign to you, but it was a big thing for me to realize that when I was out here with Nic. The acorns fell on the roof then, too... kept falling, and falling, and dying, and dying. And I understood that... everything that used to be beautiful about Eden, was perhaps hideous. Now I could hear what I couldn't hear before. The cry of all the things that are to die.

Mais tarde, Ele encontra as fotografias do Verão passado, partilhado a sós entre mãe e filho, abre a carta da autópsia que Ela desconhece existir e... as dúvidas insurgem-se. O luto, a dor e o mistério envolvente intensificam a ruína do casamento e da relação dos dois.

III. Desespero.
Ele encontra, no sótão, o material de pesquisa da tese da mulher e apercebe-se do subtexto sobrenatural dos acontecimentos... da ligação histórica e profana entre Satanás e as mulheres... das manifestações sexuais... Começa a ter sonhos estranhos. Fala-Lhe, à mulher, desses devaneios oníricos, mas Ela apela-Lhe, ironicamente, à lucidez e ao cepticismo deontológico que nunca partilhou: dreams are of no interest to modern psychology. Freud is dead.


Ele: I am nature, all the things you call nature - tenta.
Ela: If human nature is evil, then that goes as well... for the nature of... Of the women? Female nature? The nature of all the sisters.

Ela tenta a fornicação, mas Ele resiste. Ela está possuída pelo Mal: foge da cabana, embrenha-se na neblina e na escuridão da floresta e, tendo as raízes de uma árvore antiga como altar, pressiona os genitais na mais compulsiva masturbação. Ele encontra-A e possui-A. A força do feminino reclama o Gynocide e os maquiavélicos planos de Satanás. O fotograma que a fantasia proporciona, no seguimento do acto sexual, não é senão um dos mais memoráveis e deslumbrantes de toda a obra. Viscerais e assombrosos desempenhos de Willem Dafoe e de Charlotte Gainsbourg, no abismo e fascínio do enredo.

Regressados à cabana, Ela encontra o resultado da autópsia. Nic falecera com uma deformação nos pés e Ele confronta-A com o facto. As fotografias que encontrara, nomeadamente, ostentavam os pés do miúdo com os sapatos trocados. Relembrando o prólogo, encontraremos na memória a imagem dos sapatos do menino, premeditadamente trocados. Face à Verdade, a mulher é tomada pela violência e desfere-a sobre o marido: uma violência atroz, sádica e masoquista, plena de uma essência narcísica, despudoradamente explícita, fria e cruel. Completamente possuída, a mulher jamais dará oportunidade ao remorso.

IV. Os Três Pedintes.


Ele: Did you want to kill me?
Ela: Not yet. The three beggars aren't here yet. (...) When the three beggars arrive, someone must die.

Terá sido provocada, a morte do pequeno Nic, por mera negligência? Ilumina-se o complexo argumento e as dúvidas dissipam-se. Um revelador flashback dá-nos a resposta; a nós e a Ela. Há muito que o Mal germinara no coração daquela mulher, afinal. Com a auto-mutilação, é desencadeado o insuportável e doloroso clímax. Os gritos pungentes servem o chamamento d'Os Três Pedintes. There is no such constellation, profere Ele, mas o cepticismo é tardio. Resolvem-se as simbologias e a morte chega, implacável.

Fique o Éden livre de todo o Mal. E, com ele, todas as almas para sempre perdidas.

Epílogo: preto e branco, Lascia ch'io pianga, fecho circular.

Anticristo é, por tudo isto, uma das mais inquietantes, perturbantes e destroçantes experiências cinematográficas deste virar de década. Uma absoluta obra-prima.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A MOSCA (1986)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: The Fly
Realização: David Cronenberg
Principais Actores: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Joy Boushel, Leslie Carlson, George Chuvalo, Michael Copeman, David Cronenberg, Carol Lazare, Shawn Hewitt
Crítica: A Bela e o Monstro, as consequências éticas das mais tresloucadas ou criativas experiências científicas, a degeneração moral e a identidade humana, o entretenimento e o terror - não tanto o psicológico, mais o físico, pelo nojo. Eleva-se na mediania pela equilibrada e sustentada construção do drama humano, claramente superior aos devaneios fantasiosos da caracterização e da premissa.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

OS PÁSSAROS (1963)

PONTUAÇÃO: FRACO
★★
Título Original: The Birds
Realização: Alfred Hitchcock

Principais Actores: Rod Taylor, Tippi Hedren, Jessica Tandy

Breves Considerações: De mestre, a condução do suspense e a composição de algumas sequências - entre as quais aquela que a imagem abaixo ilustra. No entanto, absolutamente negligenciados por uma história ridícula.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

PSICO (1960)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Psycho
Realização: Alfred Hitchcock

Principais Actores: Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin, Martin Balsam, Simon Oakland

Crítica:

IDENTIDADE MISTERIOSA

Psico é puro suspense. Mesclam-se nele, indistintamente, mistério, tensão e arrepio; os quais se fazem suster de personagem em personagem, de plano em plano e de acorde em acorde... aguçando ao extremo a vontade de saber o que vem a seguir. Desse prisma, o argumento de Joseph Stefano (adaptando a obra de Robert Bloch) mostra-se não só implacável como absolutamente inteligente e assaz escrupuloso no jogo de expectativas que estabelece com o espectador.

Igualmente fulcral para a criação da atmosfera aterrorizante que cresce ao longo de toda a obra é a frenética banda sonora de Bernard Herrmann - para mim, uma das melhores de sempre. Mas também, claro, a poderosíssima e perturbante imagística: resultado da excelência fotográfica, da cadência engenhosa da montagem, da meticulosa encenação e da fruição artística do mestre. O protagonismo, esse, alterna constantemente entre as personagens, deixando a história em aberto e nas mãos da imprevisibilidade. Janet Leigh como Marion Crane? Magnífica, imortalizada por tão carismática interpretação - que vai muito para além da memorável cena do duche. Anthony Perkins como Norman Bates? Verdadeiramente assombroso. Aquele seu olhar final directamente para a câmera, para os nossos olhos, magnetiza-nos para o seu universo de demência, loucura e personalidade múltipla... e é como se nos invadisse o inconsciente até ao mais gélido e frágil recôndito da psique e nos marcasse para sempre.
Psico? Fonte de génio e de inspiração. Cinema em grande.

sábado, 8 de maio de 2010

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Sleepy Hollow
Realização: Tim Burton

Principais Actores: Johnny Depp, Christina Ricci, Michael Gambon, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Christopher Lee

Crítica:


CIÊNCIA vs. MISTICISMO


Seeing is believing.


1799: a passagem do milénio aproxima-se. Perpetuada em nevoeiro, enclausurada pelo negrume da floresta e perdida por entre abóbodas flamejantes e fumos amaldiçoados, existe uma pequena vila pastoril, de nome Sleepy Hollow, habitada por uma comunidade quase familiar, de fortes práticas religiosas e de sanguinárias crenças místicas, aterrorizada pelos seus fantasmas e pelos seus segredos. Quando a notícia de uma série de hediondos e misteriosos crimes bate às portas de Nova Iorque, o inventor e mestre da razão Ichabod Crane (Johnny Depp) parte para o interior americano, decidido resolver o caso. Quando chega à povoação, justificam-se os crimes com uma inacreditável lenda: um espírito inquieto e atormentado, um cavaleiro sem cabeça, de negro corsel e negras vestes, com insaciável desejo de vingança. Haverá desmistificação possível para a história do cruel e letal cavaleiro, hábil manejador do gládio da morte? Ou confrontar-se-á Crane, inadvertidamente, com uma dimensão diabólica e sobrenatural, capaz de desafiar a razão e os valores em que tão pia e excentricamente acredita?

Katrina Anne Van Tassel: What do you believe in, Ichabod?
Ichabod Crane: Sense and reason, cause and consequence, an ordered universe...

Com um elenco secundário de uma excelência inegável e dotado dos mais elevados e sofisticados valores de produção, Tim Burton concretiza uma autêntica apoteose visual do barroco, tanto pela direcção artística (irrepreensível nos cenários e decorações, exuberantes e minuciosamente trabalhados - Rick Heinrichs, Peter Young), como pelos faustosos vestuário e acessórios, riquíssimos em detalhe (Colleen Atwood), como pela fotografia e iluminação de Emmanuel Lubezki (um dos mais geniais e impressionantes trabalhos do técnico), como pela assombrosa e absolutamente magnífica banda sonora de Danny Elfman. Enfim, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um puro primor artístico.

Katrina Anne Van Tassel: I have shed my tears for Brom... and yet my heart is not broken. Do you think me wicked?
Ichabod Crane: No... but perhaps there is a little bit of witch in you, Katrina.
Katrina Anne Van Tassel: Why do you say that?
Ichabod Crane: Because you have bewitched me.

Lamentável, só mesmo o desequilíbrio narrativo na segunda metade do filme, que impossibilita a obra de um todo verdadeiramente sublime.

Enfim... um
operático, fascinante e assustador deleite visual, verdadeiramente contagiante e enérgico, pontuado por momentos de inspirado humor. Um filme arrojadíssimo, de contornos fantásticos e com uma fabulosa interpretação de Johnny Depp.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

SHINING (1980)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Shining
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers

Crítica:

O LABIRINTO DO MEDO

Uma obra-prima assombrosa e arrepiante. Com uma encenação de génio, uma escolha de planos meticulosa e uma sublime arte de filmar, Shining é uma triunfo absoluto, extremamente bem feito. O elenco é excepcional: Jack Nicholson (impressionante, na sua personagem psicótica e de outro mundo), Shelley Duvall (transfigura-se sob a direcção obsessiva e opressiva de Stanley Kubrick) e o pequeno e bem escolhido Danny Lloyd. A banda sonora (Wendy Carlos) desempenha um papel fulcral na criação do suspense crescente e os criativos cenários e iluminação para todo aquele ambiente hipnótico e assustador. Detentor ainda de um magnífico trabalho de montagem, repleto de cenas marcantes e de uma imagística poderosíssima, eis, intenso, transcendente e iluminado pelo éter, um dos melhores filmes de sempre.

domingo, 7 de junho de 2009

O SEXTO SENTIDO (1999)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Sixth Sense
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette

Crítica:

ESPÍRITOS INQUIETOS

I see dead people.

O Sexto Sentido constitui uma experiência genuinamente assombrosa e transcendente. Instala no espectador, num crescendo de suspense e com a maior sensibilidade, um poderoso sentimento de vertigem, de queda abismal e impossível de amparar, na solidão, na escuridão... e no invisível.

M. Night Shyamalan compõe um extraordinário trabalho de mestre; a sua câmara movimenta-se como um espírito perfeito. É impressionante, a sua arte de filmar. A direcção de actores é verdadeiramente excepcional: Haley Joel Osment está prodigioso, está genial! Toni Collette igualmente brilhante e comovente. E Bruce Willis eleva-se à altura. Do arrepio à lágrima, O Sexto Sentido conta ainda com uma banda sonora magnífica, uma das melhores composições de James Newton Howard. O argumento é de uma rara e altíssima qualidade dramatúrgica, profundamente inspirado e inspirador.

O Sexto Sentido é uma obra de referência obrigatória. Um clássico instantâneo, absolutamente essencial.

domingo, 8 de março de 2009

O ORFANATO (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: El Orfanato
Realização: Juan Antonio Bayona
Principais Actores: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Geraldine Chaplin

Crítica: O Orfanato vive, é certo, na sombra de Os Outros. Porém, revitaliza-se (a si e a um género) sobre um cunho próprio e sobre um virtuosismo diferente. A realização, num exercício subtilmente estimulante, eleva a um estatuto superior o sensível argumento de Sergio G. Sánchez. O Orfanato vive do mistério, dos ruídos, da sugestão... Em última análise e para além de uma obra de terror sublime, revela-se como um drama tocante e profundo, protagonizado em primeira instância pela força magistral de Belén Rueda. Que desempenho brilhante. Suportado ainda por uma excelente banda sonora e por um cuidado técnico inegável, eis um filme surpreendente... a ver e rever.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

SWEENEY TODD - O TERRÍVEL BARBEIRO DE FLEET STREET (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Sweeney Todd - The Demon Barber of Fleet Street
Realização: Tim Burton
Principais Actores: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen, Laura Michelle Kelly, Jamie Campbell Bowen, Ed Sanders

Crítica: Do melhor que Tim Burton alguma vez concebeu e uma grande obra do cinema musical. Johnny Depp e Helena Bonham Carter, dois dos ícones (justamente) maiores do panorama cinematográfico americano, estão sublimes, à frente de um elenco singular. O argumento de John Logan (argumentista de O Aviador, O Último Samurai ou Gladiador) está elegantemente bem escrito - por que a boa escrita revela sempre uma enorme elegância. O cenários de Dante Ferretti (O Aviador, Cold Mountain) dão vida a um mundo também «burtoniano» com uma enorme competência, o que nem sempre, a meu ver, acontece com as obras do realizador. A fotografia de Dariusz Wolski está brilhante. A recriação primorosa de um ambiente assustadoramente mórbido e o humor negro são os grandes trunfos de um filme tecnicamente irrepreensível e irreprensível em tudo o resto. Um clássico instantâneo.

domingo, 7 de setembro de 2008

OS OUTROS (2001)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Others
Realização: Alejandro Aménabar

Principais Actores: Nicole Kidman, Fionnula Flanagan, Alakina Mann, James Bentley, Eric Sykes, Christopher Ecclestone, Elaine Cassidy

Comentário: Nicole Kidman é diferente e perfeita em cada papel. Eis mais um caso. Este filme é uma obra-prima, um clássico do realizador espanhol. Reina o suspense, a excelente iluminação e um argumento brilhante, surpreendente e emocionante.
[Crítica brevemente]

 


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