Soneto 66
| Soneto 66 |
|---|
Tir’d with all these, for restful death I cry, |
| –William Shakespeare |
Soneto 66 é um dos 154 Sonetos de Shakespeare, escritos por William Shakespeare em anos do século XVII. Faz parte dos sonetos ao Belo Rapaz. Esses sonetos são dedicados a um jovem e belo homem cuja identidade permanece desconhecida até hoje. Tem havido muita especulação sobre quem esse jovem poderia ser, mas nenhuma identidade foi confirmada até hoje.[1]
Estrutura
[editar | editar código]Estruturalmente, o Soneto 66 é um soneto inglês[2], com 3 quartetos e um dístico, com rimas em ABAB CDCD EFEF GG, em decassílabos em pentâmetro iâmbico.
Sinopse
[editar | editar código]O Soneto 66 é um poema sombrio e deprimente que expressa a irritação e o cansaço do eu lírico em relação ao mundo.[1] É uma lista de queixas, repleta de cansaço e desespero, sobre o estado da sociedade do poeta. O eu lírico critica três coisas: a injustiça generalizada da vida, a imoralidade social e o governo opressor.[3]
Traduções
[editar | editar código]Tradução de Augusto de Campos
[editar | editar código]Um soneto inglês, na forma e no esquema rímico, polimétrico, com versos dodecassílabos alexandrinos em quase todo seu corpo.
Cansado de tudo isso eu clamo pela morte,
Vendo aos pobres faltar a moradia e o pão
E ao ricos amorais caber a boa sorte,
A fé servir aos maus em pífia exploração,
E a mais pura honradez de todo desprezada
A hombridade estuprada e morta pelo vício,
E a perfeição em mau feitio desnaturada,
A força convertida em monstruoso artifício,
E a arte calada com brutal autoridade,
O parvo a comandar o honesto e o diligente,
A verdade curial tida por falsidade
E o cativo servindo ao Capitão demente:
De tão cansado era melhor querer meu fim
Se a morte não roubasse o meu amor de mim.[4]
Tradução de Ana Luísa Amaral
[editar | editar código]Soneto no formato inglês, não se atendo a rimas, e com versos lembrando dodecassílabo alexandrino.[nota 1]
Anseio a suave morte, de tudo tão cansado:
Dos que, tendo valor, no ermo são mendigos,
Dos que carecem nada, mas se trajam de ricos,
Dos mais sagrados votos tristemente quebrados,
Das altas honrarias falsas e imerecidas,
Da virgem virtuosa em meretriz volvida,
Da justa perfeição vilmente injuriada,
Do forte enfraquecido por frouxas influências,
Do génio amordaçado pelo poder regente,
Dos tontos que do engenho são doutos governantes,
Da verdade mais simples simplória ser chamada,
Do bem feito cativo servindo o mal reinante.
De tudo tão cansado, mais valia morrer,
Não fora, se morresse, deixar o meu amor.[5]
Tradução de Paulo Camelo
[editar | editar código]Com estrutura de soneto inglês, com rimas condizentes com a estrutura, feito em [[verso]s decassílabos, em pentâmetro iâmbico, mantendo o ritmo holístico.
Cansado, eu clamo por tranqüila morte
ao ver o ermo, pois nasci mendigo,
alegre e sem necessitar de sorte,
e a fé mais pura eu reneguei comigo,
a honra vergonhosa e mal nascida,
a virginal virtude, escassa, rude,
a perfeição correta haurindo a vida,
a força vacilante, com eu pude,
e a arte à força já silenciada,
a insensatez doutora controlando
a habilidade simples, mal chamada,
o bem servindo o mal de vez em quando.
Eu partiria, a tudo já cansado,
exceto para a morte; eu sou amado.[6]
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta
[editar | editar código]No formato de quatorzain, em monóstrofe, numa tradução próxima à literal, sem métrica, sem ritmo, sem rimas.
Cansado de tudo isto, uma morte pacífica imploro:
Para impedir que nasça o mendigo,
E toda a necessidade termine em descaso,
E a fé mais pura seja tristemente preterida,
E a honra vergonhosamente deslocada,
E a virginal virtude rudemente pisoteada,
E a mais completa perfeição erroneamente desgraçada,
E a força desarmada pelo claudicante,
E a arte amordaçada pela autoridade,
E a loucura controlada pela medicina,
E a verdade confundida com a simplicidade,
E o bem cativo atenda à insanidade.
Cansado de tudo isto, disto tudo me afastaria,
Exceto ao morrer de abandonar o meu amor.[7]
Tradução de Milton Lins
[editar | editar código]Traduziu usando versos dodecassílabos alexandrinos, em ritmos de hexâmetro iâmbico[nota 2] (exceto o verso 2) na forma de soneto inglês e rimas compatíveis com a forma.
Cansado disto tudo, eu clamo pela morte,
E mantendo deserto um pobre renascido,
E nada necessito ornando a sua sorte,
E da mais pura fé adepto empedernido,
E com dourada honra escandalizo o meio,
E a virtude donzela está prostituída,
E a perfeição correta, errando sem rodeio,
E a vã claudicação assim desassistida,
E tu, com língua presa, em mãos da autoridade,
E o doido (qual doutor) controla o conseqüente,
E errando o nome certo, e com simplicidade,
E presos atendendo o capitão doente.
Cansado disto tudo, eu quero ir embora,
Salvo para morrer, o amor eu deixo fora.[8]
Notas
- ↑ Os versos deste soneto foram construídos como dois versos hexassílabos, com uma cesura na posição 6.
- ↑ Milton Lins mudou o ritmo no verso 2, utilizando anapestos no primeiro hemistíquio.
Referências
- 1 2 3 «Sonnet 66». Poem Analysis (em inglês). Consultado em 14 de março de 2026
- ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
- ↑ «Sonnet 66». Wikipedia (em inglês). Consultado em 14 de março de 2026
- ↑ «458 anos de William Shakespeare (23.04.1564 – 23.04.1616) / "Soneto 66", transcriado por Augusto de Campos». Consultado em 14 de março de 2026
- ↑ «Sonetos 8 e 66 de Shakespeare». Jogos florais. Consultado em 14 de março de 2026
- ↑ «Soneto 66 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 14 de março de 2026
- ↑ «Soneto 66». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 14 de março de 2026
- ↑ Shakespeare, William. Sonetos de William Shakespeare/tradutor: Milton Lins. Recife: Ed. do Tradutor, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5