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(vinte e) Cinco Minutos: Um conto de verão

Postado por Rafael em

Quando trovejava era possível ver o estranho menino sentado na torre da matriz. É muito incomum que crianças fiquem em locais tão altos, ainda mais em tempos tempestuosos e à noite. Mas ninguém parecia estar ciente deste problema. É como se o vissem, mas não pudessem notá-lo.

A cada relâmpago também era possível ver que horas marcavam o antigo relógio da igreja. Um clarão, onze e trinta e dois. Onze e trinta e sete. Onze e quarenta e oito... Meia noite e nada do último ônibus aparecer. As pessoas, que formavam uma pequena aglomeração espremida sob o ponto de ônibus, não exibiam sinais de decepção, embora estivessem molhadas e cansadas de suas horas extras.

Mas não estavam extenuadas da rotina. Ainda não se pode afirmar formalmente, mas parece que após certo tempo de vivência em rotina ela já não é mais estressante ou algo que se tenta evitar. Aliás, escapar da rotina é uma ideia tão estranha quanto escapar da incumbência de respirar – pode ser bom, em certos casos, mas acarreta em mudanças incontroláveis, ainda que previsíveis.

Como o suicídio não é de interesse nesta narrativa, voltemos à rotina. Bom, o ponto de ônibus era desses comuns antigamente, com uma proteção branca, abobadada, na parte superior, elevada e apoiada por hastes verticais. Tal estrutura era relativamente eficiente para proteger futuros passageiros do Sol, mas se mostrava muito inadequada para fazê-lo durante chuvas. Ainda mais em tempestades como a daquela noite.

– Com esse vento ninguém pode! – disse, quase gritando, um senhor com capote e chapéu, ambos pretos.

– Nem diga! Antes de sair sempre dou uma olhadinha na previsão do tempo, daí peguei o guarda-chuva, né? Pra quê?! Com essa ventania me molhei todo! – falou um metalúrgico, bem humorado, ainda que o guarda-chuva fosse um estorvo naquele momento, tanto quanto fora durante todo o dia.

E antes que o menino sentado na torre dos sinos da matriz entendesse porque um homem falou com o outro, todos lá embaixo estavam conversando. Uns seguiam o exemplo do metalúrgico e falavam sobre o que fizeram para se prevenirem da chuva e, ainda mais importante, como tais preparos foram suplantados pela tempestade. Outros discutiam sobre o trabalho, família, doenças nos ossos... E tão de repente quanto o início das conversar, muitos se deram conta de que falar sobre a rotina era um modo saudável de evadi-la! Uma boa falação com pessoas presas na mesma situação era quase uma terapia para os que não tinham dinheiro para conversar com psicólogos ou psiquiatras, “se é que tem diferença, né?”, nem dispunham de familiares que prestassem para conversar por 5 minutos.

Entre aquelas pessoas a sensação era de paz profunda e havia carinho mútuo entre todos. E foi com certa tristeza que notaram um ônibus que se aproximava. Tão logo embarcassem no veículo, suas novíssimas amizades estariam desfeitas...

A tristeza só não foi maior do que a felicidade quando viram que não, não era um ônibus que se aproximava. Acontece que com a chuva intensa e os faróis altos, era uma tarefa difícil distinguir um caminhão de um ônibus.

[...]

Outro clarão, meia noite e vinte e quatro, e ao longe se viam os faróis de outro grande veículo que se aproximava. Dessa vez era evidente que se tratava de um ônibus, porquanto era visível o letreiro laranja que piscava o nome de uma linha.

Novamente houve muita tristeza, dessa vez misturada com um pouquinho de melancolia. Assim que entrassem no ônibus começaria a briga pelos lugares unitários, pelas barras verticais e pelos locais nos quais poderiam se segurar mais próximos de seus pontos de equilíbrio. Mas esse sentimento logo se dissipou quando as primeiras pessoas que embarcaram resolveram que seria bom continuar a prosear! E as pessoas da fila então notaram o poder daquela socialização de 25 minutos. Poderiam conversar durante todo o trajeto, não só naquela noite como nos dias subsequentes! Novamente, houve a sensação paz e carinho entre todos. Infelizmente tais sensações são mundanas e nada divinas.

[...]

Pouco mais de três pontos depois, uma passageira que estava no ponto da matriz pensou:

– Espera um pouco... se for assim, a gente vai ter que se cumprimentar todos os dias, beijinho pra cá, beijinho pra lá... Pior ainda, vamos ter que conversar!

Então ela sentiu uma grande repulsa e raiva de todas aquelas pessoas que estavam no ônibus. Cortou rapidamente a conversa que travava com uma moça do RH, que conhecia de vista há mais de 5 anos, fingindo uma extenuação incontrolável enquanto encostava a cabeça no vidro frio e fechava os olhos.

Ela não era a única a tomar uma atitude antissocial. Aliás, não havia ser humano ali que não sentisse o mesmo asco pelos demais, pela chuva, pelo ônibus, pela rotina, pela vida, pela “porra do Universo”. Curiosamente, ninguém estava irritado com a igreja matriz e com o seu ponto. Admiradores da arquitetura? Não... Estavam apenas temerosos da ira de uma entidade metafísica humanizada qualquer.

[...]

Passou o pouco esperando fim de semana e chegou a segunda-feira. O dia no qual todos seriam tão arrogantes, individualistas e indiferentes quanto possível! Principalmente com aqueles conversadores baratos. Agora estavam todos cientes do perigo de uma conversa casual e estavam dispostos a jamais sacrificar sua liberdade por um papinho de meia hora.

E assim foi. Ninguém falou com ninguém. Não houve quem ousasse romper o silêncio, olhar no olho, sorrir. “Melhor pagar um psicólogo (agora muitos sabiam que “psicólogo é o cara que cobra pra conversar e psiquiatra é o que cuida da saúde da cabeça das pessoas”) ou arranjar um amante pra conversar. Estranhos nunca mais!”.

Deus, sentado ao lado dos sinos da igreja, notou o que se passava. Fechou seus olhos divinamente humanos e falou de si mesmo, na terceira pessoa, com uma voz de trovão:

– E viu Deus que isso era bom. Adequado.

1961: Space Odyssey

Postado por Rafael em

Há quem diga que o homem nunca esteve na Lua. Bobagem! Claro que esteve! O fato é que o camarada Armstrong não foi o primeiro a pisar lá. Nem mesmo o segundo, pasme! Tecnicamente ele foi o 137º. Não que nos importemos tanto com detalhes técnicos. Mas nos importaremos!

O fato é que em 1961 Gagarin foi lançado ao espaço. Suas missões eram simples: notar que Deus não existia, além de afirmar que a Terra é vermelha, o que provaria que a natureza terrestre era socialista (?). Ele falhou. O que o levou à sua morte ocasional, acidental e aleatória em 1968. Ah sim, ele também deveria projetar uma estação secreta de enriquecimento de urânio na Lua.

Enquanto a máfia russa tentava descobrir o porquê de matarem civis (o governo já fazia um ótimo trabalho), Nikita, o sexy, ordenava aos engenheiros alemães, “asilados” após o término de II Guerra, que projetassem um enorme canhão capaz de lançar, compulsoriamente, corajosos soviéticos (só ucranianos, diga-se de passagem) à Lua.

Em 1969, a estação já estava quase pronta, pois desde de 1963 os escr... Digo, os corajosos astronautas trabalhavam 224 horas seguidas, e supostamente descasavam 448 horas (sempre faziam hora extra...). Eles não gostavam de trabalhar tanto, mas o fato é que sem trabalho seria “Oh no! Bad comrade, no vodka for you!”.

Mas em 1969 a canhão lançador de homens e vodka quebrou. O que fazer? Os alemães estavam mortos (ocasionalmente, acidentalmente e aleatoriamente), e agora só russos estavam no time de projetistas! #%&!

Secretamente o camarada Leonid, sucessor de Nikita, o sexy, contatou a North American Shipping Agency, vulgarmente conhecida por NASA.

[...]

Nosso amigo Neil era um tanto... Excêntrico, digamos. Segundo ele a empresa deveria chamar-se Neil Armstrong Shipping Agency. Além disso, Neil, o cara, cria que a maior rival que possuíam era a Soviet Express. Creio que não preciso dizer que seu sócio, Houston F., estava puto com isso. Então decidiu mandá-lo para a %#$&!

Além de vodka, a NASA levaria bolos da Fred Bakery Inc. (FBI), biscoitos para testes, provindos da Cookie International Association (CIA). Já a KGB (Komitet Gosudarstvieno Bezopasnostnova – em bom português, o Comitê de Pesquisa em Roedores), também estava enviando dois coelhos. E segundo Leonid, o cara, Nikita estava certo quanto a capacidade dos alvos roedores fazerem amigos.


“A Terra é azul, e eu não vi Deus. Mas Ele me deu biscoitinhos com leite”.– Iuri Gagarin.


”Rabbits are being good at making friends. I had two, but now I have 25! They are knowing how to be making friends, I am being sure!” – Nikita Kruschev, the sexy.


“We are almost granting that your shipping will be arriving some weeks later in the destination of your choosing”. – Sergei Milenkov, Soviet Express.

A noite em que roubei as chaves para o céu

Postado por Rafael em , ,

Quando jovem, era um prodígio entre perdedores. Superior em todos os sentidos, exceto no genético. Afirmar isso seria dizer que existem pessoas com genes inferiores. O que é uma verdade, mas proibida.

Sentimentos eram tangíveis e coloridos. A alvura da raiva estava em contraste com o vermelho do meu rosto, sendo esta última a cor da ansiedade e do amor por outra pessoa. Já o amor próprio era o céu. Em cor e extensão.

Falando em céu, lembro que as estrelas eram sóis, mas que se recusavam a afundar na noite. As nuvens, projeções de um futuro triste. As pessoas que observavam a este espetáculo sem notar a sua magnitude, eram meros objetos.

Então minha juventude me abandonou. Fui um inútil entre mentes e físicos ascendentes. Inferior no que se podia comparar.

Eu sabia as que emoções eram resultantes de reações químicas, desencadeadas por estímulos quaisquer. Não podiam ter cores. O amor era uma questão de culto à própria imagem. As estrelas eram sóis, de fato. E as pessoas eram mesmo objetos.

Percebendo que os presságios das nuvens eram verdadeiros, decidi mudar. Envelheci mais um ano e fiz 18. Voltei a ver cores nos sentimentos. Voltei a amar aos outros, porque mesmo o amor egoísta é gentil e protetor.

Bom, as estrelas são sóis, mas em cantos distantes. As pessoas são mesmo objetos e não há o que adicionar a isto.

Lembranças de uma memorável virada de ano em presença de três pessoas ilustres, sendo duas detentoras de meu afeto egoísta. E claro, de diversas discussões sem pé nem cabeça, mas que não poderiam ter chegado a conclusões mais elusivas.

A dinâmica dos corpos e mentes

Postado por Rafael em

Terra amada, 6 de dezembro de 1996.

Caríssimo senhor W,

O concreto, o aço, e um pouco de matéria orgânica. Sim, as cidades. Da última vez que fui a uma, quase não pude escapar das garras institucionais... “Jesus te ama” (cristãos invasores!), diziam eles, “você está preso!”, e até “vamos, coma e durma no abrigo”. Ora, eu corri, corri e andei quando cansei... Esses mortos não sabem que morreram!

Eles acham que me enganam! E me assustam, caro senhor W, pois não aceitam minha felicidade anormal aqui, no meio do nada. Mas este é o nada mais completo que se possa imaginar! As pessoas sempre estão fazendo nada, não é mesmo?!

Mas não é sobre as cidades ou o nada que gostaria de tratar com o senhor, estimado W. Gostaria de lembrar-lhe de nosso antigo amigo, o senhor S, que há muito cometeu suicídio. Talvez não saiba, mas ele cometeu...

Pois bem, deixe-me iniciar. Em 1984, o senhor W. começou a escrever um artigo sobre a insanidade. Na ocasião, eu trabalhava como seu assistente, sendo responsabilidade minha a nossa temporada no hospital de enfermidades psicológicas soviético. O local era imponente, se tratava de uma antiga fortaleza czariana, que defendia São Petersburgo. Depois do acelerado processo de urbanização que se passou durante nossa infância, o forte foi obsorvido pela cidade, sendo que minha casa ficava a alguns minutos de lá. Mas disso o senhor deve lembrar, não?

Bom, o fato é que S observava os enfermos durante longas horas, e chegava a travar diálogos com os pobres diabos. Sua intenção, segundo me disse, era decifrar a lógica daqueles ex-combatentes desequilibrados. Não tardou até que alcançasse os primeiros progressos... Gostava, sobretudo, dos homens que voltavam da África. O clima de lá, como o senhor deve saber, era, e é, muito desagradável para nós, filhos da tundra. Somado isso ao medo de um ataque capitalista e à distância da Pátria, os homens eram, deveras, muito desequilibrados lá.

Muitas semanas passadas desde o início de seus estudos, o senhor S começou a perguntar-me sobre patologias psicológicas. Respondi que não me interessava por tal assunto, e que mesmo que tivesse alguma tese sobre o assunto, elas seriam muita vazias. Nesta ocasião percebi o quanto havia mudado seu olhar e suas atitudes. Ele estava taciturno e esquivo...

Espero que não se incomode com a efêmera narração, senhor W. Eu tentei não me incomodar, mas um ano inteiro se passará desde os parágrafos anteriores ao que ainda virá. Não faço isso por mal, ainda que o faça calculadamente.

Bem, o senhor S passou de estudioso à interno... Fui visitá-lo certo dia, e enquanto esperava que chegasse, fiquei em seu alojamento. Passei os olhos pelo lugar, que estava muito limpo. Acabei percebendo o antigo caderno de anotações de S, e decidi lê-lo; as anotações não podiam ser chamadas de antigas, de fato. Ele continuou a escrever seu artigo, que embora tivesse o mesmo assunto, mudou completamente de foco: os loucos eram os "externos", como eles nos chamou. Eram dezenas e dezenas de páginas com insanidades desmedidas e relatos assustadores. Dentre seus desvairamentos, estava o de que eu era um psicopata.

Ora veja! Eu? Não. Se matei foi por gosto e prazer, e não por descontrole ou insconsciência de meus crimes. Que graça teria se eu não sentisse que era errado?! Mas não pretendo agastar seus velhos olhos com uma longa carta. Deixarei o relato de meus assassínios prediletos à outras epístolas. Voltemos ao suícidio...

Descobri que o senhor S não estava louco, e que usou aquela velha fortaleza como os soldados sãos faziam antigamente. Usou-a para defender-se. De mim. Que insulto! Mas fui notado dentro do dormitório do senhor S. Aparentemente ele havia recrutado aqueles soldados birutas. Levei alguns socos e pontapés, mas consegui fugir e manter meu penteado e ternos alinhados.

Creio que ele não pretendia me denunciar. Mesmo porque, para saber tanto, ele já estava a me estudar durante longo tempo. Mas eu não podia arriscar. Invadi o forte na mesma noite...

Com dinheiro, o mundo socialista estava aos meus pés. Contratei alguns soldados e marchei em direção ao nosso amigo. Arrebentei o enferrujado portão e adentrei o forte sem dificuldades. Ampunhando um Kalashnikov, me diverti com quem atravessou meu caminho. Os soldados, cristãos estúpidos, se detiveram à porta.

Muitos passos, muito sangue, muitos gritos e alguns cartuchos depois, cheguei até o senhor S. Não podia matá-lo com uma arma. Não, eu não. O levei para a torre leste, com muito desgosto, pois ele estava a tremer, chorar e urinar em suas próprias calças. Calças alvas! No topo da torre, travei com ele um longo diálogo. Quase me arrependi de meus atos...

Quase, porque não tive chance de o fazer: sentado no parapeito, eu é que chorava. Sentia por ter que matá-lo. Matar meu amigo de infância. Pisquei, e senti um vento frio baster em minhas costas. Abri os olhos e vi a Lua. Cai. Cai não, fui empurrado...

Meu corpo... Corpo?! Não havia corpo. Eu senti ódio. Muito profundo por sinal... Mas o senhor deve estar se perguntando, "mas e o suicídio?" Este foi suicídio! Estou tramando a morte dele desde então. Ainda não a consumei, mas é apenas uma questão de tempo!

Gostaria apenas que o senhor soubesse: há morte após a morte, e aqueles que falam em Alá são os que devem ser ouvidos.

Cordialmente, Senhor R.

Sempre olhares...

Postado por Rafael em



– Eu sei o que você está pensando. (Ele afirma).

– Então sabe que tem que ir.

– Prefiro que me diga...

– Acabei de dizer.

– Você não acha que eu mereço mais, depois de tudo?

– Você disse que sabia o que eu estava pensando. Por que está dificultando as coisas então?

– Não sei... Estou sem palavras.

– Eu não gosto disso também. Mas já estava na hora de acontecer. A gente não pode deixar tantas coisas se acumulando, sabe...

– Ah, mas por que temos que nos separar?

– Vai ser melhor, você verá.

– Não sei... Com você eu sei que conseguiria, mas sozinho...

– Confie em mim, meu amor. Será melhor.

– Ta bom, você é mais velha e sabe mais da vida.

– Engraçadinho! Agora vá!

– Calma! Você sabe que eu não gosto disso.

– Eu também não, mas acontece.

[...]

– Mas lavar louça?! Ah meu saco...

– Eu vou varrer o chão, oras.

– Saco mesmo. É muito mais fácil varrer, poxa!

– E dai? É a sua vez de ficar com a louça!

– E quando foi a sua?

Ela o beija (elas sempre sabem o que fazer...).

– Isso responde sua pergunta?

– Claro que não. Mas se essa é sua resposta para as perguntas difíceis... O que Nietzsche disse sobre o amor mesmo?

– “Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”. Há!

– Saco mesmo! Hmmm... Por amor a você, farei o “mal” de não lavar a louça então!

Ela o beija novamente...

– Mudou de idéia?

Ele a olha friamente. (Sim... Mudei de idéia. Mas e quando eu não fizer mais questão de sua presença, como me pedirá algo? - pensou).

Pobre rapaz, mal sabia que era ela quem dava as cartas. Ele, dispensá-la? Nem por um decreto...


Todo meu passado e futuro

Postado por Rafael em ,

Havia duas pessoas em uma sala de paredes e móveis brancos. O cômodo estava situado no topo de uma alta colina, coberta por neve. Pelas amplas janelas notavam-se nuvens prateadas, que mais pareciam gigantes gotas de mercúrio.

As duas pessoas debatiam há dias sobre assuntos diversos, até que chegaram a um ponto já esperado por ambos:

– Você precisa de ajuda. De minha ajuda - diz a Beatriz de Dante, com uma expressão chorosa e um sorriso amável.

– Não. Toda ajuda de que necessito está aqui, comigo - responde ele.

– Não os vejo agora...

– Eu tampouco, mas estão comigo. Sempre me observam.

– Mas eles são justamente as causas de seus problemas!

– E há companhia melhor para encontrar soluções?- diz em tom irônico, enquanto esboça um sorriso arrogante.

– Podes morrer sem minha ajuda.

– Não. Eu poderia se interferisses em meu trabalho.

– Trabalho?

– Veja... Em minha mente há dezenas de outros “eu”. “Eles” habitam diferentes círculos em minha mente - assim como na rota de vosso Dante. E quanto mais distante da Razão é o círculo, mais emocional e instintivo é meu alter ego. No entanto, até que este “eu externo” seja atingido, os impulsos são filtrados e perdem grande parte da intensidade. Por isso achas que sou uma pessoa fria...

– E não és?

– Caso aconteça algo errado, e os impulsos não sejam filtrados, há o que eu chamava de “senso de ridículo”, mas que na verdade é a minha “consciência plena”, que não está ligada aos pragmatismos do que você chama de sociedade. Este “eu superior”, diferentemente dos outros, não está a preso a nenhum círculo. E ele aconselha e ajuda-me quando estou prestes a perder o controle.

– Sim, mas...

– Bom, como eu disse, toda a ajuda de que necessito está aqui.

Havia duas pessoas em uma sala, que agora, possuía paredes e móveis negros. Esta sala não mais estava em uma colina, mas sim flutuando em um lago. E das nuvens dantes notadas pela janela, desceram anjos.

Eram sete anjos sem asas, portadores de olhos completamente negros. Trajavam ternos e túnicas brancas e estavam descalços. Possuíam aparência masculina, expressões sérias e um tanto quanto indiferentes e arrogantes.

Ouviram-se batidas firmes na porta do cômodo. Chorando, Beatriz atendeu-a, e viu algo insensato: era, indubitavelmente, um alter ego do moço com quem conversava, mas ele possuía olhos negros e inexpressivos, os quais inspiravam medo e até mesmo incerteza, pois não era possível saber para onde olhavam.

Ele entrou na sala, e sinalizou a porta à Beatriz, para que saísse. Lá fora dois anjos convencionais a esperavam, e levaram-na para uma construção distante dali.

– Sabia que resistirias. - diz o anjo.

– Sim. Mas não me sinto bem sabendo que ainda não disponho de vossa confiança. E Beatriz... Gostava tanto dela...

– Não te preocupes com ela. Sabes que ela será mais feliz longe de ti.

– Tens mesmo que me testar assim?

– Não mais. Hoje conhecerás vossa Beatrice. Vossa verdadeira Beatrice!

– Gostaria de saber o nome dela... O nome real.

– Creio que já a conheces. Vamos, venha comigo.

Os outros anjos juntaram-se a eles, e então mergulharam no lago. Naquelas águas frias, o rapaz viu todas as imagens que costumava ver quando criança, todas suas amantes, além de fragmentos do futuro. Não havia nada a temer ou duvidar.

Após certo tempo de submersão, notaram a presença de uma moça. Os anjos entreolharam-se, e sorriram ao ver a felicidade de seu protegido. Uma felicidade tão intensa que foi quase capaz de fazê-lo esquecer que, ao contrário de seus protetores, ainda precisava respirar.

Com grande esforço, ele foi capaz de chegar até “Beatrice”, e constatou, com extrema felicidade, que realmente já a conhecia! Sentindo-se cada vez mais desconectado àquele mundo, optou por um primeiro e último beijo na moça, e então morreu. [...]

Abraxas

Postado por Rafael em ,

Cheguei a um ponto em que não sei o que sou eu. E apesar de não acreditar na polarização “bem e mal”, tão comum na literatura barata e amplamente difundida pelas mídias de massa, não sei em qual grupo me encaixaria.

Sempre achei que era uma boa pessoa, no entanto, imagino que todos pensem isso de si mesmos. E não posso crer em meu julgamento no assunto, já que estou há muito tempo em minha mente. Tampouco posso crer nos julgamentos de outrem, que podem não me conhecer como me conheço. Paradoxal...


Aquela mulher, uma mãe, e a pequena menina, sua filha. A mãe julgava-se boa; a menina era esperta o bastante para saber que ambas não tomavam decisões sensatas.

A mulher processava o condomínio no qual morava, pois sua filha havia se machucado no que ela chamou de “armadilha letal”. O fato é que sua filha, que brincava no parquinho, caiu e fraturou o braço além de deslocar o ombro direito. Segundo a mãe, o acidente foi ocasionado pela falta de sinalização adequada...

Aquele homem, vestindo um terno, andava pela rua. Mas, repentinamente, decidiu deitar-se na calçada. E lá ficou, até que outro homem, também de terno, tropeçou em seu corpo:

– Jesus! Perdoe-me, eu não o vi aí. Você está bem?

– Sim.

– O que houve, você caiu?

– Não. Estou bem. Por favor, deixe-me em paz.

– Você esteve bebendo.

– Não estive bebendo.

– Por que está deitado no meio da calçada? Você poderia ter quebrado meu pescoço!

–...

– Olhe, o que há de errado? Aqui, deixe-me ajudá-lo.

– Não! Não toque em mim!

Não demorou muito até várias pessoas começaram a aglomerar-se para ver o que o estava acontecendo:

– O que há com ele? Ele caiu?

– Não... Ele não caiu. - respondeu o rapaz.

– Ele está machucado?

– Não, por favor, todos vocês, deixem-me em paz - disse o homem.

– Ele deve estar louco.

– Não sou louco, apenas deixem-me em paz.

– Por que está deitado aí? Por que não me diz qual o problema? - indagou o rapaz que tropeçou.

­– Veja, não posso lhe dizer... Não seria correto.

Então chegou um oficial - um dos que observam as pessoas assegurando-se de que o direito de vingança continua sendo monopolizado pelo Estado – e perguntou:

– Você está bem?

– Estou bem. Por favor, apenas deixe-me deitar aqui.

– Temo que não possa deixar que faça isso senhor.

– Apenas me diga porque está deitado ai! Diga-me! - exclamou o rapaz.

– Você não quer saber, acredite em mim.

– O que há? Vamos todos morrer, é isso? Por isso está deitado aí?

– Não.

– Diga-nos, pelo amor de Deus! - gritou o oficial.

– Querem saber por que estou deitado aqui?

– Sim!

– Querem mesmo saber?

– Diga-nos!

– Sim, lhes direi, direi porque estou deitado aqui. Mas que Deus me perdoe, e que Ele nos ajude, porque vocês não sabem o que estão me pedindo.

– Diga-nos!

Eu realmente sinto por não poder escrever as palavras dele. Ninguém poderia. Mas peço que não alimentem sentimentos negativos em relação a mim; não conto o famigerado segredo porque eu mesmo não o sei. Apenas imagino que esteja relacionado à descoberta do responsável de todos os nossos problemas ou algo do gênero.

Aqueles homens e mulheres, todos vestidos, decidiram deitar-se na calçada. Não estavam loucos, não haviam caído. Aparentavam olhar o céu, a rua... Mas estavam olhando para si mesmos, tentando descobrir algo mais adequado à situação além de deitar-se.

O condomínio ofereceu um acordo, no qual pagaria por todas as despesas médicas. Mas a mulher, orientada por um homem, que já andou na rua, de terno, almejava uma indenização milionária. Afinal de contas “minha filha poderia ter morrido! E porque tentou acender um cigarro enquanto estava pendurada naquela 'armadilha'! Se houvesse placas dizendo que era proibido fumar ela estaria bem!” - dizia ela. O pior é que aquilo fazia sentido para alguém.

PS: Há um link, semi-secreto, neste blog. Ele o levará à representação gráfica em movimento do que ocorreu. E Radiohead é o que há, ficando somente atrás de água e outras coisas.