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Grande Seca

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Grande Seca na Região Nordeste do Brasil (1877–1879)
Mapa da região da seca de 1877, do engenheiro André Rebouças, acervo da Biblioteca Nacional.
Duração1877-1879
VítimasEntre 400 000 e 500 000 mortos
190 000 deslocados
Áreas afetadasRegião Nordeste do Brasil
CausasLongo período com índice pluviométrico abaixo do esperado

A Grande Seca, ou a seca no Nordeste brasileiro de 1877–1879, foi o mais devastador fenômeno de seca da história do Brasil, ocorrido no período imperial brasileiro.[1] A calamidade é responsável pela morte de entre 400 000 e 500 000 pessoas.[2][3] De um total de 800 000 pessoas que viviam na área afetada da região Nordeste, em torno de 120 000 migraram para a Amazônia, enquanto 68 000 migraram para outras partes do Brasil.[2] A região mais afetada foi a província do Ceará. Foram três anos seguidos sem chuvas, sem colheita, sem plantio, com perda de rebanhos e com a fuga das famílias, deixando despovoado o sertão. Tanto esse evento de estiagem quanto anteriores e posteriores estão associados ao fenômeno El Niño e suas interferências diretas ao clima dessa e outras regiões.

Antes da Pandemia Mundial de COVID-19, era o maior desastre natural do Brasil por número de mortos.[4][5]

Histórico

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O fenômeno El Niño interfere diretamente nas condições climáticas de determinadas regiões brasileiras. No Brasil a variação no volume de chuvas e/ou outras mudanças depende de cada região e da intensidade do fenômeno. Na Região Sudeste, há o aumento da temperatura média. Na Região Sul, aumento da temperatura média e da precipitação, principalmente na primavera e no período entre maio e julho. Já nas Regiões Nordeste e Norte, diminuição de chuvas causando secas no sertão nordestino e incêndios florestais na Amazônia; respectivamente. Historicamente, no Nordeste os registros de mudanças climáticas mostram-se ora mais brandos, ora mais críticos – não sendo estabelecido um padrão.

A população de certo modo foi pega de surpresa, já que a última grande seca ocorrida nas "províncias do Norte" havia sido há mais de 30 anos, entre 1844 e 1845. Nessa época, nada ou pouco pôde ser feito para amenizar suas consequências pela falta de recursos da engenharia. Na seca de 1877, até as famílias abastadas partiram em busca de refúgio junto a parentes que habitavam as serras e o litoral. Os adultos iam montados nos cavalos seguidos pelos carros e bois cheios de mulheres, crianças e bagagens, tendo na retaguarda os vaqueiros e os ajudantes conduzindo o que restara do gado. Os pobres seguiam a pé, na poeira das estradas, os adultos levando as crianças menores, puxando o que restava do rebanho de cabras ou vacas, o cachorro de estimação atrás. Esses eram chamados de retirantes ou flagelados, que eram perseguidos e expulsos quando estacionavam nas vizinhanças de um povoado.

Os moradores temiam os saques nos comércios e armazéns, como rotineiramente acontecia. As cidades, além dos vales férteis, ficavam apinhadas de flagelados. Aracati, que contava com cinco mil habitantes, passou a abrigar mais de 60 mil pessoas. Fortaleza converteu-se na capital do desespero: de 21 mil habitantes pelo censo de 1872, passou a ter 130 mil. Muitos dos retirantes morriam nas veredas e estradas. Os que alcançavam os centros urbanos chegavam à beira do colapso e impressionavam pela desnutrição.

A economia provincial, já abalada pela crise do algodão, quase acaba de vez. Escravos são vendidos para o sudeste; os rebanhos, salvo algumas cabeças conduzidas pelos retirantes, eram dizimados pela ação das zoonoses, furtos, extravios, fome e sede. A flora e fauna praticamente desaparecem; as lavouras exterminadas. Para agravar o quadro de tragédia, um surto de varíola dizima milhares de pessoas. Mulheres se prostituem em troca de comida, multiplicam-se os casos de roubo, furto e estupros.

Na seca de 1877, o Ceará – a região mais afetada das províncias do Norte – perdeu o equivalente a um terço de sua população: estima-se que 200 mil pessoas morreram e outras migraram para outras regiões.

Enquanto a população sofria com a estiagem e a escassez de água e alimentos, alguns setores beneficiaram-se com a seca, como algumas casas comerciais estrangeiras, a exemplo da Boris Frères, que comercializava artigos de primeira necessidade.[6]

Causas e fatores contribuintes

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Fatores ambientais

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O sertão brasileiro no Nordeste

O Nordeste brasileiro é uma área onde o desenvolvimento político e social foi dificultado pelo ambiente hostil do sertão árido. Caracterizado pela presença de nove grandes rios, entre os quais o São Francisco e o Parnaíba, o sertão tem uma temperatura média anual entre 20 °C e 28 °C, com máxima de 40 °C.[7] A pluviosidade da área é uma fonte de preocupação tanto para agricultores quanto para governos locais. Embora a precipitação média anual seja ligeiramente inferior a 1.000 mm,[7] o período chuvoso, que geralmente dura apenas dois meses por ano, é instável. Por vezes, a precipitação cessa por um ano ou mais, causando secas regionais frequentes. Ocorrências sustentadas de disponibilidade de água abaixo da média podem acontecer em todas as áreas do país como consequência de taxas de precipitação anormalmente baixas e altas taxas de evaporação; mas é no Nordeste onde elas ocorrem com maior frequência.[8] A Zona da Mata, que corre ao longo da costa nordestina e na qual se localizam as principais cidades, é um sub-bioma onde as chuvas são frequentes e a vegetação é abundante. Esta área não costuma sofrer com secas, mas a magnitude da Grande Seca foi tão grande que até a região litorânea foi impactada. Como os rios que fluem para a costa quase sempre têm sua origem no sertão, uma seca nas sub-regiões semiáridas e áridas pode se estender por toda a área nordestina.[9] Antes do assentamento português no século XVI, não havia problemas prementes, pois o ecossistema predominante da caatinga estava adaptado ao clima cíclico. Grupos indígenas que habitavam a terra eram afetados por secas extremas, que os forçavam a se deslocar para a região costeira úmida, mas estas ocorriam raramente.

O Nordeste é fortemente influenciado pelo fenômeno El Niño (El Niño–Oscilação Sul) e pelas temperaturas da superfície do Oceano Atlântico.[9] Anos de El Niño são caracterizados por chuvas abaixo da média na zona semiárida, que tipicamente apresenta média de 800 mm anuais, mas concentrada em um breve período de tempo, às vezes inferior a dois meses. Durante secas extremas, a precipitação pode diminuir em mais de 50%.[9] Como consequência direta da variação nos padrões climáticos ao redor do mundo em 1877, partes do Ceará testemunharam apenas quatro dias de chuva, de 18 a 21 de março. Essas chuvas permitiram que as sementes germinassem, mas não foram suficientes para sustentar a agricultura e os rebanhos de gado. Grande parte da vegetação pereceu rapidamente.[10]

A situação criada pela crescente migração humana para o interior do Nordeste tornou a terra mais vulnerável à seca. A ausência de água impacta primeiro a agricultura, mas também tem ramificações econômicas, sociais e ambientais.[11] A seca é agora parte integrante do ambiente nordestino e vários episódios ao longo da história causaram sérios danos aos seus estados, embora sejam frequentemente esquecidos assim que passam. A produção agrícola e de pastagens volta ao normal, dando às pessoas uma breve sensação de segurança antes que a próxima seca chegue. Essa recorrência de eventos e estagnação comportamental foi denominada como o "ciclo hidro-ilógico" pelo Professor Donald Wilhite da Universidade de Nebraska–Lincoln.[12]

Crianças durante a seca, 1878

Na época da Grande Seca, a agricultura no Nordeste consistia principalmente de cana-de-açúcar, algodão e agricultura de subsistência. A prosperidade econômica do início do século XIX exigiu um aumento de terras aráveis, o que levou a mais erosão do solo e contribuiu para a catástrofe de 1877–79.[13] Autoridades públicas e especialistas apontaram o rotinismo — a ideia de seguir cegamente a tradição sem buscar melhorias — como um problema que agravou os impactos da Grande Seca.[14] Um exemplo de rotinismo é a forte dependência de monoculturas, nomeadamente cana-de-açúcar e algodão, o que acelera a erosão do solo. Outra instância é a falta de tentativa de comercializar a mandioca, que poderia fornecer renda adicional e diminuir a necessidade de uso da terra.[13] Além disso, os sertanejos não podiam tirar proveito de sistemas de irrigação funcionais para armazenar e racionar água, devido tanto à falta de interesse do governo na região quanto ao desconhecimento agrícola por parte dos produtores.[14] A monocultura intensiva e inadequada e a ausência de uma rede robusta de poços artesianos, barragens e reservatórios exacerbaram rapidamente os problemas criados pela seca.

Outra preocupação eram os vastos rebanhos de gado. Antes do boom do açúcar do século XVIII e início do XIX, os rebanhos eram encontrados predominantemente na zona da mata. Quando os produtores se mudaram para a costa, os rebanhos foram empurrados para o sertão que, como argumentou Kenneth Webb, “não é realmente muito bom para o gado”, mas foi adaptado para esse uso.[15] A população bovina também aumentou de 1,2 milhão em 1860 para 2 milhões em 1876.[16] Legislação foi introduzida para limitar o número de cabeças, mas foi amplamente ignorada pelos fazendeiros que dependiam dela como fonte vital de alimento. Muitos hectares de terra eram necessários para uma única vaca, e o sobrepastoreio levou facilmente a uma erosão cada vez mais rápida. Em 1877, quando as chuvas de inverno atrasaram, muito do gado e das plantações foram destruídos, o solo erodiu rapidamente e a terra tornou-se mais seca como consequência. Ironicamente, durante o estágio inicial da Grande Seca houve abundância de carne de sol, mas isso ocorreu apenas porque as pessoas estavam matando o gado antes que os animais se tornassem totalmente imprestáveis.[17]

Clima social

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Na época da Grande Seca, a diferença regional entre o Nordeste e o Sudeste era um fator significativo no Império do Brasil e exacerbou o desastre ambiental.[18] O Nordeste tinha sido o epicentro do boom econômico liderado pelo açúcar no século XVIII e também viu um aumento na produção de algodão, que se tornou uma das maiores exportações por volta de 1800.[19] O Sudeste, por outro lado, desenvolvera-se mais recentemente, e a indústria cafeeira independente assumira o mercado, ditando as taxas de câmbio e superando a outrora fervilhante indústria do açúcar e a igualmente importante indústria do algodão do Nordeste.

Ferrovias no Brasil, século XIX

Em 1870, a qualidade de vida no Nordeste era semelhante à da Região Sul e do Sudeste;[20] entretanto, isso mudou muito rápido, pois a renda per capita no Nordeste caiu 30%, enquanto permaneceu praticamente inalterada no Sul.[20] O desenvolvimento regional desigual no século XIX pode ser visto na valorização e desvalorização dos produtos nas duas regiões. No Ceará, o valor do produto per capita passou de £2,2 em 1872 para £0,8 em 1900, uma variação de -275%.[21] Em São Paulo, o valor do produto per capita aumentou de £3,1 para £15,7, uma variação de +506% no mesmo período.[21]

Na década de 1870, os estados do sul voltaram sua atenção para a imigração como solução para a indisponibilidade de mão de obra para sua economia em rápido crescimento. As elites exigiam que os migrantes fossem trazidos para o Sul não das províncias do Nordeste, mas de países europeus e asiáticos.[22] As motivações por trás dessa preferência não são totalmente claras, mas Leff e Deutsch culpam as atitudes raciais por parte dos cafeicultores que consideravam os sertanejos como preguiçosos e menos produtivos.[22]

A infraestrutura nas regiões do Sul era muito mais desenvolvida e eficiente do que nos estados mais pobres do Nordeste. A primeira ferrovia foi concluída em 1854, ligando o Porto de Mauá à Raiz da Serra, na província do Rio de Janeiro.[23] Por volta de 1900, o Brasil possuía cerca de 20.000 km de trilhos.[23] Como mostrado na Figura 1, o Sul tinha uma rede ferroviária mais elaborada, o que também contribuía para o transporte de mercadorias. Em contraste, o complexo ferroviário do Nordeste era muito limitado, servindo principalmente cidades costeiras. Em 1889, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais — as principais províncias cafeicultoras — detinham 65% do total de trilhos ferroviários, comparado a apenas 35% do restante do país.[21] A falta de ferrovias extensas no Nordeste significava uma locomoção mais lenta de mercadorias e pessoas e custos de transporte mais elevados. Combinado com o baixo número de rios navegáveis e a precariedade das estradas no Nordeste, as disparidades entre as duas regiões levaram ao agravamento da seca.

Além disso, a maioria das autoridades públicas no Sul acreditava que os sertanejos não estavam dispostos a trabalhar, o que para eles explicava a dinâmica lenta da economia do Nordeste. No entanto, vivenciando a ausência de desenvolvimento infraestrutural em primeira mão, os sertanejos pensavam que o governo Imperial favorecia os estados do Sul e lhes oferecia poucas ou nenhuma oportunidade de trabalhar e melhorar a infraestrutura de que tanto necessitavam. A indisponibilidade de investimento governamental no Nordeste deve-se em parte a dificuldades financeiras, mas para muitos nordestinos foi vista como uma tentativa maliciosa de retardar o crescimento econômico em sua terra.[13]

Como resultado da desigualdade econômica e social regional, a tensão entre as províncias contribuiu para a gestão ineficaz dos problemas criados pela Grande Seca.

A economia brasileira durante a segunda metade do século XIX focava na exportação de matérias-primas. O mercado interno era subdesenvolvido devido à falta de crédito e à total autossustentabilidade de agricultores, vilas e cidades cujas fontes primárias de alimento eram a agricultura de subsistência e a pecuária.[24] Durante a primeira metade do século XIX, o governo Imperial alocou uma quantidade significativa de recursos para a construção de estradas e portos. As primeiras tornaram o transporte inter-regional muito mais fácil (embora quase exclusivamente no Sul) e os últimos abriram a porta para o comércio exterior. Para um país com capital limitado, as exportações eram fundamentais para a sobrevivência da economia do Brasil. O açúcar e o algodão foram as principais exportações durante grande parte do século XVIII e início do XIX. O café, no entanto, fez uma entrada triunfal no início de 1800 e cresceu rapidamente devido, entre outros fatores, à falta de concorrentes notáveis ao redor do mundo, em contraste com as indústrias globais de açúcar e algodão. Vale notar que a indústria do algodão estava em expansão na década de 1860 como consequência da Guerra Civil Americana e suas repercussões nos mercados de algodão na América do Norte.[25] Esse crescimento econômico rápido e ilusório proporcionou renda suficiente ao Nordeste, mas foi seguido por dívidas, entrincheiramento e estresse durante a década de 1870.[25] Com a industrialização e a melhoria dos padrões de vida na Europa e na América do Norte, o consumo de café expandiu-se enormemente.[26] Na década de 1820, o café representava 19% das exportações totais, mas em 1891, essa participação subiu para 63%.[26] O produto, produzido quase exclusivamente nas três províncias do Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais), empurrou os preços do açúcar e do algodão para baixo, arrastando a economia do Nordeste para o declínio pouco antes da seca.[26]

À medida que o Brasil se separava de Portugal e declarava a independência, a Grã-Bretanha começou a encurtar sua distância da nação recém-independente, tornando-se seu principal parceiro comercial e protetorado informal em meados de 1800.[27] A evidência mais clara da hegemonia britânica foi exibida pelos laços financeiros entre os dois Impérios. Pouco antes da Grande Seca, 51% das importações vinham da Grã-Bretanha e 37% das exportações eram consumidas pela mesma.[27] Os déficits comerciais no Brasil foram "repetidamente financiados por empréstimos britânicos punitivos cujos pagamentos de juros geravam déficits orçamentários permanentes que, por sua vez, eram financiados por ainda mais títulos estrangeiros."[27] Os principais exportadores eram todos britânicos e a maioria das casas de importação era financiada por empresas britânicas e especializada em importações britânicas.[27] Além disso, em 1870, quatro empresas britânicas possuíam 72% das ferrovias brasileiras, que haviam sido subsidiadas pelo capital britânico.[26] A dependência econômica do Império Britânico acorrentou o Brasil a políticas financeiras que precisavam proteger os interesses britânicos. Além disso, o sistema bancário no Brasil era subdesenvolvido, com 13 das 20 províncias não possuindo sistemas bancários locais.[27] O Banco do Brasil "limitou-se à gestão conservadora da oferta monetária no interesse dos credores britânicos."[27] O capital total de toda a nação era de £48 milhões, uma soma insignificante comparada ao capital dos bancos britânicos.[27] Os bancos estrangeiros eram conhecidos por sua má vontade em "fazer empréstimos de longo prazo para a agricultura ou interesses domésticos",[28] negligenciando convenientemente o Brasil quando a necessidade de investimento era maior. Assim, a incapacidade do governo brasileiro em implementar projetos de infraestrutura em muitas áreas do país deveu-se à natureza sufocante da dívida externa — a maior parte da qual estava ligada à Grã-Bretanha —, ao sistema bancário primitivo e à volatilidade de sua renda de exportação.[29] Este estado financeiro contribuiu para a magnitude da Grande Seca na medida em que limitou o crescimento econômico do Nordeste, aumentou a vulnerabilidade de seu povo e tornou os esforços de socorro mais difíceis de serem realizados.

A reação em todo o mundo foi moderada. No Brasil, canais de comunicação precários e uma percepção de superioridade por parte do Sudeste, politicamente dominante, fizeram com que os relatos da seca fossem amplamente ignorados. Fora do Brasil, o Eurocentrismo onipresente desencorajou a cobertura do desastre.

Nas áreas do Brasil não afetadas pela seca, a reação inicial foi inexistente. As elites do sul do Brasil viam a seca como um produto da "preguiça nordestina".[30] Essas elites citavam a falta de infraestrutura, como poços profundos e barragens, embora a construção desses projetos já estivesse em andamento antes da seca.[31] Greenfield escreve que senadores brasileiros questionavam a inteligência dos sertanejos ao perguntarem por que eles próprios não haviam construído poços artesianos.[31] Segundo o autor, a ilusão dos senadores advinha de realidades sociopolíticas extremamente diferentes entre eles e a população do sertão em dificuldades.[32]

A seca também pôs fim à crença popular do excepcionalismo brasileiro em relação aos miasmas tropicais.[33] O discurso científico dominante da época afirmava que o clima dos países tropicais tornava as pessoas preguiçosas e pouco inteligentes, permitindo que doenças proliferassem.[33] O Brasil não havia enfrentado grandes epidemias de varíola, febre amarela e cólera entre o contato inicial dos exploradores portugueses com a população indígena (quando estes contraíram doenças para as quais não tinham resistência) e o período da seca.[33] No entanto, em 1878, as epidemias varreram o país.[34]

A Grande Seca marcou o início do uso generalizado do socorro à seca para fins de clientelismo. A ajuda era tipicamente usada para recompensar apoiadores poderosos. Greenfield escreve que os líderes das forças policiais locais eram particularmente propensos à corrupção, pois eram nomeados pelos líderes políticos locais.[35] As nomeações eram feitas como patronato a apoiadores importantes.[35] O auxílio à seca era uma fonte lucrativa de fundos governamentais, por isso as comissões de socorro frequentemente o utilizavam para enriquecimento próprio.[36]

Inicialmente, esses fundos governamentais foram destinados ao reassentamento de habitantes locais em plantações, na esperança de torná-los autossuficientes.[36] Uma vez que inundaram as cidades costeiras e as plantações de açúcar vizinhas, houve um excesso de mão de obra livre.[37] Muitos proprietários de terras ricos venderam seus escravos e contrataram os reassentados como parceiros agrícolas.[36]

No resto do mundo, a Grande Seca mal foi noticiada. A cobertura era eurocêntrica e a seca não causou uma emigração em massa para fora do Brasil, como ocorreu na Fome na Irlanda.[38] Os sertanejos eram tipicamente deslocados internos, com muitos mudando-se para a Amazônia em busca de trabalho na extração do látex.[38]

Um artigo aprofundado apareceu no New York Herald em 1879.[39] Escrito pelo naturalista americano Herbert Huntingdon Smith, o texto descrevia cenas angustiantes de "esqueletos vivos",[39] cabanas superlotadas repletas de migrantes e até casos de canibalismo.[39] O artigo do Herald não mobilizou ajuda internacional substancial, apesar das descrições sensacionalistas.

A Grande Seca é mencionada duas vezes em edições da publicação mexicana La Colonia Española. Um artigo sobre assuntos mundiais relatou que a seca ainda estava em curso,[40] enquanto a outra menção ocorre no contexto de uma árvore resistente à seca nativa do sertão.[41] Neste contexto, as propriedades de resistência à seca da árvore foram o foco do artigo, em vez da catástrofe em si.[41]

Embora fosse mais uma exceção, os sertanejos foram ajudados por alguns membros da elite, como Rodolfo Teófilo, um farmacêutico que desenvolveu uma vacina contra a varíola e a distribuiu pelo sertão.[42] A maioria da ajuda inicial para as vítimas da seca foi reunida por meio da caridade civil. Alguns cidadãos em províncias menos afetadas, como Pernambuco, criaram subscrições públicas e enviaram o dinheiro e outros itens de socorro coletados às vítimas através de navios, sem que lhes fosse cobrado pelo transporte.[39] No entanto, as provisões compradas não foram necessariamente "adquiridas com sabedoria" e logo ficou claro que apenas a caridade privada não era suficiente para superar o desastre.[39]

Resposta governamental

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A Grande Seca impactou historicamente as políticas públicas brasileiras relacionadas à estiagem. Greenfield menciona que "as raízes da própria definição de seca e de socorro como questões nacionais remontam à Grande Seca".[43] O governo brasileiro só reconheceu a seca no Nordeste como um assunto nacional que deveria receber atenção governamental após esse evento.[44]

Em outubro de 1877, o primeiro posicionamento do Império para resolver o problema foi formar uma comissão com o objetivo de percorrer o Ceará, estudando meios práticos de suprir provisões de água suficientes para a população e para a pecuária durante as secas, além de estabelecer um sistema de irrigação para sustentar o cultivo da terra.[45] Esta comissão foi formada por membros do Instituto Politécnico do Rio de Janeiro e outros intelectuais do Sudeste.[46]

A classe intelectual do Sudeste também formulou as políticas governamentais.[47] Como esses intelectuais não estavam na região afetada, não conseguiam dimensionar o que estava acontecendo no Nordeste, fazendo com que o auxílio governamental fosse insuficiente e até inexistente nos meses iniciais da seca.[48] De fato, após receber pedidos de ajuda de alguns presidentes de províncias nordestinas, o governo Imperial acreditou que eles estavam abusando de seus orçamentos de socorro, e alguns membros do governo chegaram a acreditar que a seca sequer existia.[48] Mesmo políticos locais acreditavam que o pedido de socorro era prematuro, pois a chuva poderia começar a qualquer momento.[48]

Em meados de 1877, o governo investiu dois mil contos de réis em socorro, mas devido à falta de infraestrutura, era impossível alcançar as áreas remotas.[49] Em janeiro de 1878, João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, um liberal de Pernambuco, assumiu o cargo de primeiro-ministro e criou um programa de socorro público.[48] O programa de Sinimbu baseava-se na ideia do senador Pompeu de alavancar o desenvolvimento econômico da região assolada com base na mão de obra barata e abundante: os retirantes.[50] O programa distribuía socorro direto, como comida e água, bem como socorro indireto, como oportunidades de emprego, mas apenas em regiões próximas à costa, provocando uma onda migratória para o litoral.[50]

Essas políticas foram influenciadas pelo fato de o governo estar passando por um déficit econômico e enfrentando o pagamento de empréstimos estrangeiros que venceriam no ano seguinte.[51] As políticas de Sinimbu também eram sustentadas por um discurso moral criado pelas elites.[18] Na perspectiva da elite, os sertanejos eram preguiçosos, ociosos, viciosos e indolentes.[52] Portanto, o melhor remédio para superar sua suposta preguiça e salvar a economia do governo seria através do "trabalho moralizador".[53]

A força de trabalho dos retirantes foi empregada na construção de estradas, edifícios públicos, ferrovias e até acampamentos de trabalho improvisados.[54] À medida que os refugiados começaram a se concentrar nas cidades costeiras, o governo implementou outra política que enviava os sertanejos para serem usados como mão de obra barata na Amazônia, para a extração da borracha, e no Sudeste, para a produção de café.

Em junho de 1879, todo o auxílio governamental foi interrompido, embora a seca não tenha terminado até 1880.[55] Após a Grande Seca, o Nordeste foi constantemente castigado por estiagens recorrentes (1888–89, 1900, 1903–04) e, em 1909, o governo criou a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS).[56] Este órgão governamental focou principalmente no aumento da infraestrutura de armazenamento de água, mas até hoje o sistema continua insuficiente para promover o alívio necessário durante as secas.[57]

A primeira grande obra pública em resposta à seca é o Açude do Cedro, construído em Quixadá, Ceará, entre 1881 e 1906. Embora o Açude do Cedro não seja mais utilizado para seu fim original, desempenha um papel importante como legado das memórias históricas e culturais do Ceará.

Emigração

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À medida que as condições de vida no sertão tornaram-se ainda mais difíceis, a emigração tornou-se a única opção para as vítimas da seca. Em meados do verão, no sertão dos Inhamuns, por exemplo, apenas 10% da população esperava em suas casas pelo fim da estiagem.[58] Com as políticas públicas encorajando a emigração, os retirantes fugiram para os povoamentos costeiros, para a Amazônia, para o Sudeste e para qualquer outro assentamento no Nordeste que não tivesse sido afetado pela seca.[59]

A emigração provocada pela escassez de suprimentos pressionou áreas que inicialmente não foram afetadas pela seca, causando a propagação do desastre e de epidemias.[60] As condições de trabalho dos refugiados eram repletas de privações e doenças, em particular a varíola, e algumas políticas não permitiam que os sertanejos recebessem alimentos sem trabalhar.[61]

Durante a Grande Seca, a força de trabalho dos refugiados foi empregada no desenvolvimento de projetos hidráulicos, como barragens, açudes e reservatórios, bem como em linhas ferroviárias, sob contratos com o setor privado.[62] Mike Davis afirma que nas áreas costeiras do Nordeste, à medida que o número de retirantes aumentava, a elite preferia arriscar a possibilidade de perder o excedente de mão de obra a viver sob uma "ameaça insurrecional" conforme as vítimas se reuniam e, portanto, apoiava o deslocamento dos retirantes para a Amazônia.[58]

Leishmania braziliensis

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Leishmania braziliensis é uma espécie de leishmânia ou leishmaniose que surgiu no Nordeste do Brasil. É uma doença infecciosa transmitida por um parasita em flebotomíneos (conhecidos como mosquito-palha) que utilizam cães domésticos como hospedeiros.[63] Teoriza-se que a emergência da leishmaniose no Brasil, especificamente no estado do Ceará, remonte à Grande Seca do século XIX. A Grande Seca de 1877 a 1878 levou à migração em massa de aproximadamente 55.000 brasileiros do Ceará para a Amazônia para trabalhar nos seringais.[64] A doença é transmitida fácil e majoritariamente em plantações onde as pessoas vivem e trabalham.[65]

As evidências diretas e primárias da existência da leishmaniose são mínimas, visto que a doença era desconhecida no Nordeste e, portanto, não foi identificada e rotulada até 1895 na Bahia.[66] Apesar da falta de evidências associadas a esse nome, ainda existem relatos de uma doença que corresponde às descrições da Leishmania braziliensis. Em 1827, antes da Grande Seca, Rabello cita relatos de missionários na região amazônica que viram pessoas com lesões cutâneas que se encaixavam na descrição da doença. Em 1909, Studart, um estudante de medicina recém-formado na época da seca, relatou uma condição de pele com potencial de ser leishmaniose.[67] Também é possível que, em combinação com a falta de informações gerais e conhecimento público sobre a doença, somada às mortes e sepultamentos em massa ocorridos entre 1877 e 1879, as pessoas estivessem morrendo de leishmaniose sem saber a verdadeira causa.

Em 10 de dezembro de 1879, Studart relatou ter visto mais de mil pessoas mortas em um único dia.[67] É muito possível que uma parte delas possa ter morrido por causa da leishmaniose. Uma doença desconhecida também é mencionada por Herbert Huntington Smith, que contabiliza as causas de morte de 430 mil pessoas das 500 mil que morreram, atribuindo a causa da morte das 70 mil restantes a "várias doenças".[64] Como poucas fontes primárias foram preservadas, conforme afirmado francamente pelo escritor sobre secas João Eudes da Costa, é muito difícil encontrar fontes desse período que apontem diretamente para a presença da leishmaniose durante a Grande Seca. Independentemente disso, há evidências da doença antes e depois da seca, portanto, é altamente provável que ela estivesse presente e tenha sido exacerbada durante o evento. Após contraírem e disseminarem a doença dentro das plantações, os trabalhadores deixaram a Amazônia e retornaram ao Nordeste portando o parasita, introduzindo os primeiros casos de Leishmania braziliensis no estado.

Número de mortos

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Uma das vítimas da Grande Seca, Ceará, 1877. Foto de Joaquim Antônio Correia, "Vítimas da Grande Seca", Albúmen - Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil.

"A peste e a fome matam mais de quatrocentos por dia", escreveu o escritor Rodolfo Teófilo, horrorizado com o que assistia; parado numa esquina, que em pouco tempo viu passarem vinte cadáveres. "E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco: e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura". As notícias incomodavam a Corte, onde o imperador chegou a dizer: "Não restará uma joia da Coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome".[68]

A grande seca em sua severidade impôs um movimento de diáspora em território brasileiro ao povo nordestino. Isso porque as estiagens anteriores – embora severas – não ocorreram com tamanha intensidade, já que nessa ocasião, tanto a população, quanto a flora e fauna foram severamente atingidos e nem haviam forçado o povo a abandonar suas terras em grande escala na busca pela sobrevivência. Grandes massas populacionais moveram-se para as regiões Norte e Sudeste, numa calamidade que atingira tanto pobres quanto ricos.

Por todas as estradas vinham fluxos de fugitivos, homens e mulheres e criancinhas, nus, magros, enfraquecidos pela fome, arrastando-se cansadamente pelas planícies... Eles estavam famintos... as crianças ficavam para trás por fraqueza, chamando em vão por seus pais em pânico; então homens e mulheres tombavam e morriam sobre as pedras.[69]

Hoje se calcula que morreram cerca de quinhentas mil pessoas em consequência da seca de 1877.[carece de fontes?] O engenheiro André Rebouças, abolicionista, negro, respeitado por suas ideias progressistas, calculava em mais de dois milhões as pessoas atingidas pela seca, ainda em novembro de 1877. Dos mortos de 1877 a 1879, calcula-se que 150 000 faleceram de inanição e 100 000 de febres e outras doenças, 80 000 de varíola e 180 000 de fome, alimentação venenosa e sede. Acredita-se que a Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1879 ceifou a vida de mais da metade das 1 754 000 pessoas que residiam na área atingida pela tragédia. Esse foi de longe a maior catástrofe gerada por fenômenos naturais que ocorreu no país.

Embora a inconsistência entre as fontes possa ser desconcertante, a variabilidade é compreensível e explicável quando se estuda a Grande Seca como uma epidemia nacional, em vez de apenas uma estiagem. Um indício de desastre nacional é aparente, pois a chegada do El Niño e da Grande Seca também marcou o reaparecimento da varíola. Em 1878, no auge da seca, a varíola ressurgiu no Ceará, onde os milhares de emigrantes desesperados aglomerados em campos de refugiados criaram um ambiente propício para a transmissão da doença.[34] Com uma estimativa de que 95% da população de Fortaleza carecia de vacinação, nos três meses seguintes mais de 15.000 vidas foram ceifadas pela varíola.[70] Embora a varíola fosse prevalente em todo o Brasil antes da Grande Seca, é difícil determinar se a doença teria reaparecido de forma tão feroz sem a população de Ceará, já propensa a doenças, malnutrida e condensada.

Outra causa de discrepância pode estar relacionada ao censo falho do Ceará no século XIX, que frequentemente omitia a maioria das crianças nascidas pardas porque seus pais eram desconhecidos (o que sugere que senhores engravidavam suas escravas).[71] Essas crianças não contabilizadas distorcem as estatísticas populacionais e, portanto, o número de mortos também. Além disso, como essas crianças nasceram pardas, pode-se presumir que, se atingissem a idade adulta, não possuiriam alto status socioeconômico, o que significava uma maior vulnerabilidade aos efeitos desastrosos da seca. Além disso, os filhos da população parda não contabilizada também eram desfavorecidos; com maior suscetibilidade a doenças, o presidente do Ceará comentou a "triste verdade" da taxa de mortalidade desproporcional de crianças malnutridas.[25]

Desde a década de 1840 – especificamente desde a seca de 1844 – a ideia de transposição das águas do rio São Francisco já era considerada como a única solução para a seca no Nordeste.[carece de fontes?] Entretanto, estudos feitos pelo Barão de Capanema após a Grande Seca de 1877 demonstraram não haver recursos técnicos para fazer com que as águas transpusessem a Chapada do Araripe, localizada na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco.

Em razão da situação calamitosa do Nordeste o governo imperial enviou, no período 1877/79, uma comissão de engenheiros que determinaram a perfuração de poços, a construção de estradas de ferro e de rodagem e o armazenamento de água. Os resultados dos estudos na região ainda indicaram a construção de barragens ou açudes. O Açude Cedro foi umas das primeiras grandes obras de combate à seca realizadas pelo Governo Imperial. A ordem de construção foi dada pelo imperador D. Pedro II em decorrência do grande impacto social provocado pela seca de 1877, porém o início das obras deu-se durante os governos republicanos entre 1890 e 1906.[carece de fontes?]

Em agosto de 1881, quase dois anos após a seca, "50 por cento dos [refugiados] não haviam retornado" para casa.[55] [carece de fontes?] Pode nunca ser possível verificar a taxa de sobrevivência desses cidadãos deslocados.

Consequências

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A Grande Seca não apenas destruiu vidas e os meios de subsistência dos habitantes do Ceará, como também secou a economia; outrora uma região de pecuária e agricultura, as produções e o desenvolvimento do Nordeste foram devastados pela falta de precipitação. Várias indústrias e instituições capitalizaram sobre o estado de vulnerabilidade dos sobreviventes, levando a que essa exploração e manipulação sistemática fosse cunhada como a "indústria da seca", uma indústria que posteriormente lucrou com "vultosas subvenções imperiais".[55] Esse problema foi mais proeminente nas "colônias agrícolas", um sistema governamental de frentes de trabalho que aspirava tornar os migrantes da seca "autossustentáveis".[31] Na realidade, a "fraude por parte de funcionários públicos", que frequentemente colaboravam com empreiteiros privados, fez com que o esquema fracassasse.[31] Não era raro que o diretor de uma colônia inflasse os números da população do assentamento enquanto desviava suprimentos necessários para sustentar a colônia, incapacitando ainda mais os sertanejos.[72]

Após a queda dos "esquemas de socorro", os sertanejos famintos fugiram em desespero para as mãos ávidas por mão de obra dos barões da borracha. Na Amazônia quente e infestada de doenças, os emigrantes sustentaram a "elite amazônica" e transformaram o que "nunca teria sido uma indústria" em uma extremamente lucrativa.[73] De acordo com a Economic History Association, "o Brasil vendeu quase noventa por cento de toda a borracha comercializada no mundo" durante as décadas seguintes à Grande Seca.[74] Embora parte desse sucesso possa ser creditada à abundância natural de árvores Hevea, os custos de extração tornaram-se substancialmente mais baixos à medida que milhares de cearenses miseráveis entraram na força de trabalho.[73]

Embora alguns poucos — funcionários públicos e barões da borracha — tenham lucrado grandemente com a manipulação da mão de obra barata, a sorte dos sobreviventes atingidos pela fome continuou a piorar. Um artigo publicado pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) especula que o surgimento e a eventual propagação da L. braziliensis é creditada aos imigrantes que retornavam dos seringais.[34] Embora a introdução da doença tenha ocorrido há mais de um século, a L. braziliensis permanece latente: nove estados brasileiros relatam mais de 1.000 casos por ano, com a maioria ocorrendo no Ceará.[75] Além disso, a ocorrência concomitante de uma infecção por leishmaniose com o HIV provou "encurtar o período de incubação e aumentar a progressão [do HIV]".[34] Isso é alarmante considerando o aumento contínuo do HIV no Nordeste do Brasil, especialmente em áreas rurais que apresentam alta prevalência de L. braziliensis.[76]

Embora os efeitos imediatos da Grande Seca tenham sido prejudiciais, o estado sombrio da região persiste com os desdobramentos do desastre. O Nordeste continua sendo uma área empobrecida, com "77% da população rural" permanecendo em pobreza moderada e "51% da população rural em pobreza extrema", apesar dos aumentos gerais na renda per capita.[77] Como um todo, o estado do Ceará tem um dos menores PIB per capita em comparação com outros estados brasileiros, uma média de "R$ 10.473".[78] Considerando que "aproximadamente 50% dos agricultores no Ceará não possuem terra", com muitos possuindo "parcelas pequenas demais para formar uma unidade de produção viável", essas estatísticas são inevitáveis.[79] Isso causa a continuação da vitimização dos sertanejos de baixa renda pelo governo. Muitos políticos atraem os nordestinos através do "clientelismo político", que falha em "afirmar e ajudar as pessoas", mas, em vez disso, "objetifica" os sertanejos.[80]

Imaginário

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Criança Morta, 1944, por Cândido Portinari

A saga do sertanejo fugindo da seca tem servido de inspiração para diferentes gerações de artistas, em vários campos criativos. Com implicações tanto materiais, como a morte e a perda de bens, quanto subjetivas, como a saudade. A peleja do sertanejo contra a natureza foi destaque especialmente na literatura. O romance de 30 mobilizou escritores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e José Américo de Almeida, entre outros.

Nas artes visuais, o pintor Cândido Portinari retratou uma família de retirantes, pessoas que se retiram de uma região à outra em busca de condições melhores de vida. O quadro faz parte de uma série composta por mais duas obras: Criança morta e Enterro na Rede. O tema é a seca, que provocou muitas mortes e uma migração em massa.[81] Na música, a "Triste Partida", criação do poeta Patativa do Assaré, popularizada por Luiz Gonzaga, sintetiza bem o drama.[82] O tema é alvo de pesquisa até hoje, e traz a reboque fenômenos como o cangaço e o messianismo.

Análise do papel do governo

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Contemporânea

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Mais de um século após o fim da Grande Seca, o papel do governo na reabilitação das pessoas e da área ainda mantém sua importância. É vital analisarmos as políticas aplicadas porque "a abordagem da sociedade em relação à gestão da seca é instrutiva sobre como ela pode gerir as alterações climáticas", um problema predominante para a comunidade global do século XXI.[83] O primeiro açude — e tentativa de implementar uma solução para a escassez de água — foi concluído em 1906 e foi seguido pela criação do que hoje é conhecido como o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) em 1909.[84] O estabelecimento da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), que atualmente se tornou o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), visa fornecer uma abordagem tecnológica nas infraestruturas de abastecimento de água. Em seu esforço, 275 grandes barragens foram construídas entre 1909 e 1983.[85] Durante o século XX, o objetivo principal do DNOCS era "aumentar a infraestrutura de armazenamento de água", o que mais comumente significava a construção de reservatórios.[86] Além do uso de reservatórios — que raramente mantêm o armazenamento de água necessário —, uma ampla gama de iniciativas foi concebida para minimizar os impactos das secas: "reassentamento na Amazônia... programas de desenvolvimento rural integrados, crédito, educação e saúde, além da promoção de renda não agrícola."[86] Embora essas tentativas modernas sejam dignas de nota, "as respostas são principalmente reativas [e] de curto prazo", fazendo com que o Ceará careça de "ações piloto com uma visão de longo prazo."[87] Embora existam atualmente "esforços públicos para buscar uma solução de longo prazo para a seca", as áreas afetadas ainda experimentam problemas ambientais — falta de agricultura e escassez de água —, bem como o "clientelismo" e a "corrupção generalizada e manipulação política."[88]

Histórica

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Durante a década de 1870, as finanças do governo brasileiro estavam em um "estado ruinoso."[89] Com um grande déficit orçamentário e um gabinete em inadimplência, muito debate foi necessário para alocar os fundos para o socorro à seca no Ceará.[89] Embora o Ministério do Império e o Ministério da Agricultura tivessem empregado, cada um, 26,9% de suas despesas no socorro à seca até 1879, o dinheiro não foi bem aplicado e os projetos de socorro falharam, pois o governo e o setor privado cometeram fraude e exploração, respectivamente.[90][54] Além disso, no que diz respeito à formulação de políticas públicas, as províncias do Nordeste não tinham voz política suficiente na Assembleia Legislativa Nacional, pois seus assentos no senado eram limitados por sua pequena população em comparação com os outros estados do Sudeste.[91][92]

A falta de infraestrutura era um obstáculo tanto para os retirantes escaparem da seca quanto para o socorro chegar às vítimas, revelando o abandono do governo não apenas durante a seca, mas também antes dela.[93] A seca também foi usada como um meio para estabelecer acordos lucrativos nos quais o governo beneficiava seus aliados ou outros membros da elite. Por exemplo, o presidente de uma companhia nacional de navios a vapor e de uma importante associação comercial investiu em caridade, aumentando consequentemente seu status, já que o alto governo e as associações comerciais no Rio de Janeiro tinham laços fortes.[94]

Ver também

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Referências

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Literatura

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Não-ficção

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